Ameba No Intestino - Entamoeba histolytica infecção por protozoários do intestino grosso ...
Entamoeba histolytica infecção por protozoários do intestino grosso ...

Entendendo a amebíase intestinal na prática clínica

A maioria dos pacientes que chega com diarreia crônica não pensa em parasitas. Eles pensam em estresse, alimentação, intolerância alimentar. O diagnóstico de ameba no intestino costuma ficar nos últimos lugares da lista Differential. Eu vi isso repetidamente na minha prática. Um colega meu passou três meses tratando um paciente como síndrome do intestino irritável antes de um exame de fezes revelar Entamoeba histolytica.

O que é ameba no intestino e como confirmar

Entamoeba histolytica é um protozoário que invade a mucosa colônica. A infecção se dá pela via fecal-oral, geralmente por água ou alimentos contaminados com cistos. Nos casos clássicos, o paciente apresenta disenteria amébica com sangue e muco nas fezes, dor abdominal em quadrant inferior esquerdo, tenesmo e febre baixa. Mas os casos não clássicos são mais frequentes: diarreia leve intermitente, flatulência excessiva, perda de peso sem causa aparente. O exame de fezes convencional pode passar despercebido se o laboratório não for específico para parasitas. Eu recomendo sempre pedir coproparasitológico completo com técnica de concentração e. Um detalhe importante: a sorologia para amebíase tem sensibilidade de cerca de 95% em infecções invasivas, mas pode permanecer positiva por anos após a cura. Então um resultado positivo isolado não confirma infecção ativa. O padrão-ouro a identificação de trofozoítos com fagocitose de hemácias no exame de fezes fresco, combinada com PCR ou ELISA para diferenciar E. histolytica de E. dispar e E. moshkovskii, que são morfológicamente idênticos mas não patogênicos.

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Tratamento: o protocolo que funciona

Para a amebíase intestinal sintomática, o esquema padrão é metronidazol 750 mg três vezes ao dia por 10 a 14 dias, seguido de um agente luminal como paromomicina 500 mg três vezes ao dia por 7 dias ou iodoquinol 650 mg três vezes ao dia por 20 dias. O metronidazol trata a forma invasiva tecidual, mas não elimina os cistos no lúmen intestinal. É aqui que muitos profissionais cometem o erro de parar o tratamento após o nitroimidazol. Sem o agente luminal, a recidiva pode ocorrer em até 30% dos casos. Uma situação complicada que encontrei recentemente: um paciente com amebíase hepática associada. Ele apresentava dor em hipocórdio direito, febre intermitente e leucocitose. O ultrassom mostrou lesão hiperecogênica no lobo hepático direito. O tratamento foi metronidazol 750 mg três vezes ao dia por 14 dias, mas o seguimento com tomografia computadorizada foi necessário por 6 meses para confirmar a resolução completa. Lesões amébicas hepáticas podem mimetizar abscessos bacterianos ou neoplasias, então o diagnóstico diferencial é essencial.

Doses e populações especiais

Em gestantes, o metronidazol só deve ser usado no segundo e terceiro trimestres se necessário. A alternativa é diloxanida furoato como agente luminal isolado, mas ela não trata a forma invasiva. Em crianças, a dose de metronidazol é 35 a 50 mg/kg/dia divididos em três tomadas. A paromomicina também é segura em crianças com mais de 8 anos, mas não há dados suficientes para menores. Pacientes imunossuprimidos podem apresentar formas mais graves e prolongadas, exigindo tratamento mais longo e acompanhamento sorológico serial. Uma limitação importante do metronidazol: ele causa reação tipo dissulfiram com álcool, então o paciente deve evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento e por 48 horas após. Efeitos colaterais comuns incluem náusea, sabor na boca e dor de cabeça. Raramente, neuropatia periférica pode ocorrer com uso prolongado. Se o paciente não tolerar o metronidazol, a tinidazol 2 g dose única é uma alternativa eficaz, com melhor perfil de tolerabilidade e meia-vida mais longa que permite esquemas mais curtos.

Prevenção e vigilância

A prevenção da amebíase depende basicamente de saneamento básico e higiene alimentícia. Em viagens para áreas endêmicas, evite água da torneira, gelo, saladas não lavado e frutos do mar crus. A cloração convencional da água não elimina cistos de Entamoeba, que são resistentes a concentrações normais de cloro. Ferva a água por pelo menos 1 minuto ou use filtros com abertura inferior a 1 micra. Em surtos institucionais, como casas de saúde ou creches, a investigação deve incluir todos os contatos próximos, mesmo assintomáticos, pois até 10% dos infectados são portadores assintomáticos de cistos. O tempo médio para resolução dos sintomas após início do tratamento adequado é de 3 a 5 dias para disenteria amébica não complicada. Fezes ainda positivas após 14 dias de tratamento indicam falha terapêutica ou reinfecção, e devem ser investigadas com PCR e avaliação de adesão ao medicamento. Em áreas endêmicas como partes da América do Sul, Ásia e África, a prevalência pode ultrapassar 20% da população, tornando o rastreamento seletivo em pacientes com diarreia crônica uma estratégia custo-efetiva.