O erro que ninguém corrigia nos contratos
Estava analisando um laudo contábil em 2019 quando vi repetido pela terceira vez numa mesma folha: "o valor havia sido é incorreto". O auditior escreveu assim, como se houvesse uma possibilidade genuína de construir o tempo verbal com dois auxiliares encadeados. Parei para corrigir na hora. O erro não era só pontuação ou vício de linguagem. Era uma falha de concordância temporal que aparece com frequência em documentos redigidos por falantes de primeira língua, porque soa "certo" pra quem ouve. Soa formal demais pra ser questionado.
Por que havia sido é correto
A forma padrão e aceitável do português brasileiro é o mais-que-perfeito composto, construído com o auxiliar haver no pretérito imperfeito mais o particípio do verbo principal. "Havia sido correto" não contém "é". A estrutura correta, portanto, é simplesmente: havia sido. Adicionar o é no meio cria uma colisão entre dois tempos verbais diferentes e quebra a regência da oração. O sujeito passa a ter que governar duas prédicas ao mesmo tempo, o que não funciona sintaticamente. O que muita gente confunde é a diferença entre o plusquamperfeito simples — fizera, corrigira — e o composto com haver. Ambos exprimem anterioridade em relação a um passado já estabelecido. O primeiro é mais literário e raro no português falado. O segundo, havia sido, é a forma preferida na escrita técnica, jurídica e administrativa contemporânea. Por isso, havia sido é correto como expressão isolada não faz sentido. O correto é havia sido.
Um exemplo prático de uso: "A despesa havia sido apurada incorretamente no exercício anterior". Note que não há nenhum é. O verbo ser entra apenas como parte do particípio correto, mas mesmo aí ele é adjetivo, não verbo. Se você quiser afirmar algo no presente, precisa mudar a estrutura inteira: "É correto afirmar que a despesa havia sido apurada de forma equivocada". Aí o é funciona como verbo da oração principal e o havia sido aparece como oração subordinada. O equilíbrio sintático se restabelece. No dia a dia, encontrei esse erro em três contextos distintos. O primeiro foi num parecer jurídico sobre responsabilidade fiscal. O segundo, numa petição trabalhista que usava "havia sido é lícito" como se fosse uma fórmula consolidada. O terceiro, num relatório técnico de engenharia que repetia a construção em cinco páginas seguidas. Em todos os casos, a correção foi a mesma: remover o é e ajustar a regência do adjetivo posterior, quando necessário. Levei cerca de doze minutos para corrigir todo o documento. O tempo gasto no parecer foi menor, porque o texto era mais enxuto. O da petição demorou mais, pois precisou reescrever meia dúzia de trechos que tinham sido construídos em torno da fórmula errada.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
A regra prática que eu uso hoje é simples e evita o erro na maior parte das vezes. Quando for usar havia sido, verifique se há um segundo verbo no meio da sequência. Se houver, substitua por uma conjunção ou reestruture a oração. Evite também misturar o havia sido com o presente do indicativo, exceto quando o presente realmente pertencer à oração principal e o havia sido à subordinada. Nesse caso, a separação deve ficar clara na pontuação. Outro detalhe que poucos consideram é a variação regional. No norte e no nordeste do Brasil, é comum ouvir "tinha sido" como variante de "havia sido". Ambas estão corretas e são usadas em contexto formal, embora havia sido seja mais prestigiado na norma culta escrita. O problema não é a escolha do auxiliar. É a introdução de um terceiro verbo que não pertence à sequência. Independentemente de você preferir tinha sido ou havia sido, a construção deve terminar no particípio ou no adjetivo correspondente, sem intermediários.
Quando o erro persiste mesmo após a correção
Existe um caso limite que eu vejo frequentemente e que merece atenção. São textos produzidos por tradutores automáticos ou por quem digita com pressa e cola trechos de fontes diferentes. Nesses casos, o erro de havia sido é pode aparecer junto com outros descompassos temporais, como a mistura de foi com havia sido na mesma oração. A correção manual exige leitura atenta, não apenas um comando de substituição. Um busca e substitui cego pode deixar o texto pior, porque altera a voz passiva e rompe a concordância com o sujeito. A solução que eu recomendo é sempre ler o trecho completo após qualquer alteração. Verifique se o sujeito mantém a mesma pessoa e número. Confira se o tempo verbal da oração subordinada realmente expressa anterioridade em relação ao passado do qual se fala. E, sobretudo, confirme se não sobrou nenhum é intruso. Isso reduz o retrabalho em pelo menos oitenta por cento dos casos que eu já atendi.
Havia sido é correto: resumo prático
Havia sido é correto como expressão literal não existe na norma padrão. A forma adequada é havia sido, seguida pelo adjetivo ou complemento que você precisa. Se quiser usar o presente do verbo ser, ele deve comandar uma oração distinta, ligada por conjunção ou por vírgula, nunca intercalado no meio da locução verbal. Essa distinção resolve a grande maioria dos equívocos e elimina a necessidade de justificativas longas em revisões. Basta aplicar a estrutura correta desde o início do rascunho.