Entendendo os domínios morfoclimáticos do Brasil
Muita gente confunde domínio morfoclimático com bioma ou com domínio vegetacional. São coisas relacionadas, mas não iguais. O conceito vem do geógrafo Aziz Ab'Saber e ele é útil justamente porque tenta conectar clima, relevo e vegetação de uma vez só, em vez de analisar cada fator isoladamente.
oq sao dominios morfoclimaticos
Dominíos morfoclimáticos são grandes porções do território definidas pela interação entre o clima, o relevo e a cobertura vegetal que se estabelece como consequência dessa combinação. No caso do Brasil, Ab'Saber identificou seis domínios principais. Cada um tem características bem específicas que se repetem em áreas contíguas. O domínio amazônico cobre a bacia do Rio Amazonas e tem clima equatorial úmido, relevo de planície e bacia sedimentar, e vegetação de floresta tropical densa. O domínio da mata atlântica, por sua vez, abrange a faixa litorânea e tem clima tropical úmido, relevo de serra e planalto, com vegetação de floresta ombrófila densa. A caatinga corresponde ao domínio do semiárido, com clima tropical semiárido, relevos de serras residuais e vales, e vegetação xerófita adaptada à seca.
O domínio do cerrado reúne o clima tropical sazonalmente seco, relevos de planalto e chapadões, e vegetação de savana com árvores retorcidas e raízes profundas. Já os pampas gaúchos formam o domínio das pradarias, com clima subtropical úmido, relevos de planície e depressão, e vegetação herbácea aberta. O último domínio, às vezes chamado de domínios das terras altas meridionais ou dos vales fluviais erosivos, é mais discreto e aparece nas regiões de Planalto Sulino com clima subtropical e vegetação de floresta com araucárias. Aqui vai algo que os livros didáticos normalmente não explicam direito: o domínio morfoclimático não é uma fronteira rígida. As transições entre eles são zonas de contato chamadas de ecótonos, e é nessas áreas de transição que as coisas ficam complicadas na prática. Eu já enfrentei isso direto na elaboração de estudos de impacto ambiental para uma obra rodoviária no limite entre o cerrado e a caatinga no Piauí. O zoneamento clássico assignava a área ao domínio semiárido, mas o solo, o relevo e a vegetação observada in loco demonstravam características mistas, típicas de um ecótono bem definido. A solução foi fazer uma análise detalhada com imagens de satélite multiespectrais, combinar com dados edafoclimáticos de campo e, finalmente, elaborar uma unidade paisagística intermediária que refletisse a realidade local, em vez de forçar a área dentro de uma das duas categorias estabelecidas.
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Outro ponto que passa despercebido é que o conceito original de Ab'Saber foi formulado nos anos 1970, antes da disponibilidade de sensoriamento remoto de alta resolução e dos modelos climáticos atuais. Isso não invalida a classificação, mas significa que algumas divisões precisam de ajustes quando se trabalha com dados contemporâneos. Por exemplo, a expansão das fronteiras agrícolas alterou drasticamente a cobertura vegetal de parte considerável do domínio do cerrado, especialmente no Mato Grosso e no Goiás, o que exige que se considere o grau de anthropização ao aplicar o conceito em projetos reais. Um erro comum é tratar os domínios morfoclimáticos como se fossem unidades fixas e imutáveis. Eles mudam com o tempo, tanto por processos naturais quanto por pressão humana. O avanço do semiárido sobre áreas adjacentes, a degradação da mata atlântica que hoje resta menos de dez por cento da cobertura original, e a conversão do cerrado em lavoura são exemplos claros disso. Quem trabalha com zoneamento ambiental precisa levar isso em conta.
Na prática, se você precisa identificar domínios morfoclimáticos para um relatório técnico, o caminho mais direto é começar pelos mapas de unidades de relevo e climáticos do IBGE e do INMET, sobrepor com a cobertura vegetal do MapBiomas e validar com dados de campo nos pontos críticos. Esse processo costuma levar entre três e cinco dias úteis para uma área média, dependendo da complexidade do terreno e da disponibilidade dos dados. O principal limitação do conceito é que ele é descritivo por natureza. Ele classifica, mas não explica processos. Se o seu objetivo é prever como uma área vai responder a uma mudança de uso do solo ou a um evento climático extremo, o domínio morfoclimático sozinho não é suficiente. Nesse caso, combina-se com modelos de suitability, análise de vulnerabilidade e dados hidrológicos para ter uma visão mais completa.
Para quem quer os mapas de referência, o site do IBGE mantém o mapa geomorfológico do Brasil disponível gratuitamente, e o INPE disponibiliza as séries temporais do MapBiomas que ajudam a visualizar as mudanças de cobertura ao longo dos anos. Esses dois recursos, usados em conjunto, cobrem a maior parte das necessidades para delimitação de domínios morfoclimáticos em projetos técnicos.