Qual A Função Da Pâncreas - Função do pâncreas | Qual a função do pâncreas, Faculdade veterinaria ...
Função do pâncreas | Qual a função do pâncreas, Faculdade veterinaria ...

O pâncreas não é só sobre insulina

A pergunta qual a função da pâncreas parece simples, mas a resposta que a maioria das pessoas dá já corta pela metade do caminho. O pâncreas tem duas funções totalmente independentes funcionando ao mesmo tempo, e elas raramente são explicadas juntas da forma correta.

Qual a função da pâncreas: o básico que as pessoas esquecem

O pâncreas é um órgão retroperitoneal, localizado atrás do estômago, e ele trabalha como duas glândulas em um só envelope. Uma parte faz o que chamamos de exócrina — secreta enzimas digestivas direto no duodeno. A outra parte é a endócrina, e é onde ficam as Ilhotas de Langerhans, que produzem insulina, glucagon e somatostatina. A parte exócrina representa cerca de oitenta por cento da massa do órgão. São os acinos pancreáticos que produzem tripsina, quimotripsina, lipase e amilase pancreática. Essas enzimas entram no ducto pancreatico principal e seguem para o intestino delgado. Sem essa função, você não consegue digerir gordura de verdade. Uma pessoa com insuficiência exócrina do pâncreas perde peso rápido, tem fezes oleosas e ainda assim pode ser diagnosticada tarde porque os sintomas parecem coisa de intestino.

A parte endócrina é muito menor, talvez dois a três gramas de tecido espalhado em ilhotas por todo o órgão. As células beta produzem insulina. As células alpha produzem glucagon. As delta produzem somatostatina. Juntas, elas mantêm a glicemia estável entre jejum e pós-prandial. Isso é o que todo mundo conhece. O que as pessoas não entendem é que essas duas funções estão fisicamente conectadas de um jeito que causa confusão clínica. Quando o pâncreas inflama — pancreatite aguda — as enzimas digestivas começam a se ativar dentro do próprio órgão antes de saírem para o intestino. A auto-digestão começa literalmente. Já vi isso no prontuário de vários pacientes que chegaram com dor epigástrica irradiando para as costas, náusea e amilase sérica acima de três vezes o limite superior. O tratamento é suporte: hidratação, controle de dor, jejum oral até a evolução permitir. Não existe remédio que desliga a enzima uma vez que ativou.

Um detalhe que pouca gente sabe: a pancreatite crônica destrói primeiro a parte exócrina e só depois a endócrina. Por isso um paciente com pancreatite crônica alcoólica pode ter diarréia e má-absorção por anos antes de desenvolver diabetes. Chama-se diabetes tipo 3c quando esse cenário acontece. Não é diabetes tipo 1, não é tipo 2. É uma entidade separada que responde diferente à terapia.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Como a regulação funciona na prática

A secreção pancreática é controlada por hormônios gastrointestinais e pelo sistema nervoso autônomo. Quando a comida entra no estômago, a distensão ativa o sistema parassimpático via nervo vago. Isso libera acetilcolina nos acinos e nas células das ilhotas. A acetilcolina por si só estimula secreção enzimática moderada. Mas o verdadeiro motor da fase cefálica e gástrica é a colecistoquinina — a CCK. A CCK é liberada pelas células I do duodeno quando ácidos graxos e aminoácidos chegam ao intestino. Ela viaja pelo sangue até o pâncreas e dispara a secreção massiva de enzimas. Simultaneamente, ela contrai a vesícula biliar e relaxa o esfíncter de Oddi. Se alguém remove a vesícula cirurgicamente, a CCK ainda funciona normalmente no pâncreas. A confusão aparece quando o paciente opera a vesícula e depois passa a ter diarréia, achando que é complicação. Na verdade, é má-absorção de gordura porque agora a bile não tem reservatório. O pâncreas continua produzindo enzimas, mas sem bile adequada a emulsificação cai.

Já o glucagon é o contraponto da insulina. Ele é secretado pelas células alpha quando a glicemia cai. Age no fígado estimulando a glicogenólise e a gliconeogênese. Em condições normais, insulina e glucagon se equilibram com precisão cirúrgica. Na diabetes tipo 1, as células beta são destruídas e o glucagon passa a ser secretado de forma desregulada, contribuindo para a hiperglicemia de uma forma que a maioria dos médicos generalistas subestima. Tratar apenas a insulina sem considerar o glucagon deixa lacunas importantes no controle glicêmico.

O que acontece quando algo dá errado

Tumores de pâncreas são um problema sério. O adenocarcinoma do pâncreas representa cerca de três por cento dos cânceres mas cerca de sete por cento das mortes por câncer. A razão é simples: o órgão fica escondido atrás do estômago e na maior parte dos casos só manifesta sintomas quando já invadiu estruturas vizinhas. Um tumor na cabeça do pâncreas pode comprimir o colédoco e causar icterícia obstrutiva antes de causar qualquer dor. Um tumor no corpo ou cauda costuma crescer silenciosamente até dar sintomas metastáticos. Já citei casos de pacientes que foram atribuídos como tendo problema hepático ou de vesícula porque a icterícia era o primeiro sinal. Só após a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica — a CPRE — ou a ressonância magnética é que descobriam o tumor na verdade. O ponto é que o pâncreas não grita quando está_doente. Ele sussurra.

Outro cenário frequente é o cisto pancreático. A maioria é inofensiva e descoberta incidentalmente em tomografias feitas por outro motivo. Alguns, porém, são cistos mucinosos que têm potencial de transformação maligna. O acompanhamento com ressonância seriada e dosagem de CEA no fluido cístico é o que diferencia o monitoramento tranquilo da indicação cirúrgica preventiva. Sem esses dados, acaba-se operando paciente que não precisava ou deixando passar cisto que precisava.

Conclusão prática sobre qual a função da pâncreas

O pâncreas é simultaneamente uma glândula digestória poderosa e um regulador metabólico fino. A parte exócrina processa gorduras, proteínas e carboidratos. A parte endócrina regula glicose, lipídeos e até a secreção de outros hormônios. Uma lesão pode atingir uma parte e preservar a outra, e isso muda completamente o quadro clínico. Entender essa dualidade evita diagnósticos apressados e tratamentos incompletos.