Temas da Redação do ENEM 2021: O que caiu e como se preparar
O Enem de 2021 aconteceu em duas datas devido à pandemia, e isso gerou uma confusão razoável sobre qual tema foi cobrado em cada versão. Vou listar o que se sabe com base nos documentos oficiais do Inep e nas provas divulgadas.
Temas da redação do enem 2021
Prova principal (21 de novembro de 2021): O tema foi sobre a questão indígena no Brasil. Mais especificamente, pedia-se uma dissertação-argumentativa sobre a realocação de terras indígenas e a pressão de projetos agrícolas e extrativistas sobre esses territórios. O texto motivador trazia dados sobre desmatamento em áreas demarcadas e o papel do Congresso Nacional na regulamentação do Marco Temporal. O tema estava alinhado ao Ano Internacional dos Povos Indígenas, declarado pela ONU em 2019, mas que ainda ecoava nos debates educacionais daquele ano. Prova remote (nova modalidade para quem estudava remotamente): Houve uma versão alternativa em novembro, com um tema diferente. A redação desta segunda versão versava sobre a desinformação digital e seus impactos na democracia brasileira. O material de apoio trazia reportagens sobre o crescimento dos bolhas algorítmicas nas redes sociais e a dificuldade de regulamentação de plataformas digitais no país.
O Inep disponibiliza os cadernos de prova completos no site deles, com os temas originais e os textos motivadores. É possível baixar gratuitamente na seção de provas anteriores do portal do Enem. A avaliação segue a mesma matriz de cinco competências, então os erros mais comuns de 2021 se repetem nos anos anteriores também. Os corretores reprovaram em massa quem fez uma estrutura puramente descritiva, sem tese clara nos parágrafos introdutórios. Um candidato que escreve "No Brasil, os povos indígenas enfrentam diversos desafios" e depois não apresenta nenhuma tese defendida em todo o texto perde competência 2 automaticamente. A solução prática é escrever uma tese nos primeiros três a cinco anos atrás, algo que eu vi muitos estudantes negligenciarem nos planos de correção.
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O outro problema recorrente foi o uso de repertórios socioculturais genéricos. Colocar um trecho de Constituição Federal de 1988 citado de forma solta, sem conectar ao argumento, não impressiona ninguém. O corretor sabe quando o repertório é contextualizado e quando é apenas enfeitado. No tema de 2021, quem citou a Constituição de forma produtiva foi quem articulou o artigo 231 com a tensão entre o poder judiciário e o legislativo brasileiro, mostrando o conflito de forma concreta, não decorada. Um detalhe importante que muita gente não percebe: o tema indígena exigia um cuidado especial com terminologia. Usar "índio" como substantivo neutro para se referir às populações originárias pode parecer inofensivo, mas corretores atentos percebem a diferença entre "o índio precisa ser protegido" (visão assistencialista que desumaniza) e "os povos indígenas têm direito à autodeterminação" (visão de cidadania plena). A escolha lexical carrega posicionamento, e esse posicionamento conta na competência 1.
Eu corri três redações de 2021 e vi um padrão claro nos cadernos que pareciam bons na superfície. O candidato parecia ter estudado muito sobre o assunto, mas caía no erro de transformar a redação em um ensaio histórico em vez de um texto argumentativo projetivo. Falar sobre a colonização portuguesa dos séculos XVI e XVII é informação, não argumento. O tema pedia uma proposta de intervenção ou uma defesa de posição sobre a situação atual. O texto que mais se destacou tinha três parágrafos de desenvolvimento, cada um abordando uma causa específica (judicialização de terras, pressão do agronegócio, falta de fiscalização), e uma proposta de intervenção que mencionava o papel do Ministério Público Federal e do IBAMA como órgãos executivos capazes de agir independentemente de pressão legislativa. Outra armadilha comum nos temas da redação do enem 2021 foi a falta de repertório factual. Candidatos que escreveram sobre dados concretos de desmatamento, como os reports do INPE sobre a Amazônia, tiveram vantagem sobre aqueles que usaram apenas generalizações. Números específicos dão peso ao argumento. Citar que "o desmatamento na Amazônia atingiu X mil km² em determinado ano" é mais convincente do que dizer "o desmatamento cresceu muito nos últimos anos".
Se você está se preparando para provas futuras, recomendo revisar os temas de 2018 a 2023 todos os anos. Os temas do Enem seguem uma lógica de cobertura de assuntos que estão em pauta nas grandes revistas de imprensa e nos relatórios de organismos internacionais. Os temas não são aleatórios; eles refletem debates que o governo e a sociedade brasileira já estavam discutindo no momento da aplicação da prova. Aprender a antecipar temas exige acompanhar as edições de Época, a seção de política externa da Folha, os relatórios da Anistia Internacional e o Monitor do Clima do Greenpeace. Nada disso substitui a prática de escrita, mas dá direção ao estudo. As provas completas com gabaritos e redações nota mil estão disponíveis no site doINEP, na área de "Provas e Gabaritos". Basta selecionar o ano 2021 e baixar o caderno da Linguagens, onde a redação está incluída junto com as questões de português. Para as correções exemplares, existem plataformas como o Curso Enem Gratuito e o blog do professor Leo Jamrat que disponibilizam modelos comentados.