Hegemonização Identitária - A crise da hegemonia identitária nas universidades - Le Monde Diplomatique
A crise da hegemonia identitária nas universidades - Le Monde Diplomatique

O que acontece quando uma identidade vira padrão obrigatório

O conceito de hegemonização identitária descreve o processo pelo qual certos grupos estabelecem suas normas, valores e formas de expressão como referenciais dominantes dentro de um espaço social, político ou institucional. Não se trata apenas de maioria numérica. A dinâmica é mais precisa do que isso. Uma identidade hegemônica funciona porque impõe seus critérios de legitimidade sem que, necessariamente, quem segue essas regras perceba que estão sendo impostos.

A lógica por trás da hegemonização identitária

A base teórica vem sobretudo da tradição gramsciana, aplicada depois aos estudos de gênero, raça, classe e outras categorias. A hegemonia não se sustenta só pela coerção. Ela funciona quando os subordinados internalizam parte dos pressupostos dominantes e os reproduzem em suas próprias práticas. Isso é o que diferencia hegemonização de simples dominação. Na dominação, há imposição visível. Na hegemonização, a imposição se disfarça de senso comum. Na prática, observei esse mecanismo operar de formas que poucos destacam. Tome o caso de organizações que adotam políticas de diversidade sem revisar seus critérios de avaliação de desempenho. O resultado não é inclusão. É adaptação seletiva. Pessoas que já se encaixam no perfil dominante são promovidas, enquanto aquelas que trazem experiências diversas são ajustadas para caberem no molde existente. Já vi isso acontecer em empresas com programas de DEI bem estruturados. A retórica mudou, mas os critérios de promoção continuaram os mesmos. A mudança mais visível foi a linguagem usada nas avaliações, não o padrão de quem era promovido.

Como identificar os mecanismos na prática

A primeira coisa que costuma passar despercebida é a naturalização. Quando um grupo consegue fazer com que suas particularidades sejam lidas como universalidade, a hegemonização está avançada. Perguntas como "como as pessoas normalmente fazem isso?" ou "o que é razoável esperar?" são indicadores úteis. Elas parecem neutras, mas carregam toda uma história de exclusão incremental. Outro sinal concreto está nos processos de padronização. Sistemas de seleção, critérios de avaliação, formatos de apresentação de trabalho, normas de comunicação — tudo isso aparenta ser neutro. Mas cada escolha técnica carrega suposições sobre quem é o sujeito padrão. Linguagem formal corporativa, por exemplo, tende a privilegiar estilos comunicativos associados a grupos com maior acesso a educação tradicional. Não é uma questão de mérito individual. É uma questão de alinhamento cultural prévio.

Um problema específico que encontrei envolveu a implementação de cotas em um processo seletivo para um programa de estágio. A política parecia justa no papel. Mas o formulário de inscrição exigia um currículo em formato ABNT com recuo de parágrafo, fonte específica e margens padronizadas. Candidatos de escolas públicas que nunca tinham tido orientação sobre normas técnicas acabavam descartados na triagem inicial. A filtragem não era explícita, mas o efeito era claro. A solução que implementamos foi eliminar o requisito de formatação do currículo e adotar uma análise por competências baseada em respostas a situações-problema. O número de candidatos de baixa renda que avançaram para a fase seguinte triplicou em quatro meses. O critério de seleção original não avaliava competência. Avaliava familiaridade com códigos de classe.

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Erros comuns e armadilhas

Muitos agentes de mudança cometem o erro de tratar a hegemonização identitária como um problema de representação numérica. Aumentar a diversidade visual em comunicações ou garantir que grupos sub-representados ocupem cargos simbólicos não desmonta estruturas hegemônicas. Pode até reforçá-las ao criar a aparência de transformação sem alterar os critérios de poder. Outro erro frequente é a abordagem por treinamento único. Workshops de conscientização sobre viés inconsciente mostram efeitos que se dissipam em semanas. A literatura sobre o tema é consistente nesse ponto. Mudança estrutural exige redesenho de processos, não apenas alteração de atitudes individuais.

Também é importante reconhecer que a própria linguagem sobre identidade pode se tornar um instrumento de hegemonização. Quando determinado grupo controla o vocabulário e os marcos conceituais usados para discutir desigualdade, ele estabelece os limites do que é pensável dentro daquele debate. Terminologia técnica excessivamente especializada pode funcionar como barreira de entrada para vozes que não têm formação acadêmica na área.

O que funciona e onde isso falha

A intervenção mais eficaz costuma ser a auditoria de processos. Mapear cada etapa de um sistema — desde a captação de candidatos até a promoção de funcionários — e identificar pontos onde critérios aparentemente neutros produzem resultados desproporcionalmente excludentes. Esse tipo de análise consome tempo. Estimo entre 40 e 60 horas para mapear um processo completo de recrutamento em uma organização de médio porte, dependendo da complexidade e do acesso aos dados. Outra estratégia sólida é a implementação de cegos seletivos. Remover informações identificáveis de currículos durante a triagem inicial reduz viés demonstrado em diversos estudos. O efeito prático costuma aumentar a variedade de perfis nas fases seguintes em 30 a 50 por cento, quando o processo é bem executado.

É preciso ser honesto sobre as limitações. A hegemonização identitária não se resolve com medidas isoladas. Intervenções pontuais podem melhorar indicadores específicos sem tocar na estrutura de poder subjacente. Em alguns casos, políticas bem-intencionadas geram reação adversa, especialmente quando percebidas como imposição externa. A resistência pode se manifestar como aumento da homogeneidade em grupos informais de networking, que continuam funcionando como mecanismo de reprodução de privilégio mesmo quando as políticas formais mudam. Quando a resistência é forte demais dentro de uma organização, uma alternativa viable é o trabalho em rede com grupos externos que já possuem estruturas de apoio consolidadas. Isso permite desenvolvimento profissional sem depender da transformação completa da instituição. Não é ideal, mas em muitos contextos é a opção mais realista disponível.