Quem Criou O Portugues - Quem criou a língua portuguesa? Entenda a origem do nosso idioma ...
Quem criou a língua portuguesa? Entenda a origem do nosso idioma ...

A origem do português não é uma pessoa, é um processo

Muita gente acredita que o português foi "inventado" por algum rei ou escritor específico. Isso é errado e não leva a lugar nenhum. O que aconteceu foi uma evolução gradual do latim falado na região que hoje abrange o noroeste de Portugal e o norte de Espanha, algo que levou séculos para se estabilizar como língua distinta. O latim vulgar chegou à Península Ibérica com as legiões romanas, por volta do século III a.C. A partir daí, cada região desenvolveu suas próprias variações. No território galego-português, essas variações formaram o que chamamos de galaico-português. Foi dessa mistura que surgiram os primeiros documentos escritos em português medieval, ainda no século XII.

Quem criou o português: uma pergunta mal formulada

A pergunta quem criou o portugues já nasce com um problema. Ninguém criou o português. Línguas não têm autor. Elas nascem de comunidades inteiras falando, negociando, migrando e corrigindo umas às outras durante gerações. Se você quer um marco histórico, o primeiro documento escrito em português que se tem notícia é a Cantiga da Garvaia, de 1211, atribuída a João Zorro. Mas isso não significa que ele "criou" o idioma. Significa apenas que alguém pôs no papel o que já se falava há décadas. O que existe são momentos de padronização. Afonso III promulgou, em 1290, o decreto que reconheceu o português como língua oficial, substituindo o latim nos atos oficiais. Esse é um ponto importante, mas é apenas um marco burocrático, não um ato de criação.

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Quando eu comecei a estudar fonologia histórica do português, minha primeira ideia era traçar linhas retas: tal som veio de tal fonte. Na prática, é muito mais bagunçado. Encontrei um caso concreto em minhas pesquisas sobre a palatalização dos grupos CL- e PL- iniciais. A regra geral diz que CL- vira ch (como em chuva < Latim pluvia) e PL- vira também ch (como em chave < Latim clavis). Até aí, simples. Mas quando fui analisar textos medievais do século XIII, encontrei formas como planto que persistiram lado a lado com chanto na mesma região. A variação não era apenas geográfica; era social e temporal. O que a gramática tradicional apresenta como uma transformação limpa era, na realidade, um processo conflituoso que durou cerca de três séculos, com regiões diferentes avançando em ritmos completamente distintos. O que essa experiência me ensinou é que qualquer tentativa de "atribuir" o português a uma data ou pessoa é uma simplificação perigosa. O português medieval — o que conhecemos como galaico-português — já era uma língua reconhecida, com sua própria poesia, sua prosa e suas normas, antes mesmo de o galego se separar e o português se voltar para sul.

Outro ponto que costuma passar despercebido é a influência moura. O árabe deixou marcas profundas no vocabulário, mas também em estruturas fonéticas. Palavras como azulejo, albarrada e aljube não são empréstimos cosméticos. Elas representam camadas de contato linguístico que moldaram a língua real, não a língua de livro. Se você está estudando a história do português, esqueça a ideia de um criador único. Foque nos processos: a romanização, a reconquista, a formação do condado portucalense, a expansão marítima. Cada um desses eventos empurrou a língua em uma direção diferente. A padronização ortográfica só começou de fato com os manuais do século XVIII, e o Acordo Ortográfico de 1990 é apenas o último capítulo de um processo que ainda não acabou.

A língua continua viva. Muda todo dia. Não há ponto final nessa história.