Concordância verbal no português: o que realmente acontece
O assunto de questões sobre concordância verbal costuma aparecer em provas e na vida profissional de quem trabalha com textos. A regra básica é simples: o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito. Mas quando a estrutura da frase se complica, as coisas mudam.
Os casos que mais geram dúvidas
Um dos problemas mais comuns envolve expressões como "um de nós", "a maioria dos", ou "parte dos". Quando eu estava revisando um documento institucional, encontrei uma frase como "A maioria dos colaboradores participou das atividades". Alguns corretores marcaram como erro, sugerindo "participaram". Ocorre que a norma culta permite ambas as formas, mas com matizes diferentes. Quando o termo no singular predomina semanticamente, o verbo pode ficar no singular. Quando o plural é mais relevante, o verbo vai para o plural. Não existe erro absoluto nesses casos, mas existem preferências de registro.
Sujeito composto antes do verbo
Quando o sujeito composto vem antes do verbo, a concordância costuma ser fácil: "O pai e a mãe chegaram". Mas quando a ordem inversa aparece, muitas pessoas travam. "Chegaram o pai e a mãe" ou "Chegou o pai e a mãe"? Ambas são aceitas, mas a primeira é mais comum na escrita formal. Eu já vi corretores exigirem o plural em todas as situações, mesmo quando o primeiro elemento do sujeito composto é mais significativo. Isso gera Frases estranhas como "Chegou o médico e os familiares" quando o foco está no médico. O ideal é analisar o peso semântico de cada elemento.
Há verbs que nunca concordam
Existem estruturas onde a concordância é fixa e não depende do sujeito. Verbos como "basta", "baste", "importa" e "convém" têm comportamento particular. "Basta informações" ou "Bastam informações"? A primeira forma é mais usada, mas a segunda também é correta. O problema é que muitos manuais prescrevem uma única forma, criando regras artificiais. Na prática, o uso varia conforme a região e o registro. Em Portugal, por exemplo, a concordância com "basta" tende a ser mais flexível do que no Brasil.
O caso do "eu" como sujeito oculto
Quando o sujeito é "eu" e vem oculto, o verbo fica na primeira pessoa do singular. "Fiz isso ontem" ou "Fizeram isso ontem"? A primeira forma é correta quando o sujeito é "eu". Mas em certas construções, como "falo com eles", o sujeito pode ser confundido com "ele" ou "eles". Um erro comum é usar a terceira pessoa do plural quando o sujeito é claramente "eu". "Eu faço" virando "eles fazem" em documentos informais. Isso acontece especialmente quando o falante está acelerado ou pouco atento à estrutura da frase.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Locução verbal e concordância
Em locuções verbais, apenas o verbo auxiliar concorda com o sujeito. "Eles têm que chegar" ou "Ele tem que chegar"? O auxiliar "ter" concorda com o sujeito, enquanto o verbo principal permanece no infinitivo. Essa regra é simples, mas muitas pessoas cometem erros ao inverter a ordem dos elementos. Quando uso "dever" ou "precisar" em locuções, já vi pessoas concordarem o verbo principal em vez do auxiliar. "Eles devem chegar cedo" sendo transformado em "Eles deve chegar cedo" por confusão com a estrutura. O correto é manter o auxiliar na terceira pessoa do plural e o principal no infinitivo.
A concordância com "quem"
Quando "quem" é pronome relativo, o verbo pode concordar com o antecedente ou ficar na terceira pessoa do singular. "Fui eu quem fez" ou "Fui eu quem fiz"? Ambas são aceitas, mas a primeira é mais comum na fala coloquial. Em contextos formais, a concordância com o antecedente é preferível. "Fui eu quem fez" soa mais natural do que "Fui eu quem fiz". Já vi testes exigirem a segunda forma como correta, mas isso reflete uma visão prescritiva que não corresponde ao uso real.
Verbos impessoais
Verbos impessoais não têm sujeito e ficam na terceira pessoa do singular. "Há pessoas que não entendem" ou "Hão pessoas que não entendem"? O verbo "haver" no sentido de "existir" é impessoal. "Há" é a única forma correta nesse caso. Já vi corretores marcarem "hão" como erro, quando na verdade "hão" existe como forma do verbo "ha ver" (archaic). Para "existir", apenas "há" é aceito. Essa confusão é comum porque "hão" aparece em outras conjugações, como "eles hão de fazer".
Fatores que complicam a concordância
Alguns fatores tornam a concordância mais difícil. Ordem inversa dos elementos, expressões de quantidade, e estruturas complexo-as podem levar a erros. Quando o sujeito é longo e separado do verbo por intervenções, é fácil perder a referência. Em traduções automáticas, a concordância costuma falhar especialmente com estruturas invertidas. Um texto como "Chegaram ontem os convidados" sendo transformado em "Chegou ontem os convidados" por confusão com o número do sujeito. Isso acontece porque o modelo assume que o primeiro substantivo é o sujeito.
Quando a concordância falha completamente
Existem situações onde a concordância padrão não se aplica. Expressões como "mais de um", "menos de dois", e "cerca de" têm comportamento particular. "Mais de um candidato passou" ou "Mais de um candidato passaram"? A primeira forma é correta porque o núcleo é "um". Já tentei aplicar a regra do núcleo em "mais de mil pessoas", obtendo "mais de mil pessoa passou". O resultado foi absurdo porque a expressão numérica plural exige o verbo no plural. "Mais de mil pessoas passaram" é a forma adequada.
Alternativas quando a concordância é ambígua
Quando a concordância fica ambígua, reescrever a frase é a solução mais segura. Em vez de "A maioria dos alunos chegou tarde", usar "A maioria dos alunos chegou tarde" ou "A maioria dos alunos chegou tarde". Ambas são corretas, mas a primeira é mais clara. Se você precisa de uma ferramenta para verificar concordância, programas como o LanguageTool ou o Gramatron podem ajudar. Eles identificam erros comuns, mas não capturam todas as nuances do português. O uso humano ainda é insubstituível para casos borderline.