O que é dança típica do sudeste e como ela funciona na prática
Dança típica do sudeste se refere ao conjunto de manifestações folclóricas dançantes que surgiram ou se consolidaram nas regiões de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Não existe uma única coreografia. O que existe são tradições regionais que, com o tempo, foram se sobrepondo e se confundindo no imaginário popular. A maioria das pessoas associa imediatamente à quadrilha, mas quadrilha é só uma delas, e tem origem muito específica ligada às festas juninas de influência portuguesa e, mais tarde, estadunidense via St. John's Dance. O que define o sudeste como región de dança típica é sobretudo a presença da catira (ou repique), da dansça dos fitinhas, da chula/escolecido, e das folias de reis. Cada uma tem estrutura rítmica, função social e técnica corporal própria.
dança tipica do sudeste: estrutura e execução básica
Vamos começar pelo mais prático. A catira é a forma mais difundida e a mais fácil de aprender para iniciantes. Ela funciona assim: dois coros de homens (às vezes misturados) ficam de frente um para o outro, alinhados em fileiras. Cada participante estende a mão direita para o colega da fila oposta e bate palmas num padrão rítmico que segue a viola caipira. Enquanto isso, os dois grupos cantam versos em chamada e resposta, improvisados na maior parte das vezes. O pulso básico da catira é 2/4, com acentuação no primeiro tempo. Se você for montar um grupo, comece com dez a doze pessoas no mínimo — menos que isso não sustenta o som. O problema que eu encontrei na prática é que muita gente quer pular direto para os passos mais avançados, como o sapateado cruzado ou o giro de fitas na dança dos fitinhas, sem dominar o compasso fundamental. O resultado é grupo que entra fora de hora, canta no tempo errado e o coro simplesmente desanda. Eu parei de ensinar qualquer coisa antes que o grupo não conseguisse manter o compasso básico por dois minutos seguidos sem erro. Leva cerca de três semanas de ensaio focado.
Na dança dos fitinhas, o mecanismo é diferente. Um laço de fitas coloridas é passado entre os braços dos dançarinos que formam círculo ou fileira. O movimento de teceção cria padrões geométricos que vão se alternando conforme a música muda de andamento. O erro mais comum aqui é apertar demais as fitas nos braços. Isso trava o movimento e gera um efeito visual ruim, além de machucar o pulso depois de alguns minutos. As fitas devem ficar folgadas o suficiente para deslizarem livremente, mas justas o bastante para não escorregarem sozinhas. A chula, por sua vez, tem origem na tradição portuguesa trazida pelos colonizadores do norte de Portugal, especialmente do Minho e Douro Litoral. É uma dança de salão, mas com elementos de improviso e disputa coreográfica entre casais. O ritmo é ternário, geralmente em 3/4 ou 6/8, e o passo básico é uma marcha com leve balanço lateral. O que pouca gente sabe é que a chula paulista tem uma variante própria, mais acelerada e com saltos, que se diferencia da versão original por usar o ritmo de sanfona como base rítmica em vez de instrumentos de corda. Isso muda completamente a forma de dançar, porque o compasso ternário exige mais controle de peso do corpo.
como organizar um grupo funcional
Se você está montando algo do zero, aqui vai o caminho mais direto. Primeiro, defina qual tradição você quer trabalhar. Não tente fazer todas ao mesmo tempo. Comece com catira porque é a mais acessível. Reúna pelo menos oito pessoas dispostas a ensaiar duas vezes por semana. Use uma viola para marcar o ritmo — se não tiver, um gravador com gravações de catira tradicional funciona, mas o som ao vivo é muito mais preciso para manter o compasso. Ensine primeiro o esquema de palmas e a canção de chamada. Só depois de o grupo dominar isso é que introduza os movimentos de pés. Na minha experiência, um grupo que já consegue cantar e palmilhar corretamente leva em média 45 minutos de ensaio para aprender o primeiro sapateado. Um grupo que pula essa etapa leva duas horas e ainda sai errado.
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O segundo passo é a estrutura dos coros. Catira exige que os dois lados tenham o mesmo número de participantes. Se um lado tiver mais pessoas, o alinhamento fica torto, o que quebra a simetria visual e sonora. Sempre verifique isso antes de começar a ensaiar. Para a dança dos fitinhas, o número ideal é par, entre doze e vinte pessoas. Menos que isso os padrões geométricos não se formam corretamente. Compre fitas de cetim ou algodão com largura de cerca de 3 centímetros. Comprimento mínimo de dois metros por pessoa. Evite fitas de plástico porque escorregam demais e perdem a textura necessária para o entrelaçamento.
questões que ninguém conta
Aqui vai algo que você não encontra em material didático: a catira e a chula têm diferenças estruturais que afetam diretamente a postura do dançarino. Na catira, o corpo fica mais ereto, com o peso distribuído uniformemente entre os pés, porque a dança é essencialmente uma performance de mãos e voz. Na chula, o peso tende a ficar mais deslocado para o pé de apoio durante os giros e saltos, o que exige mais força nos tornozelos e nos músculos estabilizadores do core. Se você treinar catira e chula na mesma semana sem separar os exercícios de preparo físico, corre risco de lesão nos joelhos. Eu vi isso acontecer com um grupo que eu orientava em 2019. Três membros desenvolveram tendinite no joelho direito porque estavam fazendo os dois estilos no mesmo dia, sem intervalo de recuperação. Outro ponto importante: a letra das músicas de catira é frequentemente improvisada. Isso significa que alguém do grupo precisa ter repertório suficiente de versos ou capacidade de criar na hora. Se ninguém souber improvisar, o grupo fica travado em canções prontas e perde a essência da tradição. Sugiro que pelo menos duas pessoas do grupo pratiquem improvisação regularmente, escrevendo versos novos pelo menos uma vez por semana.
onde encontrar material de apoio
Não existe um banco de dados oficial centralizado. O que funciona melhor são canais no YouTube de grupos tradicionais como o Grupo de Arte e Cultura Popular Viola de Cocho, de São Paulo, e o Grupo de Folclore da UFMG. Ambos postam ensaios completos com explicação passo a passo. O canal da Secretaria de Cultura do estado de São Paulo também tem acervos digitizados de gravações antigas de catira e chula que servem como referência rítmica. Para partituras e cifras de viola, o site do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de São Paulo disponibiliza documentos gratuitos. Acesse pelo portal da prefeitura e busque por "catira" ou "repique". Muitos arquivos estão em PDF e incluem tanto a notação musical quanto descrições dos passos.
Se o seu objetivo é performance pública, considere contratar um maestro ou coordenador musical com experiência em cultura popular para revisar a coreografia antes dos primeiros ensaios abertos. O custo varia entre duzentos e quinhentos reais por sessão, dependendo da região, mas evita ajustes caros depois. O que falta muito é informação sobre a diferença regional dentro do próprio sudeste. A catira paulista difere da mineira em detalhes rítmicos e na forma de organizar os coros. A chula capixaba tem influências africanas mais pronunciadas do que a chula paulista. Se você vai pesquisar, tenha cuidado para não pegar material de um estado e aplicar cegamente em outro. Os passos podem ser parecidos, mas os tempos e a intensidade do movimento mudam.