Pe Antonio Vieira Sermão Da Sexagésima - Sermao Da Sexagésima Pe Antonio Vieira - RETOEDU
Sermao Da Sexagésima Pe Antonio Vieira - RETOEDU

Entendendo o Sermão da Sexagésima de Pe. António Vieira

O Sermão da Sexagésima é uma das obras mais citadas de António Vieira (1608–1697), pregador jesuíta português que passou grande parte da vida no Brasil colonial. O sermão foi pronunciado em 1655, na igreja do Colégio de Salvador, Bahia, e tem como base bíblica a parábola dos lavradores iníquos, encontrada em São Mateus, capítulo 21, versículos 33 a 41. A parábola fala de um senhor que plantou uma vinha, a arrendou a uns lavradores e, ao enviar servos para cobrar seus frutos, viu que os lavradores os maltratavam e até matavam. Por fim, enviou seu próprio filho, esperando que o respeitasse, mas os lavradores também o mataram.

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O sermão não é apenas um texto religioso. Vieira usa a parábola para fazer uma crítica política e social direta aos colonizadores portugueses que exploravam os povos originários. Ele argumenta que os lavradores maus representam os colonos que tratam os indígenas como animais, negando-lhes a fé e a humanidade. Essa leitura contextual é o que torna o texto tão estudado até hoje. A estrutura retórica de Vieira segue o modelo jesuítico da época: exordium, narratio, partition, confirmatio, confutatio e peroratio. Mas o que diferencia o Sermão da Sexagésima é a forma como ele entrelaça exegese bíblica com argumentação política sem nunca perder o fio da meada. Isso não é fácil de fazer bem.

O que eu vi acontecer com frequência é que leitores modernos tendem a simplificar demais a leitura. Eles pegam a crítica social e acham que é só isso. O sermão funciona em pelo menos três camadas: a exegese literal da parábola, a aplicação moral aos colonizadores, e uma terceira camada escatológica onde Vieira fala do juízo final e da responsabilidade diante de Deus. Ignorar uma dessas camadas empobrece a compreensão do texto. Quando eu precisava trabalhar com esse sermão em contexto acadêmico, o maior problema que encontrei era a diferença entre as edições disponíveis. Há versões modernas que adaptam a ortografia, outras que mantêm o português do século XVII sem notas. Se você não prestar atenção a isso, pode passar horas tentando entender um trecho que simplesmente foi "atualizado" de forma inadequada pela editora. Minha solução prática era cruzar sempre com a edição da Nova Cultural (coleção "Os Mej lhores Escrito res"), que traz aparato crítico consistente e notas explicativas. Leva um tempo a mais, mas evita retrabalho.

como ler e interpretar o sermão

O sermão se divide naturalmente em quatro partes principais. Na primeira, Vieira expõe o texto bíblico e faz uma análise gramatical e histórica dos versículos. Aqui ele mostra domínio filológico — conhece hebraico, grego e latim, e usa essas línguas para fundamentar cada ponto. Muitos leitores pulam essa parte, mas é nela que se vê a verdadeira engenharia retórica do padre. Na segunda parte, ele transpõe a parábola para a realidade brasileira. Os lavradores iníquos são os colonos portugueses. A vinha é o Brasil. Os servos enviados anteriormente são os missionários que tentaram catequizar os indígenas e foram mortos ou expulsos. O filho do senhor é Cristo, mas a referência mais imediata para o público da época seriam os próprios jesuítas e sua missão.

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A terceira parte é a mais densa. Vieira desenvolve argumentos teológicos sobre a justiça divina e a responsabilidade humana. Ele argumenta que Deus, como senhor da vinha, há de cobrar punição dos lavradores rebeldes. Aqui ele faz uso extensivo de Padres da Igreja, teólogos escolásticos e direito canônico. Se você não tem familiaridade com esse vocabulário, o texto pode parecer travado, mas os argumentos são rigorosos. A quarta e última parte é a aplicação prática e a conclusão. Vieira pede que os ouvintes refletam sobre sua própria conduta e se arrependam. O sermão termina com uma chamada à justiça e à compaixão, sem concessões retóricas.

Uma coisa que pouca gente menciona é o uso da ironia como recurso estratégico. Vieira frequentemente faz elogios aparentes aos colonizadores que, lidos com atenção, são na verdade condenações veladas. Isso era necessário porque ele estava diante de uma plateia onde muitos dos auditores eram os próprios acusados. A ironia serve como mecanismo de defesa e de ataque ao mesmo tempo.

onde encontrar o texto completo

O sermão está disponível gratuitamente em.domínio público. O site do Projeto Gutenberg Brasil, a Biblioteca Nacional Digital e o portal Domínio Público do Ministério da Educação do governo brasileiro hospedam versões digitadas. A versão mais confiável que já usei é a da Biblioteca Digital Lusófona, que permite busca por palavra-chave dentro do texto integral. Para uso acadêmico, recomendo a edição crítica do Instituto Camões, disponível online, que inclui variantes textuais e notas de rodapé. Se você quiser uma versão impressa, as editoras Nova Frontiera e Esfera dos Livros publicaram coletâneas dos sermões de Vieira com introduções e comentários. A mais completa é a edição da Biblioteca Azul, em cinco volumes, organizada por Clóvis Moura. É mais cara, mas se você vai trabalhar com Vieira regularmente, compensa ter.

erros comuns ao estudar o sermão

O erro mais frequente é tratar o sermão como um documento puramente histórico ou sociológico e ignorar sua dimensão teológica. Vieira era jesuíta e escrevia como tal. Sua intenção primeiro era espiritual, não política. O argumento político emerge da base teológica, não o contrário. Inverter essa ordem leva a leituras reducionistas que não resistem a uma análise séria. Outro erro é subestimar a complexidade linguística. O português do século XVII é diferente o suficiente para causar confusão, especialmente nos usos arcaicos de palavras como "senhor", "vinha" e "lavrador", que têm conotações específicas no contexto bíblico e colonial. Consultar um glossário de português quinhentista antes de começar ajuda muito.

Também é comum citar trechos do sermão fora de contexto. Como o texto é longo e retoricamente rico, uma frase isolada pode parecer dizer algo que o autor não pretendia. Sempre verifique o parágrafo inteiro e, se possível, o parágrafo anterior e seguinte antes de fazer referência. O Sermão da Sexagésima continua sendo um texto vivo porque suas questões ainda ressoam. A exploração, a violência estrutural, a responsabilidade diante do outro — tudo isso está presente no sermão de 1655 e presente hoje também. A diferença é que agora temos ferramentas melhores para ler criticamente o que Vieira escreveu, e isso é importante.