Uma pergunta que aparec e sempre nos fóruns de política
Você já deve ter visto essa discussão rodando em comentários de YouTube ou em threads antigas do Reddit. A questão é simples na forma, mas complicada na prática. O nazismo nunca foi de esquerda. Isso não é questão de opinião, é questão de leitura dos fatos. O que torna a coisa confusa é que o nome completo do partido era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. A parte "socialista" fazia parte da estratégia eleitoral de Hitler nos anos 20. Não era propaganda ideológica genuína. Era isso mesmo: propaganda. O programa de 25 pontos de 1920 continha medidas sociais como nacionalização de indústrias e redistribuição de terras que pareciam inspiradas na esquerda, mas que praticamente nunca foram implementadas quando os nazistas chegaram ao poder em 1933.
o nazismo era de direita ou esquerda
Essa é a busca exata que as pessoas digitam quando ficam confusas com o nome do partido. E a confusão é compreensível, mas se resume a uma coisa: o nazismo era essencialmente uma forma extrema de nacionalismo com elementos autoritários de direita, não de esquerda. A esquerda, pelo menos na tradição marxista e social-democrata que existia na Alemanha da época, via a luta de classes como motor da história. Os nazistas viam a luta de raças. Duas coisas completamente diferentes. Dito isso, tem um detalhe importante que muita gente esquece. A Alemanha nazista adoptou algumas políticas econômicas que pareciam intervencionistas, tipo controle de preços e directionamento da produção para o esforço de guerra. Isso é verdade. Mas intervenção estatal na economia não faz automaticamente um regime socialista. A Itália fascista também intervenia na economia, e ninguém coloca Mussolini na esquerda. O ponto central é quem controlava o Estado e para que fim. Na Alemanha nazista, o poder pertencia a uma elite composta por industriais, militares e agrários, todos alinhados com a ideologia racial do partido.
Eu fiquei alguns anos estudando a economia de guerra alemã durante a Segunda Guerra. A primeira vez que percebi que a terminologia "economia planejada" era enganosa foi quando li os diários de Albert Speer sobre a produção bélica. O sistema não era um planeamento centralizado no sentido soviético. Era um caos de competências sobrepostas entre o partido, o exército e as empresas privadas, todas competindo pela mesma produção de aço e petróleo. Esse modelo caótico de comando funcionava bem em tempos de guerra rápida, mas desmoronava quando a guerra se arrastava. Os soviéticos tinham um sistema mais eficiente de planeamento estatal, ironicamente. Agora vou para o ponto que realmente responde à pergunta: o que aconteceu com os comunistas e socialistas alemães depois de Hitler chegar ao poder. Os primeiros campos de concentração foram criados para presos políticos de esquerda. A SA, a tropa de choque nazista, tinha no início uma ala liderada por Ernst Röhm que falava em "segunda revolução" contra o capital. Em 30 de junho de 1934, Hitler mandou matar Röhm e centenas de membros da SA num evento chamado Noite dos Facões Longos. Isso foi fundamental para consolidar o poder. Significava que a promessa de mudança social feita pelos nazistas nas fases iniciais era pura ficção.
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Outro aspecto relevante, e aqui vai algo que poucos consideram, é a relação do nazismo com o movimento trabalhista organizado. Os nazistas dissolveram os sindicatos em maio de 1933, prenderam líderes sindicais e proibiram greves. Substituíram os sindicatos pela Frente Alemã do Trabalho, que na prática era um mecanismo de controle estatal sobre os trabalhadores, não de representação deles. Um partido de esquerda jamais faria isso. É o oposto completo do que a esquerda defende. Do ponto de vista da historiografia acadêmica, também há consenso quase total nessa área. O historiador Ian Kershaw, que escreveu a biografia definitiva de Hitler, classifica o nazismo sem hesitação como extrema-direita. A mesma posição adota Timothy Mason em suas análises sobre a estrutura de classe do Terceiro Reich. Até mesmo críticos da esquerda liberal, como Noam Chomsky, que tende a ser bastante severo com o capitalismo ocidental, reconhece explicitamente que o nazismo era um regime de direita.
Existe ainda um argumento mais sofisticado que merece atenção, embora seja marginal na academia. Alguns teóricos da extrema-esquerda, influenciados por pensadores como Norman Cohn, argumentaram que o nazismo tinha origem nas elites financeiras e industriais alemãs como uma resposta preventiva ao perigo comunista. Mesmo nessa versão, o nazismo não é enquadra do lado esquerdo. Ele é uma reação da direita contra a esquerda, não uma variante da esquerda. Se você está pesquisando esse tema para debater em fóruns ou redes sociais, o erro mais comum que as pessoas cometem é confundir retórica econômica com ideologia política completa. Ter medidas de welfare state num regime não o torna socialista. A Suécia tem welfare state e é capitalista. A Alemanha nazista tinha controle estatal da produção e era capitalista. O critério não é a presença ou ausência de intervenção estatal, mas sim a estrutura de classe, a relação com o sistema de partidos e a ideologia subjacente. No caso nazista, todos os indicadores apontam consistentemente para a extrema-direita.
Uma última coisa que vale mencionar: o nazismo se autodefinia explicitamente como opositor tanto do bolchevismo soviético quanto do liberalismo capitalista anglo-americano. Ele via ambos como ameaças judaicas à raça alemã. Se um regime se define como inimigo mortal tanto da esquerda marxista quanto da direita liberal, chamar ele de "esquerda" por causa de um adjetivo no nome do partido é um erro hermenêutico grave. É como chamar um animal de "girafa" só porque ele come folhas, ignorando que ele não tem pescoço, não habita savanas e tem chifres de pele. O nazismo era um produto da direita radical europeia do século XX. Point final.