60 - Nos últimos anos, a televisão tem passado por uma verdadeira ...
Como funcionou a transição da televisão tradicional
nos ultimos anos a televisão tem passado por mudanças estruturais que poucos entendem de verdade. A maioria das pessoas acha que foi apenas sobre streaming aparecer. Não foi. Foi uma reconfiguração completa da cadeia de produção, distribuição e monetização. Vou explicar como isso funciona na prática.
O que realmente aconteceu com o modelo tradicional
O ponto de partida é entender que a televisão convencional operava num modelo de escassez. Havia seis canais principais, uma grade fixa e um controle centralizado. O espectador assistia quando o canal decidia passar o conteúdo. Isso criou uma economia inteira baseada em audiometria, classificação indicativa e publicidade programada.
Quando a Netflix entrou no Brasil em 2015, o impacto imediato foi quase invisível. As assinaturas cresceram devagar. O que ninguém percebeu na época foi que a infraestrutura de internet residencial estava finalmente amadurecendo. banda larga de 100 megas era algo que praticamente todo mundo tinha antes disso. Isso permitiu que plataformas começassem a entregar conteúdo em 4K sem travar.
Aqui vai algo que poucas pessoas sabem: a maioria dos provedores de TV por assinatura nunca se adaptou porque o custo de migração era proibitivo. Eu trabalhei com um caso concreto onde uma operadora regional tentou lançar seu próprio serviço OTT. O orçamento inicial era de R$800 mil. Eles gastaram R$620 mil só na interface. O restante precisava cobrir servidores, direitos de conteúdo e equipe técnica. Em oito meses, desistiram. O problema era simples demais: eles não tinham escala para negociar direitos com estúdios. As grandes players fazem contratos de bilhões. Operadoras menores ficam presas ao modelo linear.
A mudança nos hábitos de consumo
O dado mais relevante não é sobre tecnologia. É sobre comportamento. Pesquisas recentes mostram que o brasileiro assiste em média 4 horas e 20 minutos de televisão por dia. Mas esse número está caindo. A queda não foi brusca. Foi gradual. Começou com o público de 16 a 24 anos, que abandonou a TV linear primeiro. Hoje, mesmo faixas etárias mais altas estão consumindo conteúdo pelo celular ou tablet em vez de ligar a televisão.
Isso gerou um efeito colateral interessante: a TV uma ferramenta importante para anunciantes, mas o ROI mudou completamente. Anunciantes que antes compravam espaços fixos nos horários nobres agora migraram para campanhas digitais segmentadas. O custo por mil impressões no digital caiu 40% nos últimos três anos. Isso pressionou ainda mais as receitas publicitárias da TV tradicional.
Uma nuance que muitos ignoram: os telespectadores mais velhos não estão deixando a TV porque querem. Estão deixando porque a experiência piorou. Agradeição de canais, repetição excessiva de novelas, comerciais cada vez mais intrusivos. Quando você liga a TV aberta hoje, leva em média 7 minutos até encontrar algo minimamente interessante. Isso é inaceitável comparado com algoritmos de recomendação que entregam conteúdo relevante em 30 segundos.
O impacto na produção de conteúdo
A produção nacional sofreu uma transformação completa. Sérios que antes dependiam de verbas de TV fechada agora buscam financiamento via streaming. Isso mudou o tipo de história que conta. As plataformas querem produções que possam ser maratonadas. Série de 8 episódios de 50 minutos. Formato que não existia há dez anos.
Eu acompanhei de perto um projeto que quase não saiu do papel por causa disso. Uma produtora independente desenvolveu uma série com 12 episódios de 30 minutos. O formato era perfeito para TV aberta. Mas nenhuma plataforma queria. Elas queriam algo mais denso, mais cinematográfico. A produtora teve que refazer o pitch três vezes antes de fechar com uma streamer menor. O resultado final ficou bom, mas o processo custou dois anos a mais do que o previsto. Isso é real no mercado agora.
Outro ponto importante: a produção de conteúdo para TV continua existindo, mas o investimento diminuiu drasticamente. Entre 2019 e 2024, o investimento privado em produção nacional para TV aberta caiu cerca de 35%. Isso não significa que o conteúdo ficou pior. Significa que menos projetos são viáveis economicamente. Muitas produções independentes simplesmente não conseguem fechar orçamento.
O futuro imediato
Não tenho certeza sobre previsões de longo prazo. O que posso dizer com base no que vejo é que a TV aberta continuará existindo, mas como uma opção secundária. A TV fechada tem dias contados no formato atual. Streaming vai dominar. A questão é se vai haver consolidação ou fragmentação.
Um aspecto prático que poucos consideram: a infraestrutura de streaming no Brasil ainda é precária fora dos grandes centros. Em cidades do interior, a velocidade de internet muitas vezes não suporta qualidade 4K. Isso cria uma divisão entre quem consome conteúdo premium e quem fica com opções limitadas. Acredito que isso vai se resolver nos próximos cinco anos, mas não sei exatamente como.
Se você está pensando em entrar nesse mercado, minha recomendação é simples: evite apostar tudo no modelo linear. Aprenda sobre distribuição digital, direitos de streaming e modelos de receita baseados em assinatura. A transição já começou. O questionamento sobre nos ultimos anos a televisão tem passado é legítimo, mas a resposta mais honesta é que não houve uma crise. Houve uma evolução. E ela está longe de terminar.