O básico que todo mundo já sabe
Frases em plural existem. É só transformar o sujeito, os verbos e os complementos para concordar com mais de um elemento. Parece óbvio, mas a maioria das pessoas trava na hora de construir algo que soe natural e não pareça um texto traduzido do inglês.
A regra prática de frases em plural
Você pega o núcleo do sujeito, vê se é masculino ou feminino, singular ou plural, e espalha essa marcação por tudo que depende dele. "O carro está rápido" vira "Os carros estão rápidos". O 's' no substantivo, o 's' no adjetivo, o verbo na terceira pessoa do plural. Repetição previsível. O problema é que o português não funciona assim de forma uniforme. Tem caso em que o plural não aparece onde você espera.
Eu lembro de uma vez em que precisei revisar um documento técnico sobre sistemas de refrigeração industrial. O texto original continha a expressão "os dados coletados são suficientes". Em teoria, estava tudo certo. Mas aí apareceu uma construção diferente que dava errado: "as informações coletadas são suficiente". Muita gente mantém o adjetivo no singular aqui, achando que "informações" pede singular por ser uma palavra abstrata. Não pede. Fica "suficientes". Eu gastou quase duas horas revendo esse tipo de concordância em textos longos porque o corretor automático do editor de texto simplesmente ignorava.
Onde a coisa complica
Existem pares nomeais que nunca variam no plural. Expressões como "cartão de crédito", "ponte Rio-São Paulo" e "guarda-roupa" têm partes invariáveis. "Guardas-roupas" parece certo, mas é erradíssimo. O correto é "guardas-roupa", porque "roupa" não varia. "Criados-mudos" também. O adjetivo vai para o plural, o substantivo permanece no singular. É uma daquelas regras que todo mundo esquece e só lembra quando alguém corrige. Outro ponto que ninguém ensina direito: quando o sujeito é composto e anteposto ao verbo, a concordância pode ficar no plural ou permanecer no singular. "O diretor e o coordenador estiveram presentes" e "O diretor e o coordenador esteve presente" — a segunda soa estranha, mas é gramaticalmente aceitável segundo a norma culta. Na prática, ninguém fala assim. Eu recomendo plural sempre que o sujeito vier antes do verbo. Soa mais natural e evita questionamentos.
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Verbos como "haver" no sentido de existência também causam dor de cabeça. "Houve muitos acidentes" está correto. "Houveram muitos acidentes" está errado. O "haver" impessoal nunca entra no plural, independente de quantos acidentes tenham acontecido. Já o "ter" e o "manter" quando usados com sentido de posse ou existência concordam normalmente: "Eles tiveram muitos problemas", "A empresa mantém vários contratos". A diferença entre esses dois comportamentos verbais é sutil e custa caro em revisões.
Dicas que realmente funcionam
Quando você tiver uma frase longa e não souber se o verbo deve ir para o plural, isole o sujeito. Retire os adjuntos adverbiais, as preposições, tudo que não faz parte do núcleo. Veja qual é o verdadeiro protagonista da oração. "Entre os funcionários e os estagiários, o gerente estava indeciso." O sujeito é "o gerente", singular. O verbo fica no singular. A presença de "funcionários e estagiários" perto do verbo é distração. Para nomes próprios no plural, a crase muda tudo. "Fui à Roma e à Paris." Com substantivos comuns, não há crase antes de palavras masculinas. "Fui aos Estados Unidos" e "Fui aos Países Baixos" — aqui o plural do artigo é obrigatório porque "Estados" e "Países" são masculinos plurais.
Uma armadilha comum: adjetivos pós-postos que se referem a substantivos de gêneros diferentes. "Os relatórios e as planilhas estão completos." Errado. Quando os substantivos são de gêneros diferentes, o adjetivo vai para o plural masculino: "completos". O masculino funciona como gênero neutro nessa situação. Se inverter a ordem, "As planilhas e os relatórios estão completos", continua sendo masculino plural. A regra é consistente, mas o cérebro tende a querer concordar com o termo mais próximo. Não deixe acontecer. Se quiser automatizar parte do processo, existem ferramentas como o LanguageTool e o gramadillo. Elas não são perfeitas, mas cobrem cerca de 70% dos erros mais frequentes de concordância nominal e verbal. O resto você resolve lendo em voz alta. Simples assim.
Também vale notar que o plural de expressões formadas por palavras repetidas, como "lápis-lápis" ou "riacho-riacho", éidêntico ao singular. Não existe plural nessas construções. É uma exceção curiosa que aparece em editais de concursos e provas, quase sempre como pegadinha. Se alguém escrever "lápis-lápis" no plural, está errado das duas formas possíveis: nem se adiciona 's', nem se flexiona de outro jeito. O mais importante é praticar com textos reais. Frases em plural bem construídas surgem da exposição constante, não da decoreba de regras. Leia notícias, relatórios, artigos técnicos. Quando algo soar estranho, provavelmente há um erro de concordância escondido ali.