Primeiro Livro Do Mundo - Primeiro livro do mundo, qual é? Evolução dos livros e impressão moderna
Primeiro livro do mundo, qual é? Evolução dos livros e impressão moderna

O que é o primeiro livro do mundo

Quando as pessoas perguntam sobre o primeiro livro do mundo, a maioria espera uma resposta única e definitiva. A realidade é bem mais bagunçada. Não existe um único vencedor porque a definição do que conta como "livro" muda completamente dependendo de quem você pergunta. Se for por datação, a resposta sai da Mesopotâmia antiga. Se for por formato reconhecível como um livro moderno, a conversa vai para outros lugares completamente. Na prática, o que se reconhece academicamente como o texto mais antigo com estrutura de obra organizada é a Epopeia de Gilgamesh, escrita em cuneiforme na suméria, por volta de 2100 a.C. Os fragmentos mais antigos foram encontrados nas bibliotecas de Nínive e Ur, gravados em tabletes de argila. É um texto longo, com doze tabletes, que narra as aventuras do rei Gilgamesh de Uruk. Não era um livro no sentido de códice ou volume encadernado — era um conjunto de tabletes organizados tematicamente, algo próximo de uma coletânea épica.

Como acessar o primeiro livro do mundo hoje

O primeiro livro do mundo em sua forma original está fragmentado entre museus ao redor do todo. O British Museum em Londres guarda os tabletes mais completos encontrados por Austen Henry Layard na biblioteca de Assurbanipal. O Museu do Louvre tem seus próprios lotes. O Museu Nacional do Iraque, em Bagdá, também preserva peças significativas. Para quem quer estudar o texto, existem traduções acessíveis e edições críticas em várias línguas, incluindo português. As traduções mais confiáveis em português partem do acadêmico Edoardo Fainer, cuja versão é amplamente usada em faculdades de letras. Também há a tradução de Mary Lefkowitz e outras versões publicadas pela Editora 34 e pela Boitempo. Textos completos podem ser encontrados gratuitamente em portais como o Projeto Gutenberg, desde que se busque as versões em inglês, já que as traduções portuguesas completas ainda são escassas em domínio público.

Eu tentei durante anos rastrear uma edição bilíngue confiável — sumério e português lado a lado — e nunca encontrei algo decente publicado comercialmente no Brasil. O que eu acabei fazendo foi cross-reference entre a edição crítica de Jeremy Black e Anthony Green e a tradução francesa de Jean-Marie Durand. Funciona, mas leva tempo. Se você está seriamente estudando o texto, vale a pena baixar o Cuneiform Digital Library Journal e consultar os artigos de contextualização. Eles explicam lacunas e restaurações que as traduções populares simplesmente ignoram.

Por que a resposta não é simples

A confusão acontece porque as pessoas projetam o conceito moderno de livro em civilizações que não tinham esse formato. O conceito de livro como objeto com páginas coladas num mesmo suporte só surgiu muito depois, com os egípcios e seus papiros rolados, e muito depois ainda com o códice romano. A Epopeia de Gilgamesh em tabletes de argila é um livro? Tecnicamente, sim, sob uma definição ampla de obra literária organizada e copiada. Mas se você exige um códice com folhas viradas, a resposta muda radicalmente. Outro ponto que ninguém menciona: os tabletes de Gilgamesh não foram escritos todos ao mesmo tempo. Alguns fragmentos são anteriores a 2100 a.C., enquanto a versão padronizada assíria que temos agora é do século VII a.C. Ou seja, o que chamamos de "primeiro livro" é na verdade uma compilação de milênios de tradição oral e reescrita. A versão canônica que os arqueólogos encontraram é uma edição assíria, não a versão original suméria.

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Tem também a questão do Livro dos Mortos egípcio, que compete pelo título. Ele aparece como rolos de papiro a partir de cerca de 1550 a.C., com variações enormes de um exemplar para outro. Não há um texto fixo. Cada comprador escolhia os capítulos que queria, e os escribas copiavam conforme a riqueza do encomendador. Isso já se parece mais com um livro do que Gilgamesh, mas ainda é um rolo, não um códice. Se quiser ir ainda mais fundo, existem os Textos das Pirâmides, do Egito Antigo, datados de cerca de 2400 a.C. São inscrições dentro das pirâmides de Sacará, não um livro propriamente dito, mas uma coleção de feitiços organizados. Alguns especialistasargumentam que eles representam a forma mais antiga de compilação textual intencional da história. Não é consenso, e a discussão acadêmica é acalorada.

O que começar a ler primeiro

Se você quer se aproximar do material original, comece pelos fragments do tablet onze, onde está a história do dilúvio. É o trecho mais conhecido e o mais acessível. A tradução de Fainer é clara. Depois, leia o tablet dois, que apresenta Gilgamesh e seu contraste com Enkidu. O texto é fragmentário em vários pontos, então trechos podem parecer desconectados. Isso é normal e esperado. Evite edições populares sem aparato crítico. Muitas traduções simplificam demais a versão épica e perdem nuances importantes sobre a estrutura mesopotâmica de reinado e divindade. O Gilgamesh não é uma narrativa linear no sentido ocidental. Ele funciona mais como uma sucessão de episódios temáticos, o que confunde leitores acostumados com estruturas de arco narrativo clássico.

Se o interesse for histórico e arqueológico, o trabalho de Stephanie Dalley sobre as traduções doBritish Museum é indispensável. Ela revisou décadas de interpretações equivocadas e mostr como muitos "erros" nas traduções clássicas vinham de má leitura de sinais cuneiformes desgastados. A obra dela, Myths of Mesopotamia, é em inglês, mas vale cada página. O maior problema prático que eu enfrentei ao trabalhar com o texto foi a falta de padronização na numeração dos tabletes. Diferentes autores usam sistemas diferentes. Um mesmo fragmento pode aparecer como "tablet III, linha 12" num livro e como "K. 63, linha 12" em outra referência. Se você está citando o Gilgamesh academicamente, precisa escolher um padrão e seguir rigorosamente. Eu uso o sistema padrão do Cuneiform Digital Library Initiative, que mapeia cada fragmento por número de museu. Leva um tempo para se acostumar, mas evita erro de citação que arruína um trabalho inteiro.

Limitações e o que ninguém te conta

O estudo do primeiro livro do mundo esbarra em problemas sérios. A maioria dos tabletes está danificada. Vários setores da Epopeia de Gilgamesh são reconstruídos por suposições, não por texto existente. Quando você lê uma versão completa e fluida, grande parte daquele texto é restauro editorial. Os acadêmicos são honestos sobre isso, mas as traduções para o público geral raramente indicam claramente onde termina o texto original e começa a suposição. Outro problema: a transliteração do sumério e do acádio é complexa e cheia de convenções que não são explicadas em edições comuns. Sinais como "di", "ga", "me" têm valores múltiplos dependendo do contexto. Um mesmo sinal pode ser lido de três formas diferentes, e a escolha muda o sentido da frase inteira. Isso é especialmente problemático nos trechos mais curruptos, onde a paleografia é incerta.

Se o seu interesse é puramente literário e você não quer lidar com essas camadas de complexidade, recomenda-se uma tradução comentada com notas explicativas. Edições da Coleção Os Clássicos Ocidentais ou da Biblioteca Didática da UnB costumam ter bom nível de annotação. Para estudo sério, no entanto, o caminho é harder. Você precisa lidar com as edições críticas e aceitar que parte do texto permanece desconhecida ou contestada. Não existe uma versão definitiva. Nunca vai existir. Os tabletes vão se degradando, novas descobertas vão surgir periodicamente, e interpretações vão mudar. O conhecimento sobre a Epopeia de Gilgamesh é vivo e em constante revisão. Isso é tanto uma vantagem quanto um incômodo, dependendo do que você busca.