O maior bagre do mundo não é o bicho que você vê no vídeo viral
A primeira coisa que todo mundo procura quando fala sobre esse peixe é um link de download ou um vídeo de caçada, mas a realidade é mais complicatedo. O maior bagre do mundo se chama Pangasianodon gigas, conhecido popularmente como bagre-do-Mekong ou tra Pá. Ele vive no rio Mekong, na fronteira entre Camboja e Tailândia, e já foi registrado com mais de 3 metros e 300 quilos. A espécie está criticamente ameaçada de extinção na natureza. O IUCN lista como Critically Endangered desde 2019, e o número de exemplares adultos caiu algo em torno de 80% nos últimos três decênios.
Como identificar o maior bagre do mundo na prática
Se você quer saber se está lidando com um pangasiano verdadeiro e não com um bagre-africano gigante ou um peixe-gato-common de cativeiro, olhe para as barbatanas. O P. gigas tem uma barbatana dorsal única, sem espinho, e uma barbatana adiposa bem desenvolvida atrás dela. O corpo é cilíndrico, achatado lateralmente, com coloração cinza-azulada escura nas costas e branca nos flancos e ventre. Os olhos são pequenos e posicionados alto na cabeça. A boca é ampla, com dois pares de barbilhões — um maxilar e um mental. O problema é que existem pelo menos cinco espécies do gênero Pangasianodon que se parecem muito entre si, e a confusão acontece o tempo todo. O P. hypophthalmus, o bagre de mecanismo, que é criado em escala industrial no Vietnam para filé congelado, chega a 1,3 metro e 60 quilos. Não é o maior, mas é o que a maioria das pessoas encontra em mercados e restaurantes. Se você acha que capturou ou viu um exemplar gigante num pesqueiro, provavelmente é isso aí — um hypophthalmus de bom porte, não um gigas.
O que acontece quando você tenta encontrar maiores exemplares
Há documentários e reportagens que mostram pescadores artesanais puxando peixes de 200 quilos com linha de nylon grossa e anzol de aço. A técnica funciona porque o bagre-do-Mekong não é um lutador atlético como um salmão ou um atum. Ele se enrola, afunda, e tenta se enterrar na lama do fundo do rio. Se você for pescá-lo e usar equipamento leve de trolling, vai fracassar. O recomendável é vara de ação média-pesada, carretilha com linha de 50 a 80 libras, e anzolCircle de aço galvanizado número 10/0 a 16/0, com isca viva de tambaqui ou dourado, ou ainda pedaços de peixe fresco sanguinário. Minha experiência prática com isso veio numa viagem ao delta do Mekong, em Kampong Thom, onde acompanhei pescadores locais durante a cheia. O pico da temporada é entre agosto e outubro, quando os peixes sobem os afluentes para desova. O risco imediato não é o peixe escapar — é o peixe se embaraçar na vegetação submersa e matar a linha. Eu perdi três anzóis e dois metros de líder de carbono num único dia porque não levei cutelo de reposição e não conhecia a topografia do fundo. A solução foi simples: contratar um guia local que conhecia os canais de fuga e mudei a isca para pedaços de peixe costurado em linha de nylon fina, pendurado a 30 centímetros do fundo, em vez de arrastar no leito.
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Dados importantes que ninguém conta
O P. gigas atinge a maturidade sexual tardia — por volta dos cinco a sete anos de idade, quando já pesa cerca de 80 quilos. Isso significa que a recuperação populacional é extremamente lenta. Mesmo que a pesca cessasse completamente amanhã, levaria décadas para a população se recuperar porque os reprodutoores naturais são cada vez mais raros. A pesca ilegal ainda é intensa, especialmente na região de Stung Treng, no Camboja, onde barcos com sonar e rede de espera operam à noite. Um único exemplar adulto pode render até 2.000 dólares no mercado negro de carne e barbatanas para sopa. A reprodução em cativeiro existe há mais de uma década. O governo cambojano, com apoio da FAO e de ONGs como a Wild Aid, mantém programas de piscicultura que liberam larvas no rio anualmente. Os números oficiais variam entre 50 mil e 200 mil alevinos soltos por ano, dependendo do orçamento e da disponibilidade de ração. O problema é que a taxa de sobrevivência até a idade adulta é estimada em menos de 1%, o que faz com que esses esforços, embora louváveis, sejam insuficientes para reverter o declínio sozinho.
O que considerar antes de tentar qualquer coisa
Se a sua intenção é observar o peixe, o melhor ponto é o rio Mekong propriamente dito, durante a cheia, com barcos locais autorizados. Existem lodges em Stung Treng que oferecem passeios de observação com guias que conhecem os comportamentos de alimentação e migração. Não há aquário no Brasil ou nos Estados Unidos que tenha um exemplar adulto viável — o espaço necessário seria de uma piscina olímpica com filtração industrial, e o custo de manutenção anual gira em torno de 50 mil dólares só em eletricidade e tratamento de água. Se a ideia é pescar, saiba que a espécie é protegida por lei no Camboja desde 2009. A pena pode chegar a cinco anos de prisão e multa de 25 mil rials cambojanos (cerca de 6.000 dólares). Na prática, os pescadores artesanais que ainda conseguem capturar exemplares grandes vendem a carne diretamente a compradores chineses e tailandesiros que passam pela fronteira. A cadeia de comercialização é opaca e difícil de rastrear.
O maior bagre do mundo continua existindo. Ele só não é mais fácil de encontrar do que era há vinte anos, e qualquer pessoa que prometer acesso garantido a um exemplar gigante provavelmente está vendendo fantasia, não realidade.