A maior pandemia da história humana não é o que a maioria das pessoas pensa
Muita gente assume automaticamente que a Peste Negra do século XIV foi o pior evento pandêmico já registrado, e em termos de proporção populacional talvez seja. Mas se olharmos para o número absoluto de mortes e para o alcance geográfico, a resposta muda de figura.
Qual foi a maior pandemia do mundo
A influenza espanhola de 1918, tecnicamente chamada de pandemia de gripe H1N1 de 1918, é amplamente considerada a maior pandemia em termos de volume de casos e mortes absolutas na história registrada. Estima-se que tenha infectado cerca de um terço da população mundial na época — aproximadamente 500 milhões de pessoas — e causado entre 50 e 100 milhões de mortes em menos de um ano. Para comparar, a Segunda Guerra Mundial custou cerca de 70 a 85 milhões de vidas no total, levando de 1939 a 1945. O que torna a gripe espanhola particularmente interessante, e contra-intuitiva, é o perfil de mortalidade. A maioria das pandemias mata mais idosos e muito jovens. A de 1918 fez o oposto: os adultos jovens entre 20 e 40 anos foram os mais vulneráveis. A hipótese mais aceita é que uma tempestade de citocinas — uma resposta imunológica excessiva do próprio corpo — estava matando pessoas que, biologicamente, deveriam ser as mais resistentes. Isso ainda é um ponto de estudo ativo em imunologia.
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Outro detalhe que poucas pessoas consideram: o nome "gripe espanhola" é um equívoco histórico. A Espanha não era o origem do vírus, nem foi particularmente mais afetada do que outros países. A razão pela qual o nome pegou é puramente geopolítica. Durante a Primeira Guerra Mundial, as nações combatentes — EUA, Alemanha, França, Reino Unido — censuravam notícias sobre casos de gripe para não desmoralizar a tropa e a população. A Espanha era neutra na guerra e não tinha essa censura, então seus jornais relatavam abertamente a crise. As pessoas simplesmente associaram a doença ao país que falava sobre ela. A Peste Negra, por sua vez, continuou a assolareuropa por séculos de forma recorrente. As estimativas de mortes variam enormemente — de 75 a 200 milhões em uma população mundial muito menor na época — o que representaria entre 30% e 60% da população europeia na altura. Em termos de impacto demográfico relativo, pode ser considerada mais devastadora. Mas em números absolutos e em rapidez de disseminação global, a gripe de 1918 leva vantagem.
Existe ainda a possibilidade de o Cólera ter produzido uma quantidade similar de mortes em períodos prolongados, com sete pandemias registradas desde 1817, mas isso se espalha por mais de um século e meio, então a comparação direta é problemática. O que eu Aprendi analisando dados epidemiológicos históricos é que a qualidade dos registros é tremendamente desigual. Dados brasileiros, africanos e asiáticos do período de 1918 são notoriamente incompletos. Muitas mortes foram registradas como "pneumonia" ou simplesmente não foram documentadas. As estimativas de 50 a 100 milhões já são reconstruções retrospectivas feitas por historiadores como John Barry e Jeffrey Taubenberger, usando modelos e fragmentos de dados disponíveis. Há margem de erro significativa aí.
Outro ponto negligenciado: a gripe espanhola teve três ondas distintas. A primeira, na primavera de 1918, era relativamente branda. A segunda, no outono, foi a mais mortífera. E a terceira, em 1919-1920, manteve mortalidade elevada. O padrão de três ondas com intensidade crescente no meio é algo que se repete em diversas pandemias subsequentes e serve como um aviso sobre a complacência entre surtos. Se a pergunta for estritamente sobre magnitude absoluta de mortes, a resposta permanece a gripe de 1918. Mas a Peste Negra ocupa um lugar importante na discussão quando se considera o impacto proporcional sobre populações muito menores da época e a duração multi-século do fenômeno.