A Obra De Rubem Valentim Apresenta Emblemas - A Obra De Rubem Valentim Apresenta Emblemas - RETOEDU
A Obra De Rubem Valentim Apresenta Emblemas - RETOEDU

Entendendo os emblemas na arte de Rubem Valentim

A obra de rubem valentim apresenta emblemas como elemento central de sua linguagem visual. Valentim (1922-1991) construiu toda uma produção baseada na fusão entre geometria construtiva e símbolos carregados de significado cultural, político e religioso. Diferente do concretismo puro que dominava São Paulo na época, ele trouxe para a tela questões que vinham da tradição africana e afro-brasileira, misturando com a abstração geométrica que aprendeu estudando com Alfredo Volpi e no Museu de Arte Moderna do Rio. O emblema, no caso dele, não é apenas um desenho decorativo. É uma marca que carrega referência direta a orixás, a instrumentos musicais, a figuras humanas estilizadas, a cruzes e a símbolos de identidade negra. Valentim trabalhava muito com formas triangulares, circulares e cruciformes dispostas de maneira que pareciam selos ou insígnias. A paleta era geralmente restrita: vermelho, preto, branco, amarelo e azul — cores que remetiam tanto à bandeira brasileira quanto a elementos visuais das religiões de matriz africana.

a obra de rubem valentim apresenta emblemas e sua relação com a política cultural dos anos 60

O que muita gente não entende de cara é que os emblemas de Valentim eram profundamente políticos. Ele expos no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1957, no Salão Nacional de Artes Plásticas, e já naquela época estava tentando provar que a abstração geométrica brasileira podia ter conteúdo sem ser figurativa. O problema é que o mercado e a crítica da época preferiam ver nele apenas um construtivista alinhado ao modernismo europeu. Levou anos para o trabalho dele ganhar a leitura correta. Na prática, identificar um emblema Valentim não é tão complicado assim. Você olha para a composição e busca três coisas: a presença de um símbolo centralizado que funciona como um "selo", o uso de limites nítidos e contornos fechados que isolam essa figura do fundo, e uma hierarquia visual clara onde o emblema ocupa o centro de gravidade da tela. Se você encontrar essas três características juntas, provavelmente está diante de uma obra dele.

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Um detalhe que passa despercebido na maioria dos catálogos é que Valentim frequentemente invertia a relação entre figura e fundo. Em algumas obras, o emblema parece flutuar sobre o campo cromático. Em outras, o fundo "cava" o espaço e o emblema se resolve como uma recorte. Essa variação é importante porque mostra que ele não estava preso a uma fórmula única. Ele testava relações espaciais diferentes a cada série. Eu já analisei várias obras atribuídas a Valentim e o que mais costuma dar problema é a confusão com artistas da mesma geração que também usavam geometria, como por exemplo Wastevitch ou mesmo alguns trabalhos iniciais de Lygia Clark. A diferença fundamental está na carga simbólica. Valentim quase sempre coloca algo que pode ser lido como referência cultural específica. Wastevitch, por exemplo, tendia a uma abstração mais universal, mais despojada de conteúdo narrativo. Se você olhar uma tela e não conseguir identificar nenhuma possível referência a um símbolo cultural — seja africano, religioso ou político —, desconfie.

Outro ponto que os colecionadores mais experientes levam em conta é a textura da tinta. As obras de Valentim dos anos 50 e 60 geralmente têm aplicação de tinta mais espessa, quase empastada, especialmente nos contornos dos emblemas. Já as peças dos anos 70 tendem a superfícies mais lisas, mais secas. Isso ajuda a datação quando o catálogo raisonne não está disponível ou quando a proveniência é duvidosa. A desvantagem de estudar os emblemas de Valentim é que muita coisa ainda não foi mapeada com rigor acadêmico. O trabalho dele foi suprimido durante a ditadura militar porque tinha essa leitura política que o regime não queria ver exposta. Muitas obras circularam de forma clandestina ou foram doadas sem documentação adequada. Isso gera uma lacuna séria na proveniência que complica tanto a autenticacao quanto a avaliação de mercado.

Se você está começando a se interessar pelo assunto, o caminho mais seguro é começar pelos acervos institucionais. O Museu de Arte Contemporânea da USP tem uma coleção relevante. O Itaú Cultural também digitalizou parte significativa. A Fundação Bienal de São Paulo possui obras que podem ser consultadas sob agendamento. Evite comprar sem ver a obra pessoalmente ou sem ter lauda técnica de um especialista reconhecido — o mercado de arte brasileira tem muitas reprodução e atribuições equivocadas, especialmente em leilões online. O que faz Valentim ser relevante hoje não é apenas a beleza formal dos emblemas, mas a maneira como ele mostrou que a abstração podia ser um veículo para discutir identidade, resistência e memória. Isso influenciou gerações depois dele, desde os neokoncretos até artistas contemporâneos que trabalham com simbolismo e geometria. Vale a pena estudar com atenção porque a leitura superficial esconde camadas que só aparecem quando você passa mais tempo olhando.