Quadrilha De São João - Quadrilha se apresentando na festa de são joão campina grande paraíba ...
Quadrilha se apresentando na festa de são joão campina grande paraíba ...

A verdade sobre organizar uma quadrilha

Montar uma quadrilha de são joão não é só acertar os passos e decorar a coreografia. A parte que as pessoas subestimam é a logística de ensaio. Ninguém te avisa que quinze casais tentando aprender o cateretê no mesmo horário acaba virando um ringue de colisão. A gente começa pelo básico: a estrutura. A quadrilha tradicional segue um formato fixo que todo mestre precisa saber de cabeça, senão o desfile vira bagunça. Há o casamento caipira, a briga de casais, o casamento dos surdos, a entrada dos solteiros, o cateretê, a valsa e o encerramento. Cada uma dessas partes tem suas regras de posicionamento e timing. Se o mestre erra a marcação, a quadrilha toda desandou.

No meu caso, a primeira vez que organizei algo decente foi em 2014, numa igreja de bairro em Ribeirão Preto. Tinha doze casais escalados e oito deles nunca tinham dançado junto. O problema real não era a dança em si. Era o alinhamento na hora da troca de pares durante o cateretê. Metade dos casais cruzava na linha errada e o mestre gritava sem ninguém ouvir por causa do som ambiente. A solução que funcinou foi prática demais para parecer engenhosa. Coloquei um assistente meu na ponta do palco com um apito. O apito cortava o barulho. Cada sinal sonoro correspondia a uma mudança específica. Dois apitos curtos = troca de mãos. Um longo = todos dão meia volta. Simples, eficiente. Os ensaios ficaram da noite pro dia mais curtos, de quatro horas para cerca de duas.

Quadrilha de são joão: coreografia básica passo a passo

Vamos direto ao que importa. A coreografia gira em torno de três movimentos fundamentais que se repetem em variações. O primeiro é o cateretê. Os casais ficam em fileiras duplas, homens de um lado, mulheres do outro. A sequência é: mãos dadas com o parceiro, soltar e dar a mão para o vizinho da fileira oposta, cruzar, voltar ao par original. Isso se repete três vezes antes de passar para o próximo figura. Cada repetição fica mais rápida. A regra não escrita é que a terceira volta deve ser executada em velocidade de apresentação. Se vocês ensaiarem só no ritmo lento, na hora do desfile vão travar.

O segundo movimento é a valsa. Diferente do que muitos pensam, não é uma valsa de salão clássica. É uma valsa de quadrilha, mais lenta, com deslocamento lateral em vez de giros. Os casais entram no centro, fazem uma curva em formato de ferradura e voltam para os lugares. O erro mais comum aqui é tentar girar. Não gire. Deslizem. Girar fora do eixo desalinhada toda a fileira. O terceiro é o trinca. Dois homens e duas mulheres formam um quadrado. A sequência é: entrar no centro, dar a mão para o parceiro do lado oposto, trocar de lugar cruzando por trás, retornar. Parece simples até alguém empurrar na hora errada. Aí vira caos.

O que poucos sabem é que a música dita o ritmo, mas também esconde armadilhas. Uma música de quadrilha bem feita tem intro, desenvolvimento, clímax e resolucao. O mestre precisa mapear cada figura para o trecho certo. Se você entra no cateretê quando a música ainda está na intro, a quadrilha entra desfasada e nunca mais sincroniza. Recomendo sentar com a trilha sonora antes de ensinar qualquer passo. Marcar no papel onde cada mudança acontece. Isso economiza pelo menos três ensaios inteiros. A escolha da música também importa mais do que parece. Música muito rápida mata a precisão dos cruzamentos. Música muito lenta torna a apresentação arrastada e o público entedia. O ponto ideal fica entre 120 e 140 batidas por minuto para o cateretê, e cerca de 90 para a valsa. Se a banda toca ao vivo, avise o maestro com antecedência. Se usam áudio gravado, testem o equalizador do som do evento. Frequências altas demais embolam o ritmo e os dançarinos perdem o compasso.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Pegadinhas que só aparecem no dia

O dia do desfile traz variáveis que o ensaio nunca mostra. O chão pode ser diferente. Cerâmica escorregadia no salão da comunidade. Asfalto irregular na rua. Sapatos diferentes entre os casais. Tudo isso altera a execução dos movimentos. Minha equipe já passou por isso duas vezes. Na primeira, o piso era liso e dois casais deslizaram durante o cateretê, quase caindo. Na segunda, o piso era irregular e as mulheres de salto baixo tropeçaram nos buracos. A correção foi simples: cola de dupla face nos solados para aderência e fita crepe no chão marcando os pontos de parada para evitar escorregões. Nada glamouroso, mas funcionou.

O outro problema crônico é o tempo. A regra não oficial é que uma quadrilha completa dure entre quatro e seis minutos. Mais que isso e o júri ou o público começam a se movimentar. Menos que isso e parece ensaio escolar. O segredo é cortar figuras, não acelerá-las. Remover o casamento dos surtos se o tempo estiver apertado. Manter o cateretê e a valsa, que são o núcleo da apresentação. Uma coisa que muita gente ignora é a comunicação entre o mestre e a banda. Em eventos grandes, o mestre fica no fundo do palco e não consegue ser ouvido. Levar um microfone de lapela ou combinar sinais visuais com o maestro é essencial. Sem isso, você perde a sincronia na primeira figura e a apresentação inteira desmorona a partir daí.

Questões que ninguém conta

Orçamento é o primeiro filtro. Uma quadrilha bem montada com trajes caprichados, música própria e dez a doze casais custa entre três mil e oito mil reais, dependendo da cidade e da qualidade dos tecidos. Roupa feita sob medida pode dobrar esse valor. Se o orçamento for apertado, o melhor caminho é focar em seis a oito casais com figurinos unificados e música editada. Quadrilha pequena executada bem supera quadrilha grande executada mal na maioria das judges. A logística de figurino também merece atenção prática. As roupas precisam permitir movimento livre. Saia muito rodada travessa a transição do cateretê. Tecido sintético barato esquenta e suava em cinqüenta minutos, o que deixa os dançarinos desconfortáveis e lentos. Algodão ou viscose resolvem. Já vi casos de quadrilhas queimando figurinos porque usaram poliéster em excesso.

Outro ponto cego é a questão da Coreografia. A ABQD (Associação Brasileira de Quadrilhas) estabelece regras para competições oficiais. Elas mudam periodicamente. O que era permitido em 2018 pode ser infração em 2025. Antes de se inscrever, verifique o regulamento vigente no site da entidade. Inscrever com coreografia desatualizada é forma certa de levar nota baixa ou até desclassificação. Se o objetivo é competição, considere contratar um coreógrafo especializado. O investimento varia de cincocentos a dois mil reais, mas o retorno em pontuação costuma compensar. Quadrilhas amadoras que tentam montar coreografias próprias com base em vídeos da internet cometem erros repetidos de simetria e de preenchimento de palco. Um profissional identifica isso em dez minutos.

Para quem não quer competir, a quadrilha de sono joão continua sendo uma das tradições mais sólidas do calendário cultural brasileiro. Requere organização, paciência e prática. Não é algo que se resolve em uma semana de ensaio. Mas quando funciona, funciona muito bem. E a sensação de ver doze pares executando o cateretê perfeito no meio do palco, sob luzes e música, vale cada hora extra.