História de quem foi Che Guevara vai te dizer se ele foi um herói ou ...
A figura que a história tentou simplificar
Che Guevara nasceu Ernesto Guevara Lynch em Rosario, Argentina, em 1928. Tinha asma grave desde criança, o que na época significava pouco mais do que gotas de digital e repouso. Cresceu num ambiente de classe média alta, com influências liberais através do avô materno. Estudou medicina na Universidade de Buenos Aires e se formou em 1953. Antes disso, já tinha feito duas viagens importantes: uma pela América do Sul em 1950 e outra, mais famosa, em 1952, de moto e ônibus, que documentou no Diário de Motocicleta. Foi nessa segunda viagem que começou a ver a pobreza estrutural da América Latina com os próprios olhos. Isso mudou algo nele, mas não foi mágica. Pessoas que passam por experiências similares nem sempre se tornam revolucionários.
Quando chegou a Guatemala, em 1954, o presidente Jacobo Árbenz estava implementando reformas agrárias que ameaçavam interesses da United Fruit Company. A CIA organizou o golpe que derrubou Árbenz. Guevara ficou lá, se envolveu, recebeu treinamento militar dos governistas e testemunhou a repressão. Esse período foi decisivo para sua virada política. Antes disso, ele era basicamente um médico argentino de esquerda. Depois disso, decidiu que precisava agir de forma mais concreta.
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A aliança com Fidel Castro e o início da lenda
Guevara chegou a Cuba em 1955, já mudado de perspectiva, e encontrou Fidel Castro no México. Não era o líder carismático que todos conhecem da foto icônica. Era um homem alto, magro, de fala lenta, olhos penetrantes e uma disposição quase obsessiva. Fidel percebeu que precisava de alguém com formação médica e capacidade organizacional. Guevara ganhou o cargo de médico-chefe da expedição do Granma. Mas logo assumiu funções militares também. Durante a guerrilha na Sierra Maestra, ele comandou o Segundo Frente Oriental "Frank País". Demonstrou habilidade tática real, especialmente na batalha de La Plata em dezembro de 1956, onde suas tropas infligiram baixas significativas às forças do ditador Batista.
A fama militar dele cresceu, mas muitos dos relatos exagerados vieram depois. A propaganda revolucionária precisava de heróis. Guevara era prático o suficiente para entender isso e participou ativamente da construção dessa narrativa. Escreveu artigos, deu entrevistas, posou para fotos. Não era um ingênuo.
O homem por trás das imagens
Após a vitória em 1959, Guevara ocupou cargos de grande responsabilidade no novo governo cubano. Foi presidente do Banco Nacional, líder da fábrica de açúcar Ingenio La Cabaña e ministro da Indústria. Como ministro, implementou políticas radicais: nacionalizações, eliminação de salários diferenciados, campanha de alfabetização massiva. Sob sua supervisão na fábrica de açúcar, a produção aumentou significativamente nos primeiros meses. Mas os métodos eram brutais. Trabalhadores eram punidos com prisões e trabalhos forçados por infrações menores. Guevara defendia isso publicamente como necessário para a revolução.
Sua postura sobre justiça e disciplina era inflexível. Havia casos documentados de execuções sumárias durante o período inicial da revolução. Ele esteve presente em julgamentos e assinou sentenças. Isso não é controverso entre historiadores sérios. O que é controverso é como escolher qual aspecto destacar.
Teve um papel central na reforma agrária de 1959. Redigiu a própria lei que eliminou latifúndios. Criou a Junta de Reforma Agrária e colocou milhares de fazendas sob controle estatal. A implementação foi desordenada em lugares, mas o efeito geral transformou a estrutura fundiária cubana radicalmente.
Também foi fundamental na internacionalização da revolução. Viajou à ONU em 1960, conheceu líderes africanos e asiáticos, apoiou movimentos de libertação na África e na América Latina. Sua visão era claramente marxista-leninista, mas com uma ênfase pessoal no heroísmo individual e na vanguarda armada. Diferia de Fidel nessa questão. Fidel era mais pragmático. Guevara acreditava que a revolução precisava ser exportada.
Bolívia: o fim
Em 1966, Guevara entrou na Bolívia disfarçado, levando consigo um pequeno grupo de combatentes cubanos e alguns bolivianos. A ideia era iniciar uma guerrilha que inspirasse revoltas em toda a América do Sul. O plano falhou por vários motivos. Os camponeses locais não se interessaram. A população boliviana desconfiava. Os comunistas bolivianos, liderados por Mario Monje, recusaram apoio. Guevara era teimoso o suficiente para insistir mesmo com sinais claros de fracasso.
O Exército boliviano, treinado e equipado pelos Estados Unidos, encontrou o grupo. Em outubro de 1967, houve o combate de Quebrada del Yuro. Vários guerrilheiros morreram. Guevara foi capturado em La Higuera. Foi executado no dia seguinte, 9 de outubro de 1967, por ordem do presidente boliviano Rene Barrientos. Tinha 39 anos.
O que sobrou
A imagem do Che como símbolo rebelde nasceu após sua morte. Fotógrafos como Alberto Korda capturaram momentos que se tornaram ícones mundiais. A foto mais famosa foi tirada em 1965, mas só ganhou proporções globais anos depois, especialmente durante os protestos de 1968. Hoje, ela aparece em camisetas, adesivos, graffiti. Guevara nunca pediu isso. Talvez nunca aprovasse. Ele era um revolucionário sério, não um ícone pop.
O legado é complexo. Para alguns, é sinônimo de luta contra opressão. Para outros, representa autoritarismo e violações dos direitos humanos. A verdade é que ele foi ambos. Não há como separar o homem da ideologia. O que se sabe é que era disciplinado, culto, fluentemente bilíngue, leitor ávido de literatura e filosofia. Também era implacável quando acreditava estar certo. E estava certo sobre muitas coisas, mas errado sobre outras tanto quanto qualquer pessoa.