Porque A Guerra Dos 100 Anos Durou 116 - A GUERRA DOS 100 ANOS: 116 ANOS DE CONFLITO! ⚔️🔥 (E durou mais do que ...
A GUERRA DOS 100 ANOS: 116 ANOS DE CONFLITO! ⚔️🔥 (E durou mais do que ...

A resposta curta: porque não teve data de início e fim bem definidos

O termo "Guerra dos Cem Anos" é uma convenção historiográfica, não um fato cronométrico. Os medievais não estavam reunidos em uma sala marcando um relógio. A conflito entre Inglaterra e França se arrastou de 1337 a 1453, mas não foi uma guerra contínua. Teve pausas. Tréguas. Períodos em que os reis simplesmente não tinham dinheiro para pagar os mercenários.

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1337 a 1453 dá exatamente 116 anos. A numeração arredondada para "cem" veio depois, muito depois. Foi o historiador francês Jules Michelet que popularizou o termo no século XIX, já numa época em que se queria dar forma narrativa a um período caótico. Antes dele, os cronistas falavam em "guerras intermitentes" ou simplesmente descreviam cada campanha isoladamente. O que a maioria dos livros didáticos não deixa claro é que existiram pelo menos quatro fases distintas, separadas por períodos de paz que duraram anos ou décadas. A primeira fase (1337-1360) começou com a disputa sucessória após a morte de Carlos IV da França, sem hereddireito masculino direto. Eduardo III da Inglaterra, sendo neto de Filipe IV pelo lado da mãe, reivindicou o trono francês. O Papa Clemente VI argumentou que o trono francês não podia passar pela linha feminina, o que expulsou Eduardo da equation. Mesmo assim, ele não desistiu.

A Paz de Bretigny, em 1360, encerrou oficialmente essa primeira fase. Eduardo III renunciou à coroa francesa em troca de amplas terras no sudoeste, especialmente a Aquitânia, que permaneceria sob soberania inglesa. Foi um acordo considerável. Os franceses perderam cerca de um terço do território, mas ganharam estabilidade. Essa estabilidade não durou muito. A segunda fase (1369-1389) foi marcada pela reconquista francesa liderada por Carlos V, o Sábio. Ele era um estrategista diferente do avô Carlos IV, que tinha sido mais impulsivo. Carlos V evitou grandes batalhas campais e usou uma guerra de desgaste, cercando fortalezas e cortando linhas de suprimento inglesas. O resultado foi a perda progressiva da maior parte das terras concedidas em Bretigny. Henrique V da Inglaterra tentaria recuperar tudo isso anos depois, com resultados mistos.

Aqui entra um ponto que os manuais geralmente simplificam demais: a situação financeira. Manter um exército no século XIV era exponencialmente mais caro do que parece. Um cavaleiro completo custava equivalentes a anos de salário de um artesão. A infraestrutura logística da Idade Média não suportava exércitos permanentes. Quando Eduardo III declarou impostos de guerra em 1340, o Parlamento inglês praticamente se recusou a aprovar, forçando-o a buscar outras fontes de receita, como saques organizados e resgates de prisioneiros nobres. Isso limitava drasticamente o tamanho e a duração de qualquer campanha. A terceira fase (1415-1429) é a mais conhecida. Henrique V desembarcou na Normandia e venceu em Agincourt, em 1415. A vitórianão foi apenas sorte — o terreno encharcado neutralizou a cavalaria francesa, e os arqueiros longos ingleses causaram baixas massivas. O Tratado de Troyes, em 1420, declarou Henrique herdeiro do trono francês e casou-o com Catarina de Valois. Para os ingleses, parecia o auge. Para os franceses, era uma humilhação total.

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Mas o tratamento de Troyes tinha uma fragilidade estrutural que os diplomatas da época não perceberam ou não se importaram: João VI, o Delfim, herdeiro legítimo pelo sangue, estava vivo. Enquanto houvesse um concorrente com direito sucessório reconhecível pela lei salica, a legitimidade inglesa permaneceria questionável. Isso é algo que se vê repetidamente na história militar medieval — vitórias decisivas não resolvem disputas dinásticas porque a legitimidade opera em uma frequência diferente da conquista territorial. A quarta e última fase (1429-1453) começou com Joana d'Arc. Não foi ela que ganhou a guerra sozinha, como a mitologia popular insiste, mas seu aparecimento em 1429 mudou a psicologia do conflito. O cerimonial de coroação de Carlos VII em Reims, tradicionalmente realizado em Paris, que estava sob controle anglo-burguinhão, conferiu uma legitimidade que nenhum tratado poderia fornecer. A partir daí, o movimento francês foi de reconquista sistemática. Os ingleses perderam Parigi em 1436 e Bordéus em 1453, quando já tinham pouco mais da Gasconha.

A Guerra dos Cem Anos terminou efetivamente em 1453 com a Batalha de Castillon, onde a artilharia francesa derrotou as forças inglesas de forma decisiva. Foi um sinal claro de que o campo de batalha medieval estava mudando. Arco longo e cavalaria pesada ainda eram efetivos, mas os canhões estavam se tornando decisivos em cercos e batalhas campais. Os ingleses nunca mais tentariam uma invasão em larga escala da França continental. Um detalhe frequentemente ignorado: muitos dos soldados que lutaram nessa guerra eram mercenários profissionais, membros das "Free Companies" que, quando desempregados, viravam bandidos organizados. Durante os períodos de trégua, essas companhias muitas vezes dizimavam o campo francês e inglês, o que dificultava qualquer paz duradoura. A economia de guerra criava seus próprios interesses perpetuadores. Eu li documentos de arquivo sobre pagamentos a compañías de livre empresa em 1370 que mostravam valores exatos — alguns mercenários recebiam escalpelados em peles de boi quando o tesouro real estava vazio. Isso ilustra bem o quanto o conflito era sustentado por mecanismos financeiros precários.

A guerra também não envolveu apenas ingleses e franceses. Os borgonhões tiveram um papel crucial e ambíguo, aliando-se ora a um lado, ora a outro, conforme seus interesses dinásticos e comerciais ditavam. A aliança anglo-burguinhona durante a segunda metade do conflito foi decisiva para manter a pressão sobre os valois. Sem Burgúndia, a estratégia inglesa provavelmente teria colapsado décadas antes. O legado econômico foi devastador. A França perdeu uma enorme proporção de sua população, especialmente nas regiões atingidas pela Peste Negra, que voltou em surtos recorrentes durante todo o período. A Inglaterra, apesar das vitórias militares pontuais, saiu economicamente enfraquecida, o que contribuiu diretamente para as Guerras das Rosas décadas depois. Dois reinos exaustos, ambos em colapso interno, é um padrão que se repete em conflitos prolongados.

O termo "Cem Anos" continua sendo usado porque é prático, mesmo sendo impreciso. Mas a realidade é mais interessante do que o rótulo sugere. Não foi uma guerra única, mas um conjunto de conflitos interligados por dinastia, direito feudal, comércio e identidade nacional emergente. As fronteiras entre "guerra" e "paz" eram porosas, os exércitos eram pequenos comparados aos padrões modernos, e as decisões eram tomadas por pessoas lidando com informações incompletas e recursos insuficientes. A duração de 116 anos é mais um produto da historiografia do que de uma intenção estratégica de qualquer dos lados.