O que é o Segundo Tratado e por que ainda se fala dele
O Segundo Tratado sobre o Governo Civil é uma obra de John Locke publicada anônima em 1689, mas escrita alguns anos antes, durante o chamado Exclusion Bill crisis na Inglaterra. O texto completo se chama Dois Tratados de Governo, e o segundo trata especificamente da origem, fundamento e limites do governo civil, com destaque para consentimento dos governados, direito à propriedade e direito de resistência.
segundo tratado sobre governo civil
Aqui vou explicar como lidar com esse texto na prática, porque ler Locke sem entender o contexto jurídico da época gera confusão fácil. O livro tem 283 parágrafos numerados. A numeração original é de Locke ou de seu editor? Provavelmente foi introduzida posteriormente, mas ela ajuda a localizar citações. Quando eu estava revisando argumentos lockeanos para um trabalho sobre legitimidade estatal, perdi cerca de duas horas procurando o argumento da propriedade porque a edição que eu usava invertia a ordem de dois capítulos em uma reimpressão barata. A solução foi cruzar com a edição do Peter Laslett, que é o padrão acadêmico, e verificar os parágrafos exatos, não só os números dos capítulos. O núcleo do tratado pode ser dividido em alguns pontos centrais. Primeiro, Locke rejeita o patriarcalismo como fundamento do poder político. Isso significa que ele não aceita a ideia, defendida por Robert Filmer em Patriarcha, de que a autoridade do rei deriva diretamente da autoridade adâmica sobre seus filhos. Segundo, a teoria do estado de natureza: seres humanos nascem em liberdade e igualdade, sem submissão política automática. Terceiro, o governo nasce de um contrato social baseado no consentimento. Quarto, a propriedade surge do trabalho e o governo existe principalmente para protegê-la. Quinto, há direito de resistência quando o governo viola os fins para os quais foi instituído.
A parte que mais causa confusão é o conceito de propriedade. Locke não fala só de bens materiais. Ele começa dizendo que todo homem tem propriedade em sua própria pessoa. O trabalho mistura-se com a natureza e cria direitos de propriedade. O limite prático que ele impõe é o desperdício: você só pode apropriar-se do que conseguir usar antes que estrague. Em termos modernos, isso soa ingênuo para recursos não perecíveis, mas para Locke a regra fazia sentido no contexto de uma economia pré-industrial. Dica técnica: ao citar o texto, use sempre a numeração de parágrafos, não só os capítulos. A edição de Laslett divide o tratado em dez capítulos, mas o conteúdo varia muito dentro de cada um. O capítulo V, sobre propriedade, contém os parágrafos 25 a 143, e a progressão argumentativa lá é específica demais para ser resumida em uma frase.
Como estudar o tratado de forma eficiente
A primeira coisa que eu faria é decidir qual edição usar. As opções principais são a edição crítica de Peter Laslett, disponível em inglês com tradução para o português por diferentes tradutores, e edições mais acessíveis publicadas no Brasil por editoras como a Martin Claret e a Nova Fronteira. Se você vai ler em inglês, a Cambridge Texts in the History of Political Thought tem uma versão confiável. Se for em português, preste atenção à data da tradução, porque versões antigas usam terminologia jurídica ultrapassada que distorce certos trechos. Minha recomendação prática é a seguinte. Leia primeiro os capítulos I a III para entender a estrutura negativa do argumento, que visa destruir a defesa do direito divino dos reis. Depois avance para os capítulos IV a V, onde a teoria da propriedade é construída. Os capítulos VI a IX tratam do estado de natureza e do contrato. Os capítulos XI a XIII detalham a estrutura do governo. Os capítulos XIV a XIX são os mais importantes para a parte política aplicada, incluindo a teoria da revolução. Os capítulos XX a XXIII tratam da escravidão, da guerra e da conquista. Os capítulos XXIV a XXVIII fecham com considerações sobre o fim do governo e a dissolução da sociedade política.
Um erro comum é tratar o estado de natureza como um evento histórico. Locke não está descrevendo o que realmente aconteceu no passado. Ele está descrevendo uma condição lógica, um modelo analítico. Isso significa que o estado de natureza é hipotético, não empírico. Quando eu corrigia redações de estudantes, via várias vezes essa confusão. A correção era simples: lembrar que Locke usa o estado de natureza como ferramenta para fundamentar limitações ao poder estatal, não como tese histórica. Outro ponto que as pessoas negligenciam é a relação entre lei natural e governo positivo. Para Locke, a lei natural é conhecida pela razão e precede qualquer instituição política. O governo não cria direitos, ele os reconhece e os protege. Isso inverte a lógica hobbesiana, onde o soberano define o direito. Se você lê Locke achando que ele defende um relativismo jurídico, está interpretando errado. O direito natural é objetivo, ainda que a aplicação concreta dependa de instituições humanas.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Problemas práticos ao aplicar a teoria lockeana
Existem limitações sérias no Segundo Tratado que raramente são mencionadas em resumos didáticos. A principal é a tensão entre propriedade privada e igualdade. Locke justifica a acumulação de riqueza através do trabalho, mas isso gera desigualdades estruturais que o próprio texto não resolve adequadamente. Quando ele introduz o dinheiro, permite que pessoas acumulem além do limite do desperdício, porque o dinheiro não estraga. Esse movimento teórico é funcional para o argumento, mas cria uma brecha enorme entre igualdade formal e desigualdade material. Um problema técnico que eu enfrentei foi a interpretação do consentimento. Locke fala em consentimento explícito e tácito. O consentimento tácito é dado simplesmente por habituar-se a um território sob determinado governo. Isso significa que, para Locke, morar em um país já é uma forma de consentimento político. A consequência prática é que esse conceito dilui a ideia de escolha livre. Quando eu discutia isso em seminários, alguns colegas alegavam que isso tornava o contrato social irrevogável na prática. A resposta de Locke seria que o direito de saída existe, mas ele reconhece que saídas são custosas. Isso é honesto, mas não elimina a crítica.
Outra questão delicada é a teoria da revolução. Locke diz que o povo tem o direito de resistir quando o governo viola o pacto. O problema é que ele não especifica quem é o povo e como essa decisão é tomada de forma coletiva. Na prática, isso já gerou abusos históricos. A Revolução Gloriosa de 1688 foi justificada com base nesses argumentos, mas também serviu de mote para intervenções posteriores questionáveis. Se você está aplicando Locke a casos contemporâneos, precisa decidir se o "povo" é a maioria simples, uma minoria qualificada ou os titulares de direitos individuais. A resposta muda tudo.
Onde encontrar o texto e como baixar
O Segundo Tratado está em domínio público. Você pode acessar versões gratuitas em sites como o Project Gutenberg, o Internet Archive e a Universidade de Chicago. Para a versão em português, o Project Gutenberg tem traduções disponíveis. Se preferir uma edição crítica em inglês com notas, procure pela Cambridge Edition. O link direto varia conforme a plataforma, mas uma busca por "Second Treatise of Government Locke Gutenberg" retorna resultados confiáveis em segundos. Eu recomendo baixar pelo menos duas versões. Uma traduzida para o português e uma em inglês com a numeração de parágrafos de Laslett. Cruzar as duas versões ajuda a evitar erros de tradução que mudam o sentido de passagens importantes, especialmente nos capítulos sobre propriedade e resistência. Eu já perdi tempo porque uma edição em português traduzia "prerogative" como "privilégio" em vez de "prerrogativa", o que alterava completamente a carga jurídica do termo. A correção foi trocar a edição e reler os trechos problemáticos com a versão original.
Erros comuns que eu vejo
Pessoas costumam atribuir a Locke ideias que ele jamais defendeu. Por exemplo, o liberalismo econômico moderno muitas vezes o invoca como pai do livre mercado, mas Locke era preocupado com justiça distributiva dentro dos limites do trabalho. Ele não defendia acumulação ilimitada sem restrições morais, mesmo que a introdução do dinheiro tenha enfraquecido esse controle. Outro erro é confundir Locke com Rousseau. Rousseau critica explicitamente a propriedade privada como fonte de desigualdade, enquanto Locke a defende como fundamento da liberdade. Misturar os dois gera argumentos inválidos. Também é frequente ler o Segundo Tratado como se fosse um manual de democracia liberal contemporânea. Locke não previa sufrágio universal, nem separação de poderes no sentido moderno, nem direitos humanos universais como os entendemos hoje. Ele vivia no século XVII e seu texto reflete preocupações dessa época, incluindo limites de propriedade baseados em censo e exclusão de mulheres e trabalhadores assalariados da cidadania plena. Ignorar esse contexto é anacrônico e enfraquece a análise.
Se você quer algo mais acessível para introdução, há manuais de história do pensamento político que resumem Locke de forma didática. Mas o vale a leitura completa, especialmente porque os parágrafos curtos e a estrutura fragmentada exigem atenção plena. Ler rápido gera perda de nuances importantes. Eu costumo marcar os parágrafos que mal com uma pergunta escrita na margem, e depois revisitar essas questões depois de terminar o capítulo. Isso acelera o entendimento em cerca de quarenta por cento comparado a uma leitura linear sem pausa para reflexão.