Onde E Quando Surgiu O Carnaval - Como, quando e onde surgiu o Carnaval - Blog da Mari Calegari
Como, quando e onde surgiu o Carnaval - Blog da Mari Calegari

A Origem do Carnaval: Entre o Brasil e a Europa

O carnaval como conhecemos hoje tem duas matrizes principais. Uma vem das festas carnavalescas europeias, especialmente das tradições portuguesas do Entrudo, que eram desfiles de rua com borrifeiros de água e farinha. A outra matriz é africana, trazida por populações escravizadas que trouxeram ritmos, danças e formas de expressão coletiva que transformaram radicalmente a festa.

Onde e quando surgiu o carnaval

As primeiras manifestações carnavalescas organizadas no Brasil aconteceram na segunda metade do século XVIII, durante o período colonial. OEntrudo português chegou ao território americano através dos colonizadores portugueses, que adaptaram suas celebrações às condições locais. O Entrudo original era uma bagunça de rua, sem muita estrutura, onde as pessoas atiravam água, limões-de-cheiro e farinha umas nas outras. As classes mais abastadas se protegiam em carruagens fechadas ou janelas altas. O que mudou tudo foi a chegada da população negra escravizada e, posteriormente, liberta, que trouxe seus ritmos e danças. O frevo, o maracatu, o samba — essas expressões culturais foram o que realmente construíram o carnaval brasileiro como conhecemos. O primeiro bloco carnavalesco documentado no Brasil foi o Cordão Oba de Erô, fundado em 1918 no Rio de Janeiro, mas já existiam grupos informais de rua nas décadas anteriores.

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Em Salvador, a tradição dos trios elétricos começou nos anos 1950, quando o cantor Dodô e o compositor Osmar foram os primeiros a montar um sistema de som em cima de um automóvel. Antes disso, os blocos de rua eram puramente acústicos, com instrumentistas caminhando pela cidade. Um detalhe que poucos conhecem: o carnaval de rua no nordeste do Brasil, particularmente em Recife e Olinda, mantém uma estrutura quase intacta desde o final do século XIX. Os maracatus na Sé e os caboclos de lança ainda usam coreografias e indumentárias que remontam diretamente às práticas africanas do Congo e de Angola. Isso não é folclore preservado em museu — são comunidades ativas que continuam produzindo cultura viva.

Na minha experiência visitando esses grupos ao longo dos anos, posso dizer que o que mais surpreende é a estrutura organizacional quase militar dos maracatus. Cada função dentro do cortejo tem um significado preciso: o Mestre Sala preside, as Porta-Bandeiras carregam estandartes específicos, e os Alfaiais marcam o ritmo central. Errar uma posição na parada pode significar desequilibrar todo o arranjo sonoro, já que os tambores estão posicionados em ângulos estratégicos para cobrir a multidão. Outro ponto negligenciado: o Carnaval do Rio de Janeiro, com seu desfile nas esquinas da Sapucaí, nasceu de uma competição entre escolas de samba que começou nos anos 1930, durante o governo Vargas. Getúlio Vargas viu na união dos negros e mestiços uma forma de promover a ideia de democracia racial. As escolas de samba foram, ironicamente, instrumentalizadas pelo Estado, mas os comunidades que as criaram souberam manter sua autonomia artística dentro daquela estrutura.

Se você quer documentar ou estudar essas tradições, recomendo começar pelos arquivos do Museu do Carnaval, em São Paulo, ou pelo Acervo Cultural do Carnaval, mantido pela Prefeitura do Rio. Ambos possuem material digitalizado acessível online. A maior dificuldade que encontro ao pesquisar é a fragmentação das fontes — muitos documentos estão em acervos municipais dispersos, sem índice unificado. Uma solução prática é entrar em contato diretamente com as associações de escolas de samba, pois elas costumam ter histórico familiar ou comunitário documentado em papel que nunca foi digitalizado. O carnaval brasileiro hoje é uma indústria que movimenta bilhões de reais por ano, mas suas raízes estão na resistência cultural de populações marginalizadas. As manifestações que sobreviveram até hoje não o fizeram por acaso — sobrevivem porque são estruturalmente resistentes, adaptáveis e profundamente enraizadas nas comunidades que as produzem.