Quais As Classes Gramaticais - Classes Gramaticais: o que são e quais são as classes - Significados
Classes Gramaticais: o que são e quais são as classes - Significados

Classes gramaticais em português: o básico que todo mundo já leu, mas nem sempre entende na prática

Vocês costumam me perguntar quais as classes gramaticais existem e como separá-las quando o texto começa a ficar confuso. A lista oficial tem dez. É pouco conteúdo, mas a forma como cada uma se comporta dentro de uma frase gera muita confusão, especialmente quando uma palavra muda de função dependendo do contexto.

quais as classes gramaticais

Substantivo, artigo, adjetivo, numeral, pronome, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição. Dez classes. As seis primeiras são chamadas de palavras variáveis porque flexionam em gênero, número ou pessoa. As quatro últimas são invariáveis — com exceção de alguns advérbios que aceitam grau, como "bem/mal", que viram "melhor/pior". Na prática, o problema não é decorar a lista. O problema é que palavras como "que", "se" e "de" vivem viajando entre classes. Eu passei meses corrigindo análise sintática de alunos e ainda hoje preciso verificar duas vezes antes de classificar o "que" em uma oração subordinada.

Vou entrar em detalhe em cada classe, mas vou misturar um pouco a ordem porque a maneira como vocês encontram dificuldade costuma seguir esse padrão: primeiro erram a identificação do pronome, depois travam com a preposição disfarçada, e por fim confundem advérbio com adjetivo. Então vamos começar pelo que mais causa confusão.

Pronomes: a classe mais traiçoeira

Pronome substitui ou accompany o substantivo. A divisão básica é pessoal, possessivo, demonstrativo, relativo e interrogativo. Mas o detalhe que as listas escolares ignoram é que o pronome relativo "que" pode ser tão genérico que você precisa reconstruir a oração para entender a quem ele se refere. Eu tive um caso recente em que um "que" aparecia junto com "cujo" na mesma frase complexa, e a ambiguidade gerava dois parses diferentes. A solução foi isolar o núcleo do substantivo antecedente e verificar a concordância do "cujo" com o termo subsequente. Se "cujo" não concorda, o "que" pertence a outra oração. Outro ponto que poucas pessoas lembram: o pronome "se" pode ser partícula apassivadora, índice de indeterminação do sujeito ou parte de um verbo pronominal. Dizer que "se" é sempre pronome é simplificação perigosa. A dica prática é testar a passiva. Se a frase funciona na voz passiva com "se", é partícula apassivadora. Se não funciona, é índice de indeterminação ou algo diferente.

Verbo: a espinha dorsal que segura tudo

Verbo é a classe que determina a estrutura da oração. Tempo, modo, pessoa, número, aspecto, voz. A lista de conjugações não é o desafio. O desafio é reconhecer quando um verbo está em forma nominal — infinitivo, gerúndio ou particípio — porque nesse momento ele deixa de funcionar como núcleo verbal e passa a ter comportamento a substantivo, adjetivo ou advérbio. Um exemplo comum de confusão: "A decisão de correr foi rápida." O "correr" aqui é infinitivo, mas funciona como substantivo dentro do sintagma nominal. Muitos analisam errado porque tratam o infinitivo sempre como verbo. Não é. Quando o infinitivo é regido por preposição ou funciona como sujeito, ele está em uso nominal.

Outro detalhe prático que aprendi no dia a dia: o particípio irregular. Palavras como "escrito", "feito", "dito" existem na forma regular também ("escrivado" não existe, mas "feitas" e "ditas" sim, e às vocês veem gente usando "fazido" em textos informais). Em análise formal, o particípio irregular é a norma. O regular aparece majoritariamente em linguagem técnica ou coloquial. Quando vocês estiverem fazendo análise sintática para prova ou trabalho acadêmico, usem a forma irregular. É o padrão aceito.

Preposição e conjunção: a fronteira que ninguém respeita

Preposição liga termos. Conjunção liga orações. A regra parece simples, mas a realidade é que há muitas locuções prepositivas e conjuntivas que atravessam essa linha. Expressões como "embora", "apesar de", "conforme", "segundo" geram dúvida constante. "Embora" é conjunção subordinativa concessiva. "Apesar de" é locução prepositiva que pode introduzir sintagma nominal ou oração. A diferença é fina, mas relevante na análise. Eu costumava errar isso até criar um teste rápido: se dá para substituir por "ainda que", é conjunção. Se não dá, provavelmente é preposição.

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Locuções prepositivas incluem "a despeito de", "gracas a", "perto de", "após", "mediante". Locuções conjuntivas incluem "para que", "sem que", "mal", "assim que", "contanto que". A lista é longa e decora mal. O útil é entender a função, não a memória.

Advérbio: a classe que modifica tudo exceto substantivos

Advérbio modifica verbo, adjetivo, outro advérbio ou a oração inteira. Não modifica substantivo. Essa última restrição é a mais importante e a mais ignorada. Quando vocês veem uma palavra posicionada antes de um substantivo e achando que é advérbio, parem. Provavelmente é um adjetivo ou um pronome. Advérbios de negação ("não", "jamais", "nunca"), de afirmação ("sim", "certamente"), de dúvida ("talvez", "provavelmente"), de lugar ("aqui", "ontem", "longe"), de tempo ("ainda", "já", "agora"), de intensidade ("muito", "pouco", "bastante") e de modo ("bem", "mal", "assim") formam o núcleo. O resto são subclasses que vocês raramente precisam separar em análises correntes.

Um problema real que encontrei: advérbios de modo derivados de adjetivos. "Bem" e "mal" são advérbios, mas também podem funcionar como adjetivos. "Ele está bem" — aqui "bem" é predicativo do sujeito, função adjetival. "Ele agiu bem" — aqui "bem" é advérbio de modo. A diferença está na relação com o verbo. Se o verbo é de ligação, a palavra seguinte é predicativo. Se é verbo ação, a palavra é advérbio. Esse teste resolve a maioria dos casos.

Artigo, adjetivo e numeral: classes que se confundem fácil

Artigo determina o substantivo de forma definida ou indefinida. "O", "a", "os", "as" são artigos definidos. "Um", "uma", "uns", "umas" são indefinidos. A confusão acontece quando o artigo indefinido se mistura com o numeral cardinal "um". Em "li um livro", pode ser artigo ou numeral, dependendo do contexto. Se você pode trocar por "certo livro", é artigo. Se pode trocar por "1 livro", é numeral. Adjetivo e numeral podem ocupar a mesma posição na frase. "Dois livros antigos" — "dois" é numeral, "antigos" é adjetivo. Fácil quando são vizinhos. Mais difícil quando o numeral vem antes do substantivo e o adjetivo depois: "livros dois antigos" soa estranho, mas mostra a separação clara. Na prática, a ordem natural em português é numeral antes do substantivo e adjetivo depois, mas há flexibilidade poética e estilística que pode invertar isso.

Substantivo e interjeição: as extremas da lista

Substantivo nomeia entidades. É a classe mais estável e a menos problemática. O desafio real com substantivos não é classificá-los, mas identificar quando uma palavra que parece substantivo está funcionando como outra coisa — como o infinitivo mencionado antes. Interjeição é a classe mais solitária. Expressa emoção, comando, sensação. "Ai!", "Ora!", "Shh!", "Gol!". Não se encaixa em sintaxe tradicional porque não integra a estrutura da oração. Aparece isolada ou como vocativo. Em análises formais, muitas vezes é marcada como elemento extrssintático.

O problema que ninguém conta sobre análise de classes gramaticais

A análise morfológica — identificar a classe de cada palavra — é uma coisa. A análise sintática — identificar a função de cada palavra na oração — é outra. A maioria dos erros acontece porque as pessoas confundem as duas. Uma palavra pode ser pronome na morfologia e sujeito na sintaxe. Ou ser adjetivo na morfologia e adjunto adnominal na sintaxe. O mesmo vocábulo, duas camadas de análise diferentes. Minha sugestão prática: façam sempre a análise morfológica primeiro, anotando a classe de cada palavra, e só depois passem para a sintaxe. Assim vocês não carregam viés de classe para a função. E prestem atenção especial aos verbos no infinitivo, aos pronomes relativos e às locuções prepositivas/conjuntivas. São os três pontos que mais geram erro em análise tanto escolar quanto profissional.

Se vocês querem um recurso para consulta rápida, a base é o site da Academia Brasileira de Letras e gramáticas de referência como a de Celso Pedro Luft ou a do Evanildo Bechara. Nada substitui a prática de analisar frases reais, porque é na frase que a teoria mostra onde ela rasga.