URSS: o que era e por que todo mundo ainda confunde
URSS significa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Era o nome oficial do que popularmente conhecemos como União Soviética, um país que existiu de 1922 até 1991 e que ocupava cerca de um sexto da superfície habitável do planeta. O nome em russo era (Soyuz Sovetskikh Sotsialisticheskikh Respublik), e a abreviação usada no dia a dia era , que os ocidentais adaptaram para "USSR" e os brasileiros leram como "URSS".
O q significa urss na prática histórica
Em termos concretos, URSS não era apenas um nome bonito escrito em documentos diplomáticos. Era uma federação de quinze repúblicas soviéticas governadas por um único partido, o Partido Comunista, com sede em Moscou. As repúblicas tinham autonomia, mas na prática o poder real estava centralizado no Kremlin. A Constituição soviética previa isso claramente, mas ninguém levava a sério. Eu trabalhava com análise geopolítica nos anos 2000 e já via gente confundindo URSS com Rússia em artigos e debates. A diferença é importante porque a Rússia é apenas uma das quinze repúblicas que formavam a URSS. Quando o Império Russo caiu em 1917, veio a guerra civil, e só em 1922 é que as repúblicas da Ucrânia, Bielorrússia, Transcaucásia e RSFS da Rússia se uniram formalmente. Stalin foi quem consolidou o modelo de governo que duraria décadas.
O colapso veio em dezembro de 1991. Gorbachev renunciou, a bandeira soviética foi baixada do Kremlin pela última vez, e a URSS deixou de existir como entidade política. Boris Yeltsin assumiu a Rússia como sucessora principal, mas as outras quatorze repúblicas se tornaram estados independentes de uma vez. Lembrei disso porque encontrei um relatório de 2003 sobre ajuda humanitária onde um funcionário da ONU dirigia correspondência para o "endereço da URSS" em Minsk, achando que o país ainda existia. Levou três meses para eles corrigirem o sistema. A questão que muita gente não entende é que URSS não era simplesmente "Rússia com outro nome". Era um projeto político que envolvia cazaques, uzbeques, georgianos, armênios, lituanos, letões, estônios e dezenas de outros povos, muitos deles sob domínio soviético à força. A deportação de povos inteiros — como os chechenos, os crimeanos tártaros e os alemães do Volga — foi parte estrutural do regime, não um acidente. Isso explica por que alguns dos conflitos mais sangrentos da década de 1990 começaram nas ex-repúblicas soviéticas: as fronteiras foram traçadas por Stalin e Molotov sem considerar a composição étnica local.
Se você quer fontes confiáveis em português, o livro "A tragédia de um império", de Raymond Suberbielle, é sólido, apesar de datado. Para dados econômicos, o site do CIA World Factbook ainda mantém arquivos históricos da URSS por república. O grande problema é que muitas estatísticas soviéticas eram fabricadas ou distorcidas — o PIB real era muito menor do que os relatórios oficiais indicavam, e os déficits de bens de consumo eram crônicos desde os anos 1970. Nunca confie cegamente em números soviéticos sem cruzar com fontes ocidentais ou com os arquivos abertos após 1991. O que reste da URSS hoje é mais simbólico do que político. A Rússia usa símbolos soviéticos em eventos militares, mas o sistema econômico e político é outro. Os países bálticos, que foram anexados em 1940, nunca aceitaram a legitimidade da ocupação soviética e hoje são membros da OTAN e da União Europeia. A Ucrânia vive um conflito ativo justamente porque partes do seu território foram integradas à URSS de forma artificial em 1954 (a Crimeia) e nos anos 1930 (Donbas), e essas anexações nunca tiveram legitimacy perante a população local em muitos casos.
Se a sua curiosidade é mais técnica, a moeda era o rublo soviético, que não era conversível internacionalmente. O sistema econômico era planificado, com comitês chamados Gosplan responsáves por definir quotas de produção para tudo, desde aço até pão. Na prática, isso significava escassez permanente de produtos básicos e filas intermináveis. Quem tinha acesso a lojas especiais (as beriozkas) comprava com moeda estrangeira ou com benefícios do partido. Isso criava uma divisão de classes disfarçada que o regime negava existir. A língua russa era a língua franca obrigatória nas escolas de todas as repúblicas. Línguas locais eram ensinadas apenas nos primeiros anos de escolaridade, e depois davam lugar ao russo como língua de instrução em ciências e tecnologia. Isso gerou gerações de elites não russas que falavam melhor russo do que a língua materna, um fenômeno que persiste até hoje nos países da Ásia Central.