O que procurar na bibliografia de Cândido Portinari
A bibliografia de Cândido Portinari é, pra ser honesto, mais vasta do que o pessoal imagina e também mais bagunçada do que deveria ser. Existem obras de referência centrais, mas muita coisa espalhada por catálogos de exposição, teses e publicações institucionais que nunca viraram livro comercial. Se você tá começando uma pesquisa, o caminho mais direto é seguir os catálogos essenciais, depois afunilar pelas exposições que tiveram publicação própria. O ponto de partida obrigatório é o catálogo da exposição organizada pelo Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 1979, curada por Pedro Karp Vasansky. Esse volume reunia obras de várias coleções e introduzia uma sistemática de datação e atribuição que se tornou padrão. A versão em dois tomos com reprodução em preto e branco das obras é a mais citada em artigos acadêmicos. Existe uma versão digitalizada pela Fundação Biblioteca Nacional, mas a qualidade das imagens deixa a desejar para quem precisa analisar detalhes técnicos.
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Além do catálogo de 1979, há três obras que todo mundo que trabalha com Portinari acaba consultando. A primeira é "Cândido Portinari: Obra Completa" de Maria Luísa Bottana Bordallo, publicada em 1997 pela Editora da Universidade de São Paulo. Esse livro segue a cronologia das obras por série temática e inclui notas sobre técnicas e dimensões. A segunda é "Portinari: O Pintor e a Pintura" de Carlos Drummond de Andrade, edição crítica preparada por Lívio Xavier, que reúne textos escritos pelo poeta ao longo de décadas e funciona como um diário crítico útil para entender a recepção da obra do pintor. A terceira referência fundamental é o catálogo raisonné parcial coordenado por Pedro Karp Vasansky, publicado pela Editora 34 em 2006. Ele cobre principalmente a fase madura, dos anos 1930 aos 1950, e é o mais rigoroso em termos de procedência e documentação fotográfica. A versão impressa tem cerca de 480 páginas com 1.200 imagens. Vale frisar que esse catálogo raisonné não cobre a fase final nem os desenhos e agravilas, então ele é complementar, não definitivo.
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Tem ainda a produção do Museu Portinari em Brodowski, que fica no interior de São Paulo. Eles mantém um acervo documental enorme epublicam catálogos de exposição periodicamente. Os mais recentes, dos últimos cinco anos, trazem pesquisas inéditas sobre os painéis de Curitiba e sobre o período europeu. O problema é que muitas dessas publicações são tiragens pequenas, entre 500 e mil exemplares, e somem rapidamente dos mercados usados. Comprei uma edição de 2014 por R$120 num sebo online e revendi depois por R$380. Não recomendo comprar antes de verificar a disponibilidade em bibliotecas universitárias. Um detalhe prático que pouca gente menciona: os números de obra dos catálogos diferentes não são compatíveis entre si. O catálogo de Bordallo usa uma numeração, o de Vasansky usa outra, e os catálogos de exposição do MASP às vezes usam siglas próprias. Quando você estiver cruzando fontes, anote sempre qual sistema de numeração está usando. Eu gastei umas três semanas num projeto de mestrado entendendo por que duas referências à mesma obra, "Guerra e Paz", apareciam com datas diferentes nos índices. No final, era só o catálogo de 1979 que usava data de instalação em vez de data de execução.
Se você precisa de acesso gratuito, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses da CAPES tem vários trabalhos que fazem revisão bibliográfica específica sobre Portinari. A Universidade Estadual de Campinas também disponibiliza parte do acervo documental digitalizado no repositório institucional. Desses dois lugares, consigo baixar artigos e capítulos inteiros em PDF num dia útil, o que economiza bastante tempo se você não tem acesso a biblioteca universitária presencial. O catálogo raisonné de Vasansky é a referência mais confiável que existe, mas tem limitações importantes. Ele não inclui a fase inicial dos anos 1920 com a mesma profundidade que a fase madura. Obras daquela época ainda são alvo de discussão entre pesquisadores, e algumas atribuições feitas nos anos 1980 foram revisadas nos últimos cinco anos. Há pelo menos duas obras no acervo do Museu de Arte de São Paulo que foram readaptadas como "atribuição provisória" depois de exame técnico com raio-X, e essa informação não consta no catálogo impresso.
Outro problema comum: há muitas reprodução de obras de Portinari em livros de história da arte brasileira que não têm numeração de catálogo. Se você pegar um livro didático qualquer, saber se aquela imagem corresponde à numeração do catálogo de Bordallo, do de Vasansky ou de algum catálogo de exposição antigo. Sempre verifique a legenda com cuidado e, se possível, cruze com a bibliografia especializada antes de citar em qualquer trabalho formal.