Guimarães Rosa: o cara que quase destruiu a língua portuguesa
João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Era filho de médico de família, então ele teve educação razoavelmente boa e foi enviado pra Belo Horizonte, depois pro Rio de Janeiro, pra estudar direito. Formou-se em 1933, mas nem chegou a exercer a advocacia de verdade. Passou a vida toda entre a carreira diplomática e a escrita, viajando pelo Brasil todo como cônsul em vários lugares da Europa e dos EUA. O que a maioria das pessoas não sabe é que ele era poliglota. Falava português, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, além de ter contato com outras línguas nas missões diplomáticas. Isso influenciacada palavra que ele escreveu.
quem foi guimarães rosa
Ele escreveu basicamente uma obra única de ficção: Sagarana (contos, 1946), Grande Sertão: Veredas (1956), Corpo de Baile (coletânea, 1956), Primeiras Estórias (contos, 1962), e A Hora e a Vez de Augusto Matraga (conto longo, 1952). Morreu em 1967, num hospital do Rio, de enfarte. Tinha 59 anos. A parte mais importante, a que ninguém entende quando lê qualquer coisa superficial sobre ele: Guimarães Rosa não escreveu "literatura regionalista". Ele pegou o sertão nordestino, as linguas do sertanejo, os mitos, os cangaceiros, as histórias de cordel, e construiu algo completamente diferente. Um idioma próprio dentro do português.
Eu já tentei ensinar Grande Sertão: Veredas num curso de literatura brasileira. O problema é que o livro tem um narrador que não para de se contradizer, e a gente fica tentado a achar que Riobaldo está mentindo ou sendo ambíguo de propósito. A verdade é mais simples: Riobaldo tá tentando se explicar, e a memória dele funciona de forma fragmentada. Quando o pessoal tenta "decifrar" se ele era ou não diabólico, perde tempo. O ponto não é o que aconteceu, é como ele processa o que aconteceu. Fui obrigado a parar a turma nesse ponto e simplesmente ler as primeiras 20 páginas em voz alta pra eles sentirem o ritmo. Funcionou. Tem um detalhe técnico que os manuais de literatura ignoram: a sintaxe de Guimarães Rosa é influenciada pela estrutura do português europeu arcaico e por estruturas de outras línguas. Quando você lê "eu não sabia se o diabo existia, existia, não existia", isso não é apenas estilismo. É uma construção que mistura a ordem dos constituintes do português europeu com uma recursividade que aparece muito mais na prosa filosófica do que na narrativa tradicional brasileira.
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Outro ponto que passa despercebido: a ortografia. Ele criava palavras novas usando a tradição ortográfica portuguesa, não a brasileira que já estava se consolidando. Isso gera confusão na hora de estudar. Palavras como "desvariar", "enquadrar", "ajuramentar" não existem no dicionário padrão. Ele as inventou a partir de radicais conhecidos. Se você tentar buscar "ajuramentar" numa pesquisa rápida, não vai encontrar. A melhor abordagem é decompor: "aju-" + "juramentar" = juramentar com alguém, fazer juramento junto. O sentido fica claro quando você faz essa análise morfológica. Também tem a questão do tempo verbal. Grande Sertão: Veredas é narrado em primeira pessoa, mas o narrador conversa com o interlocutor hipotético (o "senhor doutor") o tempo inteiro. Isso cria uma estrutura de diálogo interno que desmonta a linearidade. O livro tem 72 capítulos, sim, mas não é linear. Cada capítulo é um flússio de memórias, e a transição entre passado e presente é feita por associações, não por conectivos temporais. Li a obra inteira pela primeira vez quando tinha 22 anos e achei que era impossível acompanhar. Demorei quatro anos pra entender que não precisava acompanhar. O livro não foi feito pra ser acompanhado, foi feito pra ser sentido. Cada releitura traz camadas diferentes.
Quanto aos prêmios e reconhecimento: ganhou o Prêmio Antônio Ribeiro Couto, do Instituto Brasileiro de Livro, em 1957, por Grande Serrão: Veredas. O livro foi traduzido pra mais de 40 idiomas. A UNESCO o incluiu na lista de obras fundamentais do século XX. Mas o reconhecimento externo é o menos interessante. O que importa é o que ele fez com a língua portuguesa. Antes dele, a prosa brasileira tinha duas correntes principais: o regionalismo realista e o modernismo paulista. Ele criou uma terceira via: uma prosa que era ao mesmo tempo erudita e popular, que usava o vernáculo sertanejo com uma precisão cirúrgica e elevava aquilo a uma linguagem literária de altíssimo nível. Se você quer começar a ler, a ordem mais prática é: Primeiras Estórias primeiro (é mais acessível, são contos menores), depois A Hora e a Vez de Augusto Matraga (um conto longo que mostra a evolução dele), e só então Grande Serrão: Veredas. A maioria das edições modernas já vêm com notas explicativas que ajudam bastante, especialmente nas palavras inventadas.
Uma ressalva importante: há edições comentadas e há edições anotadas. As comentadas tendem a explicar demais e acabar estragando a experiência de leitura. As anotadas são mais discretas. Prefira sempre as versões anotadas, com notas de rodapé, não os comentários integrados ao texto. A obra completa de Guimarães Rosa está disponível em várias editoras. A mais confiável é a edição da Companhia das Letras, que mantém o texto crítico estabelecido por João Guimaraens Rosa e seus editores. A Record também tem uma versão boa, mais barata, mas às vezes com erratas. Se for ler digitalmente, o projeto Gutenberg não tem a obra completa em português de forma confiável. Use as editoras impressas mesmo.
Um detalhe prático que muita gente ignora: o som das palavras no português brasileiro moderno mudou tanto que Guimarães Rosa escreveu com uma fonética que hoje soa estranha. Por isso, recomendo fortemente que quem está lendo pela primeira vez leia em voz alta, especialmente os trechos de Grande Sertão: Veredas. O ritmo da frase é parte do sentido. Ler silenciosamente é como ouvir uma sinfonia num celular com alto-falante quebrado.