Historia De Mato Grosso - História de Mato Grosso | PDF | República | Governo
História de Mato Grosso | PDF | República | Governo

Entendendo a trajetória de Mato Grosso

Mato Grosso foi criado em 1748 através de um decreto real português que visava expandir a ocupação no interior do Brasil. A região era originalmente parte das terras da Coroa espanhola segundo o Tratado de Tordesilhas, mas Portugal decidiu efetivar a posse com uma expedição organizada por Francisco de Miranda Leme. Ele chegou ao planalto com cerca de duzentas famílias vindas principalmente de São Paulo e Minas Gerais, estabelecendo-se na atual região de Cuiabá. A economia colonial girava em torno da mineração. As descobertas de ouro na década de 1720, antes mesmo da fundação oficial da capitania, atraíram contingentes enormes de migrantes. Cuiabá cresceu rapidamente e se tornou uma das praças mais importantes do ciclo do ouro. Porém, a extração declinou nas últimas décadas do século XVIII, e a região entrou em estagnação relativa que durou praticamente todo o período imperial.

O que envolve a historia de mato grosso

Estudar a historia de mato grosso exige navegar por fontes dispersas. Os documentos mais relevantes estão espalhados entre o Arquivo Nacional no Rio, a Biblioteca Nacional, acervos parishais mantidos pela Igreja Católica em cidades do interior, e coleções privadas de famílias tradicionais. Muita coisa nunca foi digitalizada. Quando eu precisava consultar registros de sesmarias dos séculos XVIII e XIX para um trabalho meu, passei semanas fazendo correspondência com cartórios regionais e organizando viagens a Várzea Grande e a Santo Antônio de Leverger. O material estava em péssimo estado de conservação em grande parte dos casos. Um problema que ninguém anticipa é a ambiguidade dos limites territoriais ao longo do tempo. Mato Grosso já englobou terras que hoje formam Rondônia, Tocantins e grande parte do Mato Grosso do Sul. Um documento de 1850 que fala em "comarca de Mato Grosso" pode estar se referindo a uma área muito diferente daquela que chamamos do estado hoje. Para resolver isso, eu comecei a usar mapas históricos do IBGE que mostram a evolução das divisões, cruzando com os códigos de município da época. Funciona, mas exige paciência.

A expansão da borracha entre 1870 e 1912 foi um dos capítulos mais transformadores. Milhares de nordestinos, especialmente cearenses, migraram para as florestas do norte do estado em busca de trabalho. Isso gerou crescimento urbano rápido em lugares como Rio Branco e Buritis, mas também condições brutais de exploração. A queda dos preços da borracha na Ásia, com a criação de plantações britânicas na Malásia, destruiu a economia local e provocou um êxodo massivo que reverberou por décadas. Durante a Primeira República, Mato Grosso manteve uma dinâmica politiqueira marcada pelo coronelismo tradicional. Famílias como os Gomes, os Néri e os Piza construíram redes de poder que controlavam eleiçôes e indicações por gerações. Esse padrão só começou a se fragmentar com a chegada da infraestrutura moderna nos anos 1950 e 1960, quando a construção de estradas e a instalação de órgãos federais alteraram o equilíbrio local.

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A questão indígena também precisa ser discutida com honestidade. O contato violento com povos como os Guaycurus, os Payaguá e os Botocudos marcou séculos de conflitos que muitas vezes são silenciados nas narrativas oficiais. Somente a criação da FUNAI em 1967 trouxe algum tipo de estrutura para mediação, mas os desfechos foram longe de ideais. Terras que poderiam ter sido tituladas ficaram em litígio por décadas. Na ditadura militar, o governo federal viou Mato Grosso como peça central do projeto de integração nacional. A transamazônica, a rodovia Cuiabá-Porto Velho, a criação de Brasília criaram um novo eixo de ocupação. O INCRA distribuiu lotes em programa de colonização que trouxe milhares de famílias do Sul e Sudeste para o cerrado. O resultado foi uma expansão agrícola acelerada, mas também desmatamento intenso e conflitos fundiários que persistem até hoje.

Um detalhe que poucos historiadores destacam é o papel dos portos fluviais. Antes das estradas, o Rio Paraguai e seus tributários eram as únicas vias de transporte viáveis para escoar produção. Cidades como Barão de Melgaço e Miranda tinham movimentação intensa de embarcações. Quando as rodovias chegaram, esses portos entraram em colapso econômico quase imediato. Essa transição mal documentada ainda é um campo aberto para pesquisa. As fontes primárias em português sobre o período colonial são razoavelmente acessíveis, mas os acervos provinciais do século XIX frequentemente precisam ser consultados presencialmente. Digitalizações existem, mas são incompletas e muitas vezes de qualidade duvidosa. Recomendo começar pelo fundo documental do Arquivo Público do Estado de Mato Grosso em Cuiabá, que possui catálogos cada vez mais organizados, embora a digitalização avance devagar.

A historiografia mais recente tem produzido trabalhos sérios sobre a economia mineradora, o tráfico de pessoas escravizadas e a atuação das ordens religiosas na penetração do território. Pesquisadores como Evaldo Pauli e Marília Peres têm contribuído significativamente, mas ainda há lacunas grandes, especialmente sobre a história africana e afrodescendente no estado. O período pós-abolição é particularmente negligenciado. A libertação formal em 1888 não significou incorporação cidadã para pessoas negras libertadas. Na prática, elas foram empurradas para trabalho precário ou expulsas para periferias urbanas e zonas rurais sem acesso à terra. Esse processo estrutural moldou a distribuição demográfica e econômica do estado de forma duradoura, mas raramente aparece em materiais introdutórios.

Se você quer seguir investigando, os periódicos da UFMT e da UNICAMP têm produções relevantes. A série de encontros de história regional também costuma reunir bons trabalhos. O principal obstáculo prático é o custo de deslocamento e a falta de financiamento para pesquisa de campo na maioria dos programas de pós-graduação. Planeje com antecedência e seja realista sobre o tempo que cada consulta vai demandar.