O que você precisa saber sobre os gaviões do Brasil
Brasil tem uma quantidade absurda de espécies de rapinantes. Se você mora no campo ou até em cidades grandes como São Paulo, já deve ter visto uns passando por cima. A coisa mais difícil não é identificar, é entender que o nome popular varia de região pra região e isso causa confusão braba. Eu passei anos confundindo gavião-carrapateiro com padeiro porque na prática eles se parecem demais quando voam alto. Aí descobri que o bico do carrapateiro é mais curvado e ele costuma ficar parado em poste esperando carro passar, enquanto o padeiro é mais arisco e já sai voando se você chegar perto.
Tipos de gavião brasileiro mais comuns
Vamos direto aos principais. Não tem lista perfeita porque novos estudos taxonômicos acontecem todo ano, mas os que a maioria dos observadores usa são: Gavião-carrapateiro (Buteo magnirostris). É o clássico. Bico grande, pernas grossas, plumagem variável entre formas escuras e claras. Alimenta-se principalmente de carrapatos que pega em capivaras e boi. É muito comum no Cerrado e no Pantanal. Quando adulto, tem o dorso castanho e barriga clara com listras. O juveniliz está todo marrom com pontas claras nas penas de voo.
Gavião-pereiro (Buteo nitidus). Menor que o carrapateiro, com cauda longa e listrada. Prefere bordas de floresta e matas ciliares. O macho adulto é cinza-ardósia com barriga ruiva. A fêmea e os jovens são marrons. Esse aqui é mais tímido e difícil de abordar. Gavião-preto (Melanogyrus... espera, na verdade é Geranoaetus melanoleucus). Não confunda com o falcão-peregrino. É um gavião grande, preto com barriga branca nos adultos. Voa planando alto em áreas abertas. Onipresente em quase todo o Brasil.
Gavião-de-cabeça-cinzenta (Buteo nitidus... não, esse é o pereiro. O correto é Butastur urubutuinga, o gavião-dos-capões). Esse é o difícil de achar porque vive em capoeira fechada. Tem o bico amarelo brilhante e olhos alaranjados. Os iniciantes sempre confundem com um falcão ou com um abutre pequeno. Gavião-d’anta (Busarellus nigricollis). Exclusivo do Norte e Centro-Oeste. Parece um gavião mas tem o bico muito grosso e uma crista. Tem uma mancha preta no pescoço que dá o nome. Alimentação baseada em anfíbios, principalmente sapos.
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Milhareia (Ictinia incarnata). Não é buteonina, é mais parecido com falcões. Asas longas e estreitas, cauda longa. Tem duas formas: a ruiva e a escura. Vive em áreas alagadas e se alimenta de lagartixas. Voos batidos e rítmicos, bem diferente dos planados dos buteos. Aí tem o caracará (Caracara plancus), que muitos chamam de gavião mas é um falcãoide mesmo, com pescoço comprido e cauda em leque. Muito comum em áreas abertas, anda até no chão caçando.
Um problema que eu encontro o tempo todo: gavião-preto jovem vs gavião-de-cabeça-cinzenta adulto. Ambos têm partes escuras, mas o jovem de preto tem barriga estriada e sobrancelha clara, enquanto o de cabeça cinza é uniformemente escuro com apenas a cabeça cinza. A diferença real aparece quando você vê o voo de perfil. O preto jovem bate asas forte e planeia pouco. O de cabeça cinza planeia muito mais e tem as pontas das asas mais abertas, parecendo dedos. Outro erro frequente é chamar qualquer falcão de gavião. O falcão-peregrino (Falco peregrinus) existe no Brasil e é enorme, mas é falcão mesmo. A diferença prática: falcão tem a testa saliente e o bico com dente marcado, gavião tem a cabeça mais achatada e bico menos gancho. Na hora da caça também é visível. Falcão caça em voo rápido e mergulho. Gavião geralmente caça emboscado ou voando baixo e batendo asas.
Se você quer registrar avistamentos, o iNaturalist e o eBird são úteis mas tenham cuidado com fotos ambíguas. Uma foto de um gavião voando contra o sol geralmente não serve pra identificação confiável. O melhor ângulo é o lateral, com o pássaro em voo batido onde dê pra ver a forma das asas, comprimento da cauda e padrão de cores. Fotos de posado são ideais mas raríssimas na prática. Tem ainda os gaviões menores que muita gente ignora: o graçeiro (Micrastur semitorquatus), o chucuru (Micrastur mintoni), e os falcões-de-coleira (Spiziapteryx). Esses vivem em floresta e são silenciosos. O graçeiro tem aquele chamado grave que parece um ronco, tipo um cachorro pequeno latindo.
O que ninguém te conta é que a época do ano muda completamente o que você vê. No Sul do Brasil, no inverno, algumas espécies migratórias passam pela região. O gavião-de-coleira-pequena pode aparecer onde nunca esteve antes. Já no Nordeste, no seco, os carrapateiros se concentram perto de açudes e ficam mais fáceis de avistar porque os animais que eles parasitam também se juntam na água. Uma limitação séria que você precisa saber: a maioria das guias de campo brasileiras foca em aves passarinhas. Os rapinações são sub-representados. Quando eu comecei, meu guia tinha três páginas de gaviões pro Brasil inteiro. Hoje em dia tem livros melhores, como o Raptors of Brazil do Bill Segal, mas é em inglês e caro. A alternativa prática é usar o guia do BirdForum Brasil junto com o campo prático mesmo, porque nada substitui passar tempo no local esperando o pássaro aparecer num ângulo bom.
Se você quer começar, não tente identificar pela foto do celular de passing by. Anote a silhueta, o tamanho relativo, o habitat e o comportamento. Isso vale mais que dez fotos tremidas. Com prática, em uns dois anos você já consegue separar os grupos básicos sem precisar de guia. O resto é questão de memória visual e de saber que o erro vai acontecer e você simplesmente anota e segue em frente.