O período Figueiredo e o espectro político
A pergunta sobre se o governo João Figueiredo era de direita ou esquerda não tem uma resposta simples de dois minutos. O regime militar brasileiro, instalado em 1964, era fundamentalmente um projeto de direita desde o início. A intenção era conter o que chamavam de "ameaça comunista" e manter uma estrutura econômica e social alinhada aos interesses ocidentais durante a Guerra Fria. Figueiredo chegou à presidência em 1979 como parte desse sistema. Ele era general da Arma de Engenharia, formado no Centro de Estudos e Estado-Maior do Exército, carreira que atravessou todo o período.
João figueiredo era de direita ou esquerda
Na prática, classificar Figueiredo exige entender que o conceito de "esquerda" e "direita" funciona de forma diferente no Brasil dos anos 1970 do que hoje. O governo dele executou a chamada "abertura lenta, ampla e gradual". Isso significava flexibilizar o autoritarismo sem entregar poder de verdade. Em 1979, promulgou a Lei de Anistia, que permitiu o retorno de exilados políticos, mas também perdoou agentes do estado acusados de tortura e mortes. Foi um movimento que muitos na época esperavam como passo rumo à democracia. Na prática, garantiu impunidade estrutural que ainda ecoa. O ponto mais visível de ambiguidade veio com a crise econômica. O Brasil estava endividado, a inflação disparava, e Figueiredo manteve programas de austeridade que custaram caro para a classe trabalhadora. Os chamados "Planos de Survival" cortaram gastos sociais. Isso é típico de governos de direita em economias em crise. Por outro lado, a transição política em si — com a volta dos partidos, o fim do AI-5 em 1978, as eleições indiretas para presidente em 1985 — tinha um efeito progressista no sistema político. O problema é que esse progresso foi feito sem participação popular real. A escolha do sucessor foi feita por colégios eleitorais controlados, não pelo voto direto.
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O que eu observei na prática ao pesquisar esse período foi uma coisa que poucos ensinam: a diferença entre retórica e ação. Documentos militares da época mostram generais mais radicais frustrados com Figueiredo porque ele parecia "mole" demais com a oposição. Ao mesmo tempo, movimentos sociais criticavam ele por manter repressão disfarçada. Ambos tinham razão. A posição dele era exatamente essa: manter o controle sem parecer que estava controlando. O trabalho de campo em arquivos revela que as ordens de repressão continuaram chegando até 1984, mesmo quando a imagem pública era de suavização. Um detalhe que muita gente perde: Figueiredo teve que conviver com um Congresso cada vez mais hostil. O MDB virou PDS e depois PMDB, e a pressão interna no próprio regime crescia. Ele tentou negociar, mas nunca abriu mão do essencial — o orçamento de defesa, a estrutura de segurança nacional, o papel das Forças Armadas como "moderadoras". Isso é herança direta da Doutrina de Segurança Nacional, ensinada em cursos como o do CENPE, e define bem onde ele estava posicionado.
Se você quer entender o legado, olhe para os números. O PIB cresceu 9,9% em 1973 mas entrou em colapso para 2,6% em 1980 e depois ficou negativo em 1981-82. A dívida externa pulou de 15 bilhões para mais de 80 bilhões de dólares. O salário mínimo real caiu 35%. Não é política de esquerda. A abertura política foi real, mas veio como concessão, não como conquista popular organizada. O que eu aprendi com isso é que o termo "direita" no Brasil desses anos cobre um leque enorme. Havia militares que queriam continuar no poder para sempre, outros que achavam que a hora era de sair de cena. Figueiredo estava no segundo grupo, mas com uma linha muito pessoal de como fazer isso: com controle, sem surpresas, e sem pedir licença. O resultado foi a democracia que conhecemos, mas com vícios que carregamos até hoje — desde a impunidade até a fragilidade institucional.