Quem Escreveu O Alcorao - Alcorão: quem escreveu e o que prega o livro sagrado do Islã - HiperCultura
Alcorão: quem escreveu e o que prega o livro sagrado do Islã - HiperCultura

O processo de compilação do Alcorão é mais complicado do que a versão simplificada ensina

Quando você pergunta quem escreveu o alcorao, a resposta curta é: ninguém escreveu exatamente. O texto é considerado pelos muçulmanos como a palavra literal de Deus, revelada a Maomé ao longo de aproximadamente 23 anos, de 610 a 632 d.C. A questão é que a materialização desse texto em um único volume levou décadas e envolveu decisões políticas tão quanto religiosas. Os companheiros de Maomé memorizavam os versículos e os registravam em materiais disponíveis — ossos, pedras, folhas de palmeira, peles. Havia dezenas de escribas, mas nenhum controle centralizado. Cada recitante podia ter ligeiras variações na leitura, o que não era problema inicialmente, mas virou quando o islã se expandiu rapidamente para territórios com populações não árabes.

Quem escreveu o alcorao: a compilação oficial

Após a morte de Maomé, o primeiro califa, Abu Bakr, ordenou que Zayd ibn Thabit reunisse todos os trechos espalhados. Zayd era conhecido por ter registrado a revelação diretamente do profeta. Ele passou de porta em porta, coletando testemunhos de quem havia memorizado ou anotado partes do texto. O resultado foi um manuscrito que ficou sob custódia de Abu Bakr, depois de Umar e, finalmente, de Hafsa, filha de Abu Bakr e viúva de Maomé. Foi durante o califado de Uthman ibn Affan, por volta de 650 d.C., que a padronização real aconteceu. Diferentes regiões do império islâmico estavam usando versões com pequenas variações na pronúncia e na ordem das suratas. Uthman formou um comitê liderado por Zayd e copiadores de Meca para criar um texto padrão. As cópias foram enviadas para as principais cidades do império — Medina, Meca, Basra, Kufa, Damasco — e as versões divergentes foram queimadas ou destruídas. Esse evento é conhecido como o "código uzmano".

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Aqui está algo que poucos mencionam: mesmo com a destruição das cópias alternativas, existem evidências históricas de que variantes de leitura (qira'at) continuaram a circular. Os sete cânoneis aceitos pelo Islã sunita são testemunho disso. Eles diferem em vogais, pronúncia e, ocasionalmente, em palavras, mas não no essencial da mensagem teológica. O trabalho de Zayd e da equipe de Uthman envolveu um problema prático que muitos subestimam: como verificar a autenticidade de um verso se o escriba que o transcrevia estava longe do local de origem da tradição? A solução foi o sistema de cadeia de transmissão (isnad), onde cada trecho precisava ser atestado por múltiplas fontes confiáveis. Isso não é exclusivo do Islã — o método aparece também na ciência hadith —, mas no caso do Alcorão a fiscalização foi muito mais rigorosa porque o risco era a corrupção de um texto considerado palavra divina.

Existe um detalhe técnico importante que os manuais geralmente omitem. A escrita árabe clássica do século VII não possuía pontos diacríticos para diferenciar consoantes visualmente similares, como o ba e o ta. Isso significa que uma mesma sequência de letras podia ser lida de maneiras diferentes. A padronização vocálica só veio séculos depois, com trabalhos de gramáticos como Khalil ibn Ahmad e Abu al-Aswad al-Du'ali. Quando você vê um manuscrito corânico antigo, como o de Samarcanda ou o de Topkapi, estão basicamente linhas de consoais sem as marcações de pronúncia. A leitura correta depende da tradição oral transmitida de professor para aluno. Uma ressalva honesta: a narrativa da destruição completa das versões divergentes sob Uthman é contestada por alguns estudiosos modernos. O manuscrito de Sanaá, descoberto no Iêmen na década de 1970, revelou camadas de escrita onde um texto inferior (palimpsesto) mostra variação em relação ao texto uzmano padrão. Isso indica que o processo de padronização pode ter sido menos absoluto do que a tradição islâmica relata. Não significa que o Alcorão atual seja "diferente" de forma significativa, mas mostra que a uniformização levou tempo e não foi um evento único e completo.

Se você quer consultar as fontes primárias, os trabalhos de Harald Motzki e G.R. Hawting oferecem análises acadêmicas sérias, enquanto o "Mus'haf de Medinah", publicado pela Rei Fahd Complex na Arábia Saudita, é a edição padrão mais diffundida hoje em dia. Para variantes de leitura, o Tafsir de Ibn Kathir e os trabalhos sobre qira'at de Ibn Jahyyan são referências tradicionais respectáveis.