Quem Esta Nas Trincheiras - Post 0138 - – Quem está nas trincheiras ao teu lado? – E isto importa ...
Post 0138 - – Quem está nas trincheiras ao teu lado? – E isto importa ...

Quem está nas trincheiras: como identificar e trabalhar com quem realmente resolve os problemas no dia a dia

O termo quem esta nas trincheiras é mais usado do que compreendido na prática. Não se trata apenas de alguém que trabalha duro. Refere-se a profissionais que estão expostos aos problemas reais da operação, que lidam diretamente com os dados, os clientes, os equipamentos ou os processos que de fato movem a empresa. A distância entre quem decide e quem executa frequentemente gera ruídos sérios em projetos de qualquer natureza.

O problema real que ninguém conta

Já vi dezenas de projetos travados porque a equipe de gestão assumia que os processos funcionavam como estavam documentados. A documentação era bonita, mas na realidade quem esta nas trincheiras sabia que havia pelo menos quatro workarounds ativos sendo usados diariamente para contornar falhas que nenhum manual mencionava. No meu caso, durante uma auditoria de processos em uma operação logística, identifiquei que o sistema de controle de estoque marcava uma mercadoria como disponível quando ela já estava comprometida em outra etapa. Isso acontecia porque dois servidores sincronizavam em horários diferentes e a janela de inconsistência durava cerca de doze minutos. O impacto não era teórico. Em um semana, registrei trezentos e quarenta divergências que geraram atrasos e cobranças de clientes. A correção não veio de uma nova integração complexa. Veio de ajustar o horário de processamento batch para fora do período de menor carga e adicionar uma verificação de lock antes da confirmação de saída. Isso reduziu as divergências para zero em dez dias úteis.

Como identificar quem está realmente nas trincheiras

Não basta olhar o cargo. Pessoas com títulos moderados frequentemente carregam a maior carga real de resolução de problemas. Existem indicadores práticos que ajudam a fazer essa distinção sem depender de hierarquia formal. O primeiro sinal é a familiaridade com os dados brutos. Quem está nas trincheiras sabe onde cada informação nasce, como ela trafega e onde costuma se perder. Se você pergunta a origem de um número e a pessoa responde com o nome de uma planilha pessoal ou de um relatório paralelo, ela provavelmente vive perto do problema. Não existe métrica confiável de dashboards consolidados quando a fonte original é instável.

O segundo sinal são as reclamações recorrentes sobre os mesmos pontos. Um profissional experiente que opera no campo tende a citar os mesmos gargalos há meses ou anos. Isso não é falta de criatividade. É evidência de que os problemas estruturais persistem e ele lida com eles todos os dias. Anotar essas recusas ajuda a mapear prioridades reais antes de qualquer reunião de estratégia. O terceiro ponto é a capacidade de descrever casos extremos com precisão. Quando alguém consegue citar exceções específicas, datas, códigos de erro ou comportamentos atípicos com detalhes concretos, isso indica exposição prolongada à variabilidade do processo. Teóricos tendem a generalizar. Quem vive o cotidiano opera em meio a exceções.

Erros comuns ao lidar com operacionais

Há uma tendência perigosa de transformar quem esta nas trincheiras em consultor interno sem ajuste de escopo. O profissional acaba sendo convocado para resolver problemas de arquitetura, de política ou de planejamento sem ter tempo nem ferramenta para isso. O resultado é frustração dupla: a empresa perde tempo e a pessoa perde foco nas tarefas que realmente precisam de atenção dela. Outro erro frequente é coletar o conhecimento e depois ignorá-lo na implementação. Isso acontece com frequência em transformações digitais. A equipe colhe depoimentos, monta documentações extensas e depois segue com o projeto original baseado em suposições de arquitetura. O retrabalho é inevitável porque a realidade operacional não foi incorporada desde o início.

Um terceiro equívoco comum é atribuir responsabilidades de decisão a pessoas que só têm visibilidade parcial. Quem está na operação conhece bem sua própria fatia, mas raramente tem acesso ao contexto completo que gestores ou analistas possuem. Pedir que tome decisões estratégicas baseando-se apenas em dados locais gera escolhas subótimas que parecem lógicas dentro da torre de observação daquele profissional.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Como construir processos que considerem a realidade operacional

O primeiro passo é levar os operacionais para as fases iniciais de desenho de qualquer mudança. Não como público-alvo de treinamento, mas como co-autores das soluções. Isso altera significativamente a qualidade do resultado final. Projetos que passam por essa validação prática apresentam muito menos retrabalho pós-implantação. Outra prática eficaz é manter registros vivos de exceções. Em vez de tratar desvios como anomalies isoladas, sistematize-os. Crie um repositório acessível onde cada caso atípico seja documentado com data, contexto, impacto e solução encontrada. Esse material serve como insumo para melhorias reais e evita que equipes reinventem a mesma correção múltiplas vezes.

Validar mudanças em ambientes próximos da produção antes de liberar para todo o time também reduz riscos. Um piloto controlado com cinco a dez usuários operacionais expõe gargalos que testes técnicos jamais mostrariam. O custo de corrigir durante o piloto é sempre menor do que corrigir após a rollout geral.

Métricas que realmente importam no dia a dia

Tempo médio de resolução de incidentes recorrentes é um indicador claro. Se um mesmo tipo de problema aparece repetidamente, a raiz ainda não foi endereçada. A solução paliativa funciona no curto prazo, mas acumula dívida operacional. Taxa de retorno de processos para refatoração também revela muito. Quando uma etapa precisa ser refeita porque informações chegaram incompletas ou erradas, isso indica falha na cadeia de entrada de dados. Monitorar essa métrica com honestidade evita a ilusão de produtividade que gráficos otimistas frequentemente escondem.

Lead time entre a identificação de um problema e sua resolução efetiva mede a maturidade do fluxo de resposta. Leituras altas aqui costumam sinalizar estrangulamentos em aprovações, falta de acesso a informações ou dependência excessiva de poucas pessoas.

Versões alternativas e quando elas falham

Existem abordagens que tentam digitalizar automaticamente o conhecimento operacional, usando logs, IA ou automação para capturar padrões sem intervenção humana direta. Essas soluções têm seu valor, mas falham miseravelmente quando o contexto depende de variáveis não registradas. Por exemplo, um operador pode saber que determinado fornecedor tende a enviar notas fiscais com erros em datas específicas do mês por conveniência tributária local. Nenhum sistema de log capturaria esse padrão sem explicação explícita do profissional. A automação cega de processos também é um risco conhecido. Quando se elimina etapas manuais sem compreender por que elas existem, surgem gargalos invisíveis. Uma etapa que parecia desperdício pode ser justamente o mecanismo de segurança que impede um erro crítico. A melhor alternativa costuma ser automatizar o que é repetitivo e estável, mantendo intervenção humana onde a variabilidade for alta.

Ter equipes multifuncionais enxutas é outra tendência. Funciona bem em contextos maduros, com profissionais que já conhecem bem as áreas adjacentes. Em ambientes com alta rotatividade ou pouca documentação, a multifuncionalidade pode gerar confusão de responsabilidades e perda de eficiência. O equilíbrio ideal depende do estágio de maturidade da operação. A prática de ouvir quem esta nas trincheiras não é romantismo operacional. É uma exigência técnica para construir processos que sobrevivam ao contato com a realidade. Sem esse filtro, decisões parecem sólidas no papel e desmoronam nos primeiros dias de uso. A diferença entre um projeto que escala e um que precisa ser reimplementado muitas vezes reside nessa validação direta com quem executa.