O plural de vossa senhoria: como funciona na prática
A forma plural de vossa senhoria é vossas senhorias, e a abreviatura mais comum em documentos oficiais é Vv.Ss. ou, em alguns casos, simplesmente V.S.as. A coisa parece simples até você se deparar com um despacho judicial ou uma correspondência ministerial onde alguém já usou formas diferentes e não fica claro qual é a correta no contexto específico. Eu trabalhei anos com correspondência institucional e já perdi tempo demais tentando entender por que um tribunal usava "V.Vs." em um ofício e "Vossas Senhorias" por extenso em outro, para o mesmo destinatário. A resposta chata é que ambas existem e ambas estão corretas, mas o uso varia conforme o órgão e a tradição interna de cada secretaria.
plural de vossa senhoria: regras e usos
Vossa senhoria (V.S.) é o tratamento formal padrão dirigido a autoridades de determinado cargo — juízes, presidentes de câmara, secretários, procuradores. No plural, quando você se endereça a mais de uma pessoa que ocupa esse tipo de cargo, a forma correta é vossas senhorias. A abreviatura segue a mesma lógica do singular, dobrando os elementos: Vv.Ss. Um detalhe que poucos manuais mencionam: a concordância verbal sempre vai para a terceira pessoa do plural. Você diz "Vossas Senhorias decidiram", nunca "Vossa Senhoria decidiram" nem "Vossas Senhorias resolveu". Isso vale inclusive quando os destinatários são de cargos diferentes misturados num mesmo addressed — o plural predomina sobre o singular, sem exceção.
Já me deparei com um caso específico em que precisei endereçar um ofício conjunto a três membros de uma comissão. A tentação era escrever "Vossas Senhorias" e usar verbo no singular porque a comissão era tratada como entidade única. Errado. A correspondência seguia o plural estrito, e eu precisei refazer o documento depois que a assessoria jurídica do destinatário devolveu com a correção. O problema é que a lógica institucional às vezes colide com a lógica gramatical, e a gramatical sempre ganha no papel.
Abreviaturas e variações que você vai encontrar
Na prática, você vai se Rambarrar com pelo menos três formas diferentes de escrita da abreviatura: Vv.Ss. — a mais padronizada e a que eu recomendo para a maioria dos casos. O "Vv." marca o plural de "Vossa" e o "Ss." o plural de "Senhoria". É a forma que aparece na maioria dos manuais de redação oficial.
V.S.as — também encontrada, especialmente em textos mais antigos ou em órgãos que preferem manter a forma abreviada de "Vossa senhoria" e marcar o plural apenas no substantivo. Funciona, mas é menos clara visualmente. V.Vs. — uma versão ainda mais condensada. Eu vejo mais em memorandos internos e less formais documentos administrativos. Tecnicamente aceitável, mas evite em peças jurídicas ou despachos de maior formalidade.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Nenhuma dessas formas é "errada" por si só, mas a inconsistência entre órgãos é real. Eu já vi dois tribunais do mesmo estado usarem abreviaturas diferentes para o mesmo tratamento no mesmo ano. Se você está redigindo um documento, use a forma que o destinatário já utiliza habitualmente. Espelhar o padrão do órgão receptor reduz drasticamente a chance de uma devolução por formalidade.
Pegadinhas comuns
A primeira pegadinha é achar que "vossa senhoria" e "vossas senhorias" substituem "vocês". Elas não são equivalentes. "Vocês" é tratamento coloquial ou, no máximo, institucional em contextos menos rígidos. Vossa senhoria/vossas senhorias exigem um cargo ou autoridade específica do destinatário. Usar vossas senhorias para se dirigir a um grupo de colegas de trabalho, por exemplo, soa estranho e pode ser interpretado como ironia ou erro grave de etiqueta. A segunda pegadinha é a concordância com pronomes de tratamento. Quando você usa "vossas senhorias" como sujeito, o pronome oblíquo que retoma é "lhes", nunca "os" ou "vos". Frases como "Certo de que Vossas Senhorias os acolherão" estão erradas. O correto é "Certo de que Vossas Senhorias lhes acolherão" — ou, melhor ainda, reestruturar para evitar a ambiguidade: "Certo de que Vossas Senhorias acolherão o presente requerimento."
Uma terceira questão que causa confusão recorrente: quando endereçar um documento a múltiplas autoridades de cargos diferentes. Neste caso, a norma culta recomenda listar cada tratamento individualmente na saudação e usar o plural apenas no corpo do texto. Exemplo: "Ao Excelentíssimo Senhor Juiz e aos Excelentíssimos Senhores Desembargadores, cumprimento-vos com elevada consideração." Aí, no desenvolvimento, você usa "Vossas Senhorias" ou "Vossa Majestade" dependendo de quem está na mesa. Misturar tratamentos diferentes no mesmo parágrafo é fonte constante de erro.
Quando evitar vossas senhorias
Existem cenários em que o uso de vossas senhorias é inadequado ou mesmo problemático. O principal é quando o destinatário é um órgão coletivo e não pessoas físicas. Se você escreve para um colegiado, uma câmara, um conselho, o tratamento adequado costuma ser "Às Vossas Excelências" (V.Ex.as), não vossas senhorias. A diferença não é meramente estilística — ela reflete a hierarquia e a natureza do cargo. Excelência é para magistrados e altos funcionários; senhoria é para servidores e autoridades de nível intermediário. Outro caso em que eu desaconselho o uso: documentos eletrônicos enviados por sistemas automatizados ou correio eletrônico institucional com campo de saudação fixo. Sistemas de protocolo muitas vezes aplicam o tratamento de forma genérica e acabam usando "Vossa Senhoria" no plural de destinatários múltiplos, o que gera um documento visivelmente equivocado. Nesses casos, o mais seguro é revisar manualmente antes de protocolar.
O ponto mais importante que eu posso deixar é este: a gramática do tratamento formal em português é cheia de nuances que manuais resumem demais. O plural de vossa senhoria em si é tranquilo — é vossas senhorias, Vv.Ss., concordância no plural, pronome "lhes". Mas o uso real depende do contexto institucional, do órgão receptor e da tradição de cada esfera. Antes de usar, verifique como o destino costuma receber correspondência. O resto é detalhe.