Como usar interjeições em atividades de sala de aula
Interjeições são aquelas palavras soltas que todo mundo usa sem pensar muito: uh, nossa, puxa, oxente. O problema é que elas aparecem em todo lugar no cotidiano, mas muitas vezes somem dos cadernos de português quando a coisa fica séria. Isso cria uma lacuna interessante porque o aluno sabe usar "nossa" num grupo de WhatsApp, mas trava na hora de identificar a função sintática delas em uma prova. Eu trabalhei com turmas do nono ano e ensino médio por alguns anos e percebi que o obstáculo real não era o conceito em si, mas a forma como eu estava abordando. Comecei a trocar a abordagem teórica por atividades práticas que exigiam os alunos usarem as interjeições de maneira contextualizada, e o resultado mudou a dinâmica da turma quase imediatamente.
Atividades interjeição: do conceito à prática
A primeira atividade que você pode fazer é simples mas eficiente. Peça para os alunos escreverem um parágrafo narrando um momento de tensão ou surpresa, mas com uma regra específica: cada vez que o personagem sentir algo forte, ele não pode usar adjetivos. Só pode recorrer a interjeições. O texto resultante geralmente é engraçado porque força o aluno a pensar em sinônimos verbais para emoções. Depois dessa etapa, o trabalho de identificação fica muito mais rápido. Quando o aluno já vivenciou o uso, reconhecer a classe gramatical deixa de ser abstrato. Eu costumava entregar frases feitas de notícias ou posts de redes sociais e pedir para destacarem todas as interjeições, classificando-as como dor, surpresa, alegria, ordem ou. O detalhe importante é não tratar todas como sinônimos -- "ah" e "nossa" não têm a mesma carga emocional nem a mesma função comunicativa, mesmo que ambas expressem surpresa.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Uma variante que funciona bem é o jogo de dublagem. Coloque trechos de filmes ou seriados mudos e peça para os alunos adicionarem as interjeições nos momentos certos. A gravação pode ser feita com celular mesmo, sem necessidade de equipamento profissional. O exercício mostra como a entonação e a escolha da interjeição mudam completamente o sentido da cena. Alunos que nunca tinham prestado atenção nesse aspecto costumam se surpreender com a própria produção depois da primeira tentativa. Existe um limite prático que muitas vezes passa despercebido: interjeições não têm variação nominal nem verbal, o que significa que elas não concordam com sujeito, tempo verbal ou gênero. Isso parece óbvio, mas em atividades de produção textual os alunos tendem a tentar flexionar palavras como "oxsé" ou "puxa", criando formas inexistents na língua. A correção precisa ser direta -- mostrar que a função delas é exatamente essa, manter-se fixa e pontual.
Outro ponto que vale atenção é a diferença entre interjeições propriamente ditas e locuções interjetivas. Expressões como "meu Deus", "ora bolas", "ai de mim" cumprem a mesma função, mas obedecem a regras diferentes de análise. Em atividades de nivel mais avançado, sugiro separar claramente os dois grupos antes de misturá-los, senão o aluno acaba achando que "nossa senhora" é uma única palavra quando na verdade é uma locução. A confusão gera erro em provas objetivas e atrapalha a compreensão textual posterior. Se você quiser aplicar isso em contexto de urgência -- digamos, uma recuperação de aprendizagem com alunos que já estão defasados -- o caminho mais curto é inverter a ordem: começar pelos exemplos reais antes de qualquer definição gramatical. Mostre as interjeições em uso, peça reconhecimento intuitivo, só então introduza a terminologia. A sequência inversa costuma funcionar menos porque o cérebro do aluno ainda não tem material concreto para ancorar o conceito abstrato.
O que eu aprendi com essa experiência é que interjeições são um tema que todo material didático trata como algo secundário, quase uma curiosidade gramatical. Na prática, elas são onipresentes na comunicação oral e escrita informal, e negligenciá-las é ignorar uma fatia inteira do repertório linguístico dos estudantes. O ganho com atividades bem desenhadas é pequeno em horas de aula, mas significativo na apropriação do conteúdo.