O que acontece dentro da colmeia quando o enxameamento ocorre
A reprodução das abelhas é um processo dividido em três vias distintas, e a maioria das pessoas só conhece uma delas. A rainha acasala com zangões durante o voo nupcial, deposita os ovos, e a colônia se expande. Mas o enxameamento — quando uma colônia se divide para formar uma nova — é muito mais complexo do que parece. Se você está começando a estudar apicultura ou simplesmente quer entender o mecanismo sem romantização, isso aqui vale mais do que qualquer vídeo de 30 segundos.como as abelhas se reproduzem: o ciclo completo
A abelha-rainha (Apis mellifera) nasce de um ovo fertilizado que foi depositado em uma célula real — aquelas estruturas em forma de amendoim que as operárias constroem especificamente para criar uma nova mãe. O alimento determinístico aqui é a geleia real, uma substância rica em proteínas e lipídios segregada pelas glândulas hipofaríngeas das operárias mais jovens. A larva que receber geleia real em caráter contínuo se desenvolve em uma rainha fértil, enquanto as que recebem apenas esporadicamente viram operárias estéreis. O voo nupcial acontece entre 7 e 14 dias após a emergência da rainha. Ela sobe a centenas de metros de altitude e acasala com múltiplos zangões — geralmente entre 10 e 20 — em um único período de acasalamento. O esperma é armazenado na bursa copulatrix e usado durante toda a vida dela, que pode durar de 2 a 5 anos. Cada óvulo é fertilizado seletivamente: se o óvulo passar pelo ducto fertilizador, vira uma fêmea (operária ou nova rainha); se não passar, vira um macho (zangão). Isso é hermafroditismo haplodiploide, e é o que define a genética de toda a colônia.
Os zangões nascem de ovos não fertilizados — processo chamado partenogênese. Eles não têm pai, só mãe. E passam seus primeiros 24 dias de vida apenas comendo e esperando para acasalar, que é literalmente sua única função antes de morrer no ato, pois o edeago se arranca do corpo. Eu já vi apicultores novatos confundirem a construção de células reais com simples supressão real, e aí a colônia entra em pânico reprodutivo. O sinal mais claro de que uma colônia está prestes a enxamear não é a presença de realois visíveis — é a redução drástica na postura da rainha, combinada com um aumento na produção de própolis e uma mudança no comportamento de guarda. Quando percebi isso pela primeira vez, estava perdendo dois enxames por temporada sem entender o motivo. A correção foi simples: fazer a inspeção quinzenal focando na distribuição de cria aberta, não apenas na quantidade de favos.
O enxameamento propriamente dito começa quando a colônia atinge o pico populacional — normalmente entre 40 mil e 60 mil indivíduos — e a rainha velha parte com cerca de metade das operárias para fundar uma nova colônia. Ela leva reservas de mel e pólen presas na prega retal e deixa para trás rainhas virgens que eclodem das células reais. Essas rainhas jovens lutam até a morte entre si; a última sobrevivente assume como rainha definitiva da colônia original. Um detalhe que quase ninguém menciona: a rainha que sai no enxame pode viver indefinidamente se encontrar um novo local de nidificação. O enxame se agrupa em um galho, forma uma cascata, e duas a três operárias exploradoras já terão encontrado um cavidade adequada nas últimas 24 a 48 horas antes da partida. Se você encontrar um enxame, pegue-o, coloque num apiário provisório com um quadro de favo preenchido, e adiante um quadro com cria operculada da colônia-mãe para estimular as operárias a aceitarem a nova rainha. A taxa de sobrevivência desse procedimento manual fica em torno de 70 a 80%, dependendo da época do ano.
A criação de zangões também é parte fundamental do ciclo, e muitos criadores negligenciam isso. Zangões representam de 5% a 15% da população em tempo normal, mas podem saltar para 30% no período de enxameação. Uma colônia com déficit de zangões simplesmente não consegue realizar o acasalamento adequado, e rainhas novas frequentemente morrem antes de iniciar a postura porque nenhum macho as encontra no voo nupcial. A solução prática é manter núcleos de reproduçao com suprimento constante de zangões, especialmente entre setembro e novembro no Hemisfério Sul. O período de postura da rainha varia drasticamente com a temperatura e a disponibilidade de recursos. Em condições ideais, ela põe entre 1.500 e 2.000 ovos por dia — mais do que seu próprio peso. Mas em condições de escassez, essa taxa cai para 200 a 300 ovos diários, e a colônia entra em modo de sobrevivência reprodutiva, priorizando a manutenção da população adulta em detrimento da expansão.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Problemas comuns e como resolver na prática
O erro mais frequente em manejo reprodutivo é a sobreposição de rainhas. Quando duas rainhas férteis coexistem na mesma colônia, o resultado é conflito armado, não cooperação. As operárias geralmente matam a rainha mais velha, mas se isso não acontecer rápido, a colônia entra em estado de confusão reprodutiva e pode extinguir-se em 3 a 5 dias. O diagnóstico é a presença de múltiplas posturas em favos diferentes ou a constatação de que duas rainhas estão ativas em momentos distintos da inspeção. Outro problema recorrente é a falta de diversidade genética no acasalamento. Se a colônia está em uma área com poucas rainhas virgens dispersas, o acasalamento ocorre entre parentes próximos, reduzindo a variabilidade genética e tornando a linhagem mais suscetível a doenças e parasitas. A recomendação prática é introduzir rainhas de núcleos distantes, preferencialmente com origem documentada, a cada dois ou três anos.
A partenogênese que gera zangões pode ocorrer de forma espontânea em rainhas velhas ou stressadas, quando a taxa de postura cai tanto que o mecanismo de fertilização se torna inconsistente. Se você observar ovos isolados em células operárias normais — um padrão que indica que a rainha parou de colocar ovos fertilizados — é sinal de que a colônia precisa de reposição rápida de rainha. Na prática de campo, o método de enxameação artificial mais confiável que eu já usei envolve dividir uma colônia forte em dois núcleos, mantendo a rainha original em um deles e proporcionando ao outro uma célula real de emergência ou uma rainha virgem de boa linhagem. O núcleo com a rainha nova estabiliza em 18 a 21 dias; o núcleo com a rainha velha continua produzindo células reais como medida preventiva. Essa técnica duplica a população de colônias em um ciclo reprodutivo completo, que leva aproximadamente 45 dias do início ao estabelecimento dos dois núcleos independentes.
A estação de enxameação natural varia conforme a latitude. No sul do Brasil, o pico ocorre entre setembro e novembro, coincidindo com o florescimento da fluex e outras espécies nectaríferas. No norte e centro-oeste, o período se estende de julho a outubro. Identificar a flora principal da região é crucial para sincronizar o manejo reprodutivo com os recursos disponíveis.
Alternativas ao método tradicional
Nem toda reprodução exige enxameação. A técnica de colméia migratória permite a captura e transferência de enxames naturais diretamente para apiários manejados, o que economiza tempo e aumenta o controle sanitário. Já a inseminção artificial de rainhas é o padrão profissional para produção de linhagens selecionadas, mas exige equipamento especializado e treinamento específico — o custo inicial fica em torno de R$ 8.000 a R$ 12.000, e o tempo de aprendizado é de pelo menos seis meses para operação competente. O método de divisão por enxertia de colônias fracas em fortes é outra opção válida. Quando uma colônia enfraquece por doença ou estresse, em vez de descartá-la, transfere-se sua rainha para uma colônia mais vigorosa que já possui uma Rainha de reposição. A colônia forte absorve a fraca sem conflitos, e o processo de fortalecimento leva de 10 a 14 dias. Essa abordagem reduz perdas em até 40% comparada à manutenção de colônias isoladas debilitadas.
O que funciona na teoria nem sempre funciona na prática. Colônias com histórico de enxameação precoce tendem a repetir o comportamento mesmo com manejo adequado, e a seleção natural desses indivíduos é mais eficaz do que tentativas de correção comportamental. Se uma colônia enxameia duas vezes em uma temporada, o mais econômico é substituí-la por uma de origem conhecida com linhagem de baixa tendênia ao enxameio.