Don Quijote De Mancha - Don Quijote de la Mancha (cómic) (Austral Cómic) by Miguel de Cervantes ...
Don Quijote de la Mancha (cómic) (Austral Cómic) by Miguel de Cervantes ...

Quem leu D. Quixote e sobrou para o final

A primeira edição de que se tem notícia saiu em Madrid, em 1605, pela editorial de Juan de la Cuesta. O volume tinha 52 capítulos na primeira parte e mais 52 na segunda, publicada dez anos depois, em 1615. A obra completa consta de dois volumes, divididos em quatro partes cada um, com prólogos, intercaladas por novelas que muitas vezes distraem do enredo principal mas que são fundamentais para entender a estrutura paródica do texto. A segunda parte não foi escrita de imediato por Cervantes. Um tal de Alonso Fernández de Avellaneda publicou uma continuação apócrifa em 1614, e isso pressionou Cervantes a terminar a obra dele próprio. O resultado é visível: os personagens da segunda parte já sabem que são personagens de livro, o que gera camadas de metaficção que ninguém esperava no século XVII. Se você acha que D. Quixote é só um louco que ataca moinhos, está lendo errado.

Edições do don quijote de mancha para quem quer ler de verdade

O problema principal ao pegar qualquer edição em português é a qualidade da tradução. A maioria das traduções brasileiras que circulam no mercado são feitas a partir do francês ou do inglês, não do castelhano original. Isso significa que você está lendo uma tradução de uma tradução, e perdas semânticas acontecem constantemente. A palavra "injción" que aparece em alguns lugares não é um erro de digitação no original — é a grafia arcaica de "injunción", e tradutores amadores costumam transformar isso em coisas que não existem no texto. Eu recomendo a tradução de Julio Castañon de Gaspar, feita diretamente do castelhano e publicada pela Editora 34. Outra opção mais recente é a tradução de Sérgio Milliet, também do original, disponível em reedições da Companhia das Letras. Se você vai ler em castelhano, procure a edição da Cátedra, da editorial Renacimiento, que inclui notas filológicas detalhadas e variantes textuais. A edição da Biblioteca Castro, da Universidade de Salamanca, é a mais completa academicamente, mas pesa 1.400 páginas e exige compromisso.

Um detalhe que quase todo mundo perde: o texto original usa "ç" em vez de "s" em várias palavras, e os tipógrafos modernos frequentemente corrigem isso sem aviso. A palavra "czar" aparece como "zar" em edições modernas, mas no contexto quixotesco isso é irrelevante. O que não é irrelevante é a diferença entre "quijote" e "Quijote" — o personagem se chama Alonso Quijano, e "Quixote" é uma deformação honorífica que ele mesmo adotou. Muitos resumos errados tratam "Don Quixote de Mancha" como o nome completo do protagonista, quando na verdade é um título autoatribuído com referência geográfica incerta (Mancha é a região, não o sobrenome).

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O que funciona na prática ao tentar acompanhar a obra

A estrutura da primeira parte segue um padrão de viagens sucessivas, mas cada saída tem duração e escopo diferentes. A primeira dura cerca de 15 dias e termina com o resgate por Sancho Panza e os vizinhos. A segunda se estende por semanas e envolve uma série de eventos que Cervantes organiza como se fossem episódios independentes. A terceira, na segunda parte, é mais coesa porque os personagens já têm consciência de que foram publicados em livro. Achei útil marcar os capítulos por tema em vez de por ordem numérica. Os capítulos 33 a 52 da primeira parte, por exemplo, contêm as "Novelas Ejemplares" intercaladas, que são histórias completas e autônomas. Se você pulou essa seção achando que era enrolação, perdeu a parte mais densa do livro. A novela de "El Coloquio de los Perros" é um diálogo entre dois cães que comentam a vida humana, e é considerada por muitos críticos como o ponto mais alto da obra em termos de sátira social.

O maior obstáculo prático é a extensão. A obra completa tem aproximadamente 863 páginas em edições padrão em português, mas o ritmo não é uniforme. Os primeiros 20 capítulos avançam rápido, depois há uma desaceleração significativa entre os capítulos 20 e 50, onde as aventuras se tornam mais reflexivas. Se você está sentindo que a leitura está arrastada na metade do primeiro volume, não está imaginando coisa — é a estrutura intencional do autor explorando a diferença entre a ação cavaleresca e a realidade espanhola do século XVII. Há também a questão dos nomes próprios. "D. Quixote de la Mancha" aparece em algumas edições com a partícula "de la" e em outras apenas como "de Mancha". A forma canônica é "de la Mancha", mas muitas traduções abreviam para economizar espaço. Isso não altera o significado, mas pode confundir quem tenta localizar referências em estudos acadêmicos. Eu costumo usar a versão completa sempre que menciono a obra, justamente para evitar ambiguidade.

Limitações que ninguém admira abertamente

O texto original contém passagens que hoje são consideradas problemáticas. As cenas de agonia física, os piadas de baixo calão, e as representações de pessoas com deficiência intelectual são frequentes e não são tratadas com a sensibilidade que Expectaríamos de uma releitura contemporânea. Tradutores que tentam "suavizar" o texto estão, na verdade, distorcendo a intenção satírica de Cervantes. O autor estava sendo deliberadamente provocador, não ingênuo. Outro ponto cego: a obra não tem um final linear no sentido moderno. A segunda parte termina com a morte de D. Quixote, mas há uma ambiguidade intencional sobre se a "cura" do protagonista é real ou apenas uma conveniência narrativa. Alguns críticos argumentam que a morte é uma traição ao espírito da obra, mas essa é uma leitura anacrônica. Cervantes estava respondendo à pressão do mercado e ao fato de que a personagem havia se tornado popular demais para continuar vivendo indefinidamente.

Se o seu objetivo é estudar a obra de forma séria, a edição da Cátedra é indispensável, mas o custo é alto — cerca de 45 euros para o volume completo anotado. Para leitura pessoal, a tradução da 34 ou da Companhia das Letras basta. Evite edições de bolso muito baratas, pois frequentemente omitem capítulos inteiros ou usam resumos em vez do texto integral. Eu já peguei uma dessas edições e descobri que os capítulos 44 a 48 da primeira parte estavam substituídos por sinopses — isso compromete completamente a experiência de leitura. Não existe resumo que substitua a leitura direta. As adaptações cinematográficas, especialmente a de Gary Oldman de 1992 e a versão espanhola mais recente, são interessantes mas truncam drasticamente o material. A obra original tem camadas de ironia que não sobrevivem bem à compressão visual. Se você quer entender por que D. Quixote é considerado o primeiro romance moderno, precisa ler o texto, não ver uma versão resumida.