Como escrever números em português: guia prático
A tradução de números do inglês para o português parece simples à primeira vista, mas tem armadilhas que quase todo mundo pisa. Números grandes, décimos, ordinais, regras de ortografia — tudo muda dependendo da língua. Vou explicar direto, sem enrolação, com base no que eu vejo acontecer na prática todo dia.
write the numbers tradução para o português: o básico que você precisa saber
Em português, escrevemos números de forma diferente do inglês. O mais óbvio é a questão dos milhares e das casas decimais: no inglês usamos vírgula para decimais e ponto para milhares (1,000,000.50), enquanto no português a lógica é invertida. Um milhão e meio vira 1.000.000,50 aqui. Isso é o primeiro erro que as pessoas cometem ao traduzir documentos. Vamos do zero ao milhão. Os números de 0 a 20 têm formas únicas que não precisam ser montadas:
0 — zero
1 — um
2 — dois
3 — três
4 — quatro
5 — cinco
6 — seis
7 — sete
8 — oito
9 — nove
10 — dez
11 — onze
12 — doze
13 — treze
14 — catorze (ou quatorze)
15 — quinze
16 — dezesseis
17 — dezessete
18 — dezoito
19 — dezenove
20 — vinte A partir de 21, a coisa ganha uma estrutura. De 21 a 99, usamos "e" para ligar as dezenas às unidades: 21 é "vinte e um", 35 é "trinta e cinco", 99 é "noventa e nove". Só isso. Não tem segredo. Mas preste atenção: "vinte e um" varia em gênero — "vinte e uma" quando se refere a coisas femininas. "Vinte e uma horas", "vinte e uma pessoas".
Regras para números grandes
Aqui é onde a tradução começa a ficar chata. O sistema numérico português é baseado em classes: mil, milhão, bilhão. Cada classe tem seu plural. 1.000 — mil (invariável, não tem "miles")
2.000 — dois mil
1.000.000 — um milhão
2.000.000 — dois milhões
1.000.000.000 — um bilhão
O detalhe importante: de 1.000.001 a 1.999.999, a estrutura é "um milhão e [número]". Por exemplo, 1.500.000 é "um milhão e quinhentos mil". Note o "e" antes das centenas quando elas completam o milhão. Para números acima de 100, a regra geral é: centena + "e" + dezena + "e" + unidade. Exemplo: 347 = "trezentos e quarenta e sete". A exceção é quando a dezena ou unidade é zero — aí corta o "e". 300 é "trezentos", não "trezentos e zero".
Erros comuns que eu vejo todo dia
Um dos erros mais frequentes é a calque do inglês. No inglês, números compostos usam hífen: "twenty-one", "forty-five". No português, o hífen não existe na escrita de números por extenso. Escreve-se "vinte e um", nunca "vinte-e-um". Se você vir alguém usando hífen, é tradução automática desregrada. Outro erro clássico é a confusão entre "mil" e "miliar". "Mil" é sempre invariável. "Dois mil" — nunca "dois miles". Já "milhão" varia: "dois milhões", "três milhões".
Tem também a questão de 14. Em português brasileiro, tanto "catorze" quanto "quatorze" são aceitos, mas "catorze" é a forma preferida no Brasil e mais comum em textos formais. Nos países lusófonos africanos, "quatorze" tende a ser mais usado. Se estiver traduzindo para um público brasileiro, vá de "catorze".
Numerais ordinais
Os ordinais são outra camada de complicação. Do 1º ao 12º, usamos formas específicas: 1º — primeiro
2º — segundo
3º — terceiro
4º — quarto
5º — quinto
6º — sexto
7º — sétimo
8º — oitavo
9º — nono
10º — décimo
11º — undécimo
12º — décimo primeiro
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A partir do 13º, a regra é mais simples: o cardinal seguido de "-ésimo". 13º = décimo terceiro (ou décimo-terceiro com hífen no ordinal composto). Aqui entra um detalhe que muita gente ignora: a regra do hífen nos ordinais compostos. De 16º em diante, usa-se hífen: décimo-segundo, vigésimo-primeiro. Mas de 21º em diante, volta a regra do "e": vigésimo primeiro (sem hífen, porque tem "e" no meio). No inglês, ordinais usam sufixos abreviados (1st, 2nd, 3rd). Em português, usamos o sobrenumeral (º para masculino, ª para feminino). 1ª mulher, 2º andar.
Decimais e porcentagens
Este é o campo minado. No inglês, "3.14" é três vírgula catorze. No português, "3,14" é o mesmo número. Se você traduzir um arquivo mantendo os pontos como separadores decimais, vai bagunçar tudo. O mesmo vale para o separador de milhar: "1,000,000" em inglês vira "1.000.000" em português. Porcentagens seguem a regra natural: "5%" se lê "cinco por cento". Em contextos mais formais, pode-se escrever "cinco por cento" por extenso. Em tabelas financeiras e relatórios, prefira sempre o símbolo para economizar espaço — é o padrão do mercado.
Um caso específico que me pegou
Eu estava traduzindo um contrato internacional e me deparei com o número "1,5". Em inglês americano, isso é um inteiro e meio. Pensei que seria "um vírgula cinco" em português também. Errado. Em português, "1,5" lê-se "um inteiros e cinco décimos" em contexto técnico, mas no uso cotidiano e jurídico, o correto é "um inteiro e meio". A diferença é sutil, mas faz diferença num contrato. Se você escrever "um vírgula cinco" num documento formal, soa amador. Anotamos essa distinção num glossário interno que mantemos para traduções jurídicas.
Dicas práticas para não errar
A melhor ferramenta que eu conheço para verificar a escrita de números em português é usar o próprio corretor do Google Docs ou do Word configurado para português brasileiro ou português de Portugal, dependendo do público-alvo. Eles costumam pegar inconsistências de gênero e concordância. Outra coisa: números de 0 a 10 geralmente se escrevem por extenso em textos corridos. Acima de 10, tanto faz — mas o padrão editorial mais aceito no Brasil é escrever por extenso até 100 e usar algarismos a partir daí. Leis e normas técnicas podem ter regras diferentes, então sempre verifique o manual de estilo do cliente.
Para números muito grandes, use a técnica de separar em classes. Pegue 3.456.789.012. Divida em grupos de três dígitos da direita para a esquerda: 3 | 456 | 789 | 012. Depois traduz cada classe: "três bilhões, quatrocentos e cinquenta e seis milhões, setecentos e oitenta e nove mil e doze". Note que o "e" aparece antes de mil e antes da última classe. É a regra: usa-se "e" entre bilhões e milhões, entre milhões e mil, e entre mil e as unidades. Mas nunca entre as classes dentro de cada grupo (é "quatrocentos e cinquenta e seis", não "quatrocentos e cinquenta e seis milhões" — o "e" ali é dentro do grupo, não entre grupos).
Quando usar algarismos vs. por extenso
Regra geral: em textos jornalísticos e acadêmicos, números até 10 vão por extenso. Acima disso, algarismos. Em textos literários, a convenção varia conforme o estilo do autor — alguns preferem todos por extenso, outros misturam. Em documentos financeiros e técnicos, sempre algarismos, independentemente do tamanho. Isso evita ambiguidade. Um número entre parênteses que indica uma estimativa também vai em algarismos: (cerca de 150 pessoas). Se fosse por extenso, ficaria "cerca de cento e cinquenta pessoas" — funciona, mas é mais verboso e menos legível em textos densos.
Ferramentas úteis
Não existe um conversor automático perfeito para numbers-in-words porque a gramática portuguesa é complexa o suficiente para gerar erros frequentes. Eu já testei várias ferramentas online e a maioria falha em números acima de um milhão ou em casos com "catorze" vs. "quatorze". A abordagem mais confiável continua sendo fazer manualmente ou revisar o que a máquina gera. Para quem precisa de algo rápido, o site numeros.pt ou equivalentes brasileiros fazem uma conversão razoável até 999.999. Acima disso, revisa-se com cuidado. Números com decimais também costumam ser problemáticos nesses geradores.
Resumo do que mais importa
Ponto decimal vira vírgula. Separador de milhar vira ponto. "Twenty-one" vira "vinte e um" (sem hífen). "Million" vira "milhão" (com plural regular). Ordinais acima de 12º seguem o cardinal + "ésimo". E em contratos, "1,5" é "um inteiro e meio", não "um vírgula cinco". Se você tiver que traduzir números com frequência, o caminho mais seguro é criar uma tabela de referência pessoal com os casos mais frequentes do seu trabalho. Eu tenho uma planilha com uns 200 exemplos que cubro no dia a dia e consulto toda vez que surge algo fora do padrão. Economiza tempo e evita constrangimento.