A pergunta que todo mundo faz e poucos respondem direito
A Inquisição não foi uma coisa só. É o erro mais comum que eu vejo em fóruns e em perguntas de vestibular. As pessoas falam "a Inquisição" como se fosse um único tribunal funcionando num lugar só, do início ao fim. Não foi. Foram múltiplas instituições, em diferentes países, com durações totalmente diferentes. O problema é que a historiografia popular nivelou tudo por baixo. Quando alguém pergunta quanto tempo durou a inquisição, a resposta depende inteiramente de qual inquisição você está falando. E a maioria das pessoas, sem saber, está pensando na Inquisição Espanhola, que foi a que mais tempo durou e a mais documentada.
Quanto tempo durou a inquisição, exatamente?
Vamos direto aos números, porque é isso que interessa. Inquisição Medieval — nasceu por volta de 1184, com o papa Gregório IX, e funcionou basicamente até o século XIV. Cerca de 150 a 200 anos. Era o braço da Igreja Católica para lidar com hereges, especialmente cataros e valdenses no sul da França e norte da Itália. Acabou sendo substituída por estruturas mais locais e pelos tribunais reais.
Inquisição Espanhola — esta é a famosa. Criada pelos Reis Católicos em 1478, com bula papal de Sixto IV. Funcionou até 1834, quando foi extinta por decreto de Fernando VII. São 356 anos. Dura quase três séculos e meio. Isso é mais longo que a maior parte dos reinos europeus que existiram no mesmo período. Inquisição Portuguesa — implantada em 1536, também por bula papal. Durou até 1821, quando foi extinta pela Corte portuguesa sob pressão das ideias iluministas e da abertura comercial com a Inglaterra. 285 anos.
Inquisição Romana (ou Sagrada Congregação do Santo Ofício) — fundada em 1542 pelo papa Paulo III. Tecnicamente ainda existe, embora tenha sido renomeada para "Congregação para a Doutrina da Fé" em 1965 e tenha perdido completamente seu caráter judicial inquisitorial. Como instituição de perseguição ativa, funcionou até o final do século XVIII na Itália. O que as pessoas geralmente querem saber é sobre a espanhola. E a resposta é pouco mais de três séculos e meio. É um período tão vasto que é praticamente impossível tratar como um bloco homogêneo. O que aconteceu em Granada em 1490 não tinha nada a ver com o que aconteceu em Madrid em 1700.
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A armadilha da generalização
Eu já vi dezenas de vezes alguém postar que "a Inquisição durou 500 anos" ou "foi só no século XVI". Ambas as respostas estão erradas, mas por motivos diferentes. A primeira confunde a timeline inteira com todas as ramificações juntinhas. A segunda reduz tudo ao período de maior visibilidade — o auge da caça aos cristãos-novos — e ignora que o tribunal continuou funcionando muito depois disso, apenas com um ritmo bem mais baixo. Um detalhe que quase ninguém menciona: a Inquisição Espanhola teve picos de atividade e períodos de letargia profunda. Nos primeiros 20 anos, o número de processos era absurdo. Depois, nos séculos XVII e XVIII, ela operava mais como um mecanismo de controle social e vigilância do que como uma máquina de fogueiras. A maioria dos autos-de-fé tardios eram cerimônias simbólicas, com penas leves — penitências, exílios, multas. A fama de terror constante é mais lendária do que real para a maior parte do período.
Também vale notar que os número de executions variam enormemente entre fontes. A estimativa mais citada hoje é de cerca de 3.000 execuções reais em 356 anos, espalhadas por todo o império espanhol. Números antigos falavam em dezenas de milhares, mas essas cifras vêm de propaganda Protestante da época — a Lenda Negra — e foram amplamente questionadas pela historiografia moderna a partir dos anos 1980, com o acesso aos arquivos do Tribunal.
O que ninguém te conta sobre o funcionamento
A Inquisição não era um monstro centralizado mandando ordens de Roma. Cada tribunal tinha autonomia considerável. Os inquisidores eram indicados localmente e respondiam a um Conselho Supremo em Madrid, mas na prática operavam com margem própria. Um inquisidor em Sevilha podia ser muito mais rigoroso que um em Valência, e as diferenças regionais eram significativas. O processo em si era, estranhamente, um dos mais formalizados do direito da época. Havia prazos, direitos de defesa, registros escritos. O acusado sabia quem o acusava, podia ter advogado (embora limitado), e havia recurso ao Conselho Supremo. Isso não significa que era justo no sentido moderno — a pressão social e o sigilo das denúncias criavam um ambiente perverso — mas significa que não era o caos jurídico que imaginam.
Uma coisa que encontro constantemente em pesquisas é a confusão entre Inquisição e a perseguição geral a judeus e mouros. A Inquisição Espanhola nasceu especificamente para fiscalizar a conversão dos judeus, mas os mouros já tinham sido expulsos em 1492. O tribunal lidava basicamente com cristãos-novos suspeitos de continuarem praticando judaísmo em secreto. Chamavam-se "judaizantes". A maioria dos processos não terminava em morte. Terminava em confissão pública, penitência, e multa. Ou simplesmente em absolvede, se não houvesse provas suficientes. Outro ponto: a Inquisição Portuguesa operava de forma bem diferente da espanhola. Em Portugal, o tribunal estava mais diretamente sob controle da coroa desde o início. Em Espanha, os inquisidores tinham um poder autônomo que às vezes conflituava com os reis. Isso fez com que a Inquisição Portuguesa fosse, em média, mais bruta em certos períodos, mas com menos processos no total, porque o aparato era menor.
Por que isso importa hoje
Porque a maneira como as pessoas pesquisam sobre Inquisição ainda carrega séculos de preconceito. Fontes primárias em espanhol e português são escassas para o público geral, e a maior parte do material disponível em português é traduzido de fontes que reproduzem a Lenda Negra sem crítica. Quando eu preciso verificar dados concretos — por exemplo, o número exato de autos-de-fé em determinado ano — tenho que cruzar os arquivos do INQ (Inquisição Espanhola) na Hemeroteca Digital com os trabalho de Henry Kamen e Beatriz Levi, que são as referências mais confiáveis disponíveis. A conclusão mais honesta que dá para chegar é esta: a Inquisição, no sentido mais amplo do termo, durou entre 150 e 356 anos, dependendo de qual delas você considera. A mais longa, a Espanhola, teve 356 anos de existência oficial. A mais curta, a Medieval, cerca de 200. Todas desapareceram nos séculos XVIII ou XIX, vítimas do Iluminismo e dos Estados nacionais modernizadores. Nenhuma sobreviveu ao século XIX.