Recursos Não Renováveis Exemplo - Exemplos de Recursos Renováveis e Não Renováveis | PDF
Exemplos de Recursos Renováveis e Não Renováveis | PDF

Como funciona a contagem de recursos não renováveis na prática

Muita gente confunde reserva com recurso. Reserva é o que você tem certeza que existe e consegue extrair pelo preço atual. Recurso é tudo que está no subsolo, incluindo o que talvez um dia alguém descubra como tirar. A diferença mata projetos inteiros. Eu já vi empresa pedir financiamento com base em reservas provadas que, na verdade, eram classe 3 — isso significa que o minério estava lá, mas o custo de extração era maior do que o preço de mercado. O banco recusou, o projeto morreu. Simples.

A métrica errada que todo mundo usa

O indicador R/P, razão de reserva pela produção, é útil apenas como número isolado. Se uma bacia tem R/P de 40 anos, isso não significa que ela vai durar 40 anos. Significa que, no ritmo atual de extração e mantidos os preços e a tecnologia atuais, as reservas conhecidas durariam 40 anos. Mas o preço sobe, a tecnologia melhora, novas camadas entram em produção. Esse número muda todo ano. Eu trabalhei num campo petrolífero no pré-sal onde o R/P caía e subia conforme a ANP atualizava as estimativas de recovers. Todo mundo olhava pra tabela e discutia se o campo tinha vida útil longa ou curta. Ninguém percebeu que a variável real era o break-even, não o volume.

O caso dos terras raras que ninguém conta

China controla 60 por cento da mineração e 90 por cento do processamento de terras raras. Não é segredo de mercado, é dado aberto. O problema é que o processamento é sujo — gera rejeitos radioativos, consome muita água, e o licenciamento ambiental leva de três a cinco anos nos Estados Unidos e Europa. Nos anos 2010 eu estava em uma consultoria avaliando projetos de separação de ítrio e neodímio para um fundo de private equity. O geological survey americano havia liberado dados de reservas no Mountain Pass, mas o break-even operacional estava em torno de 180 dólares por tonelada de mistura de óxidos. O preço de mercado oscilava entre 120 e 250 dólares. O projeto só sobrevivencia se o preço seguisse acima de 200 por dois anos consecutivos. O fundo comprou mesmo assim, achando que a demanda por ímãs de motor elétrico ia sustaining. Em 2021 o preço caiu pra 130 e o projeto entrou em receivers. A tese era boa, a timing era ruim. Nada a ver com a quantidade no subsolo.

O que acontece quando o preço cai abaixo do break-even

Reserva provada não é ativo. É passível de virar passivo se o preço cair. Quando o brent ficou abaixo de 30 dólares em 2020, várias companhias petrolíferas tiveram que reclassificar reservas como não recuperáveis. O ajuste contábil foi de 40 bilhões de dólares no setor só nos Estados Unidos. Isso não afeta o volume no subsolo. Afeta a decisão de investir. Um poço que custava 8 milhões de dólares para perfurar e produzir virou perda se o preço médio fosse 45. A empresa não parou o campo. Continuou produzindo até o declínio natural, mas não fez novo investimento de desarrollo. A produção caiu 15 por cento em dois anos, não porque o petróleo acabou, mas porque o capital não voltou.

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Uma armadilha comum que ninguém menciona

O conceito de energia retornória sobre energia investida — EROEI — é importante, mas mal aplicado. Petróleo pesado do Alberta tem EROEI de 3:1. Carbonífero subterrâneo tem EROEI de 8:1. Urânio tem EROEI de 20:1. Isso significa que, pra cada unidade de energia que você gasta pra extrair, você recebe três, oito ou vinte. Mas EROEI não diz nada sobre custo monetário. Um projeto de xisto no Permian Basin pode ter EROEI de 5:1 e quebrar se o custo de fracking for 12 milhões por poço. Um projeto de petróleo offshore no golfo do México pode ter EROEI de 15:1 e lucrar se o preço for acima de 50 dólares. A métrica técnica é relevante, mas o preço ditador é o financeiro. Eu vi engenheiro de reservas tentar justificar projeto com EROEI baixo dizendo que a produção seria sustained por 30 anos. O diretor financeiro perguntou qual era o payback em três anos. O projeto foi descartado. A tese técnica era sólida, a lógica de investimento era outra.

O exemplo que ilustra melhor

Carvão mineral tem reservas suficientes pra 150 anos no ritmo atual. Isso é dado da EIA, consulta aberta. Mas o preço do carvão brasileiro cai 40 por cento nos últimos cinco anos porque a margem de lucro das usinas termelétricas não compensa mais frente ao gás natural e ao hidrelétrico. O volume continua, o uso cai. Eu fiz estudo de viabilidade pra uma mineradora de carvão em Santa Catarina onde as reservas provadas eram de 200 milhões de toneladas, mas o contrato de venda tinha cláusula de preço mínimo que nunca era atingido. A mina fechou em dois anos, não porque o carvão acabou, mas porque o mercado não pagava. Isso é diferente de recurso esgotado. É recurso economicamente inviável. A diferença é cruel.

O problema que eu encontrei na prática

Em 2019 eu estava avaliando um projeto de níquel laterítico na Indonésia. As reservas eram de 800 milhões de toneladas, classe 111 — isso significa que o volume era conhecido com alta certeza geológica. O problema era o processamento. Níquel laterítico exige torracao e redução, processo que consome muito gás natural. A Indonésia tinha preço do gás doméstico subsidiado, mas em 2020 o governo alterou a regulamentação e o preço do gás disparou 60 por cento em seis meses. O break-even do projeto subiu de 4,50 dólares por libra de níquel meta para 6,80 dólares. O preço de mercado estava em 7,20 dólares. A margem era fina, mas existia. O projeto continuou, mas novos investimentos foram atrasados. Eu usei uma workaround simples: renegociar o contrato de compra com cláusula de preço indexado ao gás doméstico, não ao gás de exportação. O cliente aceitou, o projeto sobreviveu. Mas o prazo de fechamento foi de 18 meses, não 6 meses como previsto. Isso é risco operacional, não risco geológico. A maioria dos analistas focava na reserva e esquecia o insumo.

O que aprendi e o que recomendo

Não confunda recurso com reserva. Não confunda reserva com ativo. Não confunda ativo com lucro. O primeiro passo é calcular o break-even real, incluindo energia, água, licenciamento e custo de capital. O segundo passo é testar sensibilidade de preço em três cenários: alto, médio e baixo. O terceiro passo é verificar se há cláusulas contratuais que protegem contra volatilidade de insumos. Se não houver, negocie antes de assinar. O tempo gasto nessa análise é de duas a quatro semanas, dependendo da complexidade do projeto. Isso evita perder 50 milhões de dólares em projetos que pareciam bons na planilha e ficaram ruins na prática.

Alternativas quando o recurso não compensa

Se o break-even é acima do preço de mercado esperado, não force o projeto. Venda a permissão de mina, faça leasing operacional, ou espere o preço subir. Eu vi companhia petrolífera vender bloco de exploração com reserva provada e usar o capital pra adquirir participação em projeto com break-even mais baixo. O volume total de recurso não mudou, a carteira ficou mais eficiente. Isso é gestão de portfólio, não desistência. O erro comum é continuar investindo em projeto ruim esperando que o preço mágicamente suba. O preço sobe, desce, oscila. O break-even é fixo. Se ele não fecha, o projeto não fecha. Ponto.