Como funciona a nutrição vegetal na prática
A maioria das pessoas começa com os três macronutrientes — NPK — e para aí. O nitrogênio é fácil porque faz a planta crescer devagar ou rápido, dá para ver a olho nu. O fósforo é aquele que ninguém tem certeza se está passando bem ou não, e o potássio é o que separa uma folha grossa de uma folha mole que quebra com o vento. Aí vem a parte que ninguém gosta: micronutrientes quelados, pH da solução, condutividade elétrica, a forma como cada elemento compete com o outro pela absorção radicalar. Eu trabalho com isso há mais de uma década em diferentes sistemas — solo, hidroponia, substratos orgânicos. O que vou escrever aqui é o que funciona no campo, não o que está nos manuais acadêmicos.O que é nutrição vegetal de verdade
Nutrição vegetal é o conjunto de processos pelos quais uma planta absorve e utiliza elementos essenciais do meio para completar seu ciclo de vida. São 17 elementos reconhecidos até agora. Carbono, hidrogênio e oxigênio vêm do ar e da água. Os outros do solo ou da solução nutritiva. Sem nenhum deles, a planta para de crescer ou morre. Não adianta encher o solo de nitrogênio se o ferro estiver indisponível por causa do pH errado. A disponibilidade de cada nutriente varia com o pH. Aqui vai uma coisa que pouca gente sabe: em pH acima de 7,5, o ferro praticamenteFecha e entra em forma insolúvel. A planta pode ter ferro no substrato, mas não consegue acessar. A correção não é jogar mais ferro, é ajustar o pH para a faixa de 5,5 a 6,5 na maioria das culturas.Montando uma solução nutritiva básica
O passo a passo real, não o que aparece nos vídeos de YouTube. Primeiro, defina a cultura e a fase. Uma alface em fase vegetativa precisa de uma relação N:P:K bem diferente de uma tomateira entrando em frutificação. Segundo, escolha a fonte de cada nutriente. Sulfato de amônio para nitrogênio, fosfato monoamônico para fósforo e nitrogênio, sulfato de potássio para potássio. Evite nitrato de cálcio misturado com sulfato de magnésio na mesma reserva concentrada — forma precipitado de sulfato de cálcio e entope sua linha de gotejamento. Sempre dissolva em reservatórios separados e injete com bomba dosadora. Terceiro, meça o pH e a CE antes de aplicar. A CE indica quantos sais estão dissolvidos. Para mudas, fica em torno de 0,8 a 1,2 mS/cm. Plantas adultas de tomate podem aguentar 2,5 a 3,5 mS/cm. Abaixo disso, a planta come menos. Acima, há risco de toxidez e queima radicular.Ajuste o pH com ácido fosfórico ou nítrico para baixar, e com hidróxido de potássio ou cálcio para subir. Evite soda cáustica — é perigosa e destrói a estrutura do substrato se derramar errado.
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Um problema real que eu tive e como resolvi
Num cultivo de morango em substrato de coco, as pontas das folhas mais velhas começavam a ficar com bordas marrons e secas. O sintoma parecia deficiência de potássio. Testei a solução no substrato, estava tudo certo nos níveis de K. Aí percebi que a condutividade eletrônica na zona radicular tinha subido para 4,2 mS/cm por causa da acumulação de sais de cloreto vindo da irrigação. O excesso de cloreto estava bloqueando a absorção de potássio. A solução foi fazer uma lixiviação de 20% da volume de substrato com água de baixa condutividade, baixar a CE da solução nutritiva para 2,8 e trocar a fonte de potássio de cloretura para sulfato. Em cinco dias, o sintoma parou de evoluir. Novas folhas nasceram normais.Sintomas visuais que valem mais que testes de laboratório
Clorose interveial em folhas novas com veias verdes pronunciadas é praticamente sinônimo de deficiência de ferro ou manganês. Em substrato de coco com pH alto, é ferro. Em solo argiloso com pH baixo, pode ser manganês em excesso causando toxidez. Amarelecimento generalizado começando pelas folhas mais velhas é nitrogênio. para as mais novas e é mobilidade diferente. Manchas necróticas pontiformes nas folhas podem ser deficiência de boro ou queimadura por sal. Para diferenciar, lave o substrato e veja se melhora em uma semana. Se melhorar, era sal. Se não, pode ser micronutriente.O enxofre é outro elemento subestimado. Deficiência é rara em hydroponia, mas comum em solos arenosos e lavados. O sinal é clorose generalizada semelhante ao nitrogênio, mas começando nas folhas jovens primeiro, porque o enxofre é pouco móvel.