Planalto Da Borborema - A Geografia como Protagonista!: A ação do planalto da Borborema no ...
A Geografia como Protagonista!: A ação do planalto da Borborema no ...

Quem quer entender o Planalto da Borborema precisa deixar de lado o que lê em materiais promocionais

O Planalto da Borborema é uma formação geográfica que atravessa vários estados do Nordeste brasileiro, mas o foco principal fica em Pernambuco. Ele corresponde a uma região de elevações que varia entre 500 e 1.500 metros de altitude, cortada por vales profundos e serras isoladas. Muita gente confunde com a Caatinga pura, mas o planalto tem um microclima próprio que faz uma diferença real na agricultura e no planejamento de qualquer obra na região.

Localização e características básicas do planalto da borborema

A faixa começa no norte de Minas Gerais, passa pela Bahia e entra em Pernambuco pelo extremo leste, se estendendo até a Zona da Mata. Os municípios mais relevantes ficam nos vales interpostos entre as serras. Petrolina e Juazeiro ficam na borda desse planalto, ao longo do São Francisco, que é a veia econômica da área. A altitude média já explica por que as temperaturas são mais amenas lá em cima: de dia dá pra trabalhar sem aquele calor sufocante que castiga o sertão baixo. O solo em si é velho, altamente intemperizado, com textura variada. Em muitos pontos é argiloso, o que segura umidade quando chove. Em outros, predominam areias quartzosas que drenam rápido demais. Se você for plantar ou construir, a primeira coisa a fazer é uma análise de solo específica por terreno, porque a variação dentro de poucos quilômetros pode ser brutal. Eu vi produtores que fizeram adubação baseada na média estadual e perderam metade da safra por pH desregulado, só porque o talhão tinha uma camada de areia por cima de um substrato ferruginoso.

Como a geologia influencia tudo na prática

O embasamento cristalino é formado por gnaisses e xistos do Pré-Cambriano, com intrusões graníticas que geram solos mais arenosos. Por cima, há coberturas sedimentares recentes em alguns vales, com aluviões que formam camadas férteis. Essa combinação determina duas coisas: a infiltração de água e a estabilidade para fundações. No que diz respeito à água, os brechas e fraturas das rochas abrigam aquíferos discretos. Não é um sistema karstico enorme como no sertão centro-oeste, mas são suficientes para abastecer tanques e pequenos poços artesianos. Quando fui fazer um levantamento hidrológico em um sítio perto de Salgueiro, o poço que fiz perfurar a 80 metros rendeu uns 2.000 litros por hora. Em outro ponto, a cinco quilômetros de distância, precisei descer a 140 metros para achar vazão parecida. A diferença era a presença ou ausência de fraturas abertas no embasamento. Se você for perfurar, contrate um hidrogeólogo local. Planos genéricos de sondagem gastam dinheiro e não acertam o alvo.

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O que todo mundo erra ao planejar atividades no planalto

O erro mais comum é tratar a Borborema como um bloco homogêneo. Não é. Ela se divide em setores com comportamentos distintos. A Serra do Ororubá, por exemplo, captou chuva orográfica e mantém remanescentes de mata atlântica em cotas altas, enquanto os vales secos logo abaixo têm vegetação de caatinga arbórea espinhosa. O mesmo vale para o manejo de bacias hidrográficas: um projeto de terraços e barreiras feito para a encosta úmida pode falhar na vertente árida, porque a frequência e a intensidade das chuvas são completamente diferentes. Outra pegadinha é o calendário agrícola. A estação das chuvas no planalto não segue o padrão dos municípios litorâneos. Ela costuma começar em fevereiro e terminar em junho, com uma pausa seca em março que muitos produtores não esperam e estraga a germinação de culturas de ciclo curto. Para evitar isso, eu recomendo semear espécies ou variedades com tolerância a esse estresse intermediário, como a feijão-caupi ou o milheto para cobertura. Se o objetivo é fruticultura irrigada, o problema é outro: a evapotranspiração potencial sobe muito nos períodos de vento forte de setembro a novembro, e a conta de água pode dobrar se o sistema não for dimensionado com essa variável em mente.

Pecuária e fruticultura: dois caminhos possíveis

A pecuária extensiva no planalto funciona, mas exige rotação de pastagens e complementação alimentar no período seco. O capim-elefante cresce bem nas áreas de maior altitude, mas na zona de transição para o sertão ele sofre com a estiagem prolongada. O manejo que eu vejo dar certo é o sistema de piquetes com descanso de 45 dias durante a seca, combinado com silagem de sorgo para oferta no cocho. Isso reduz a perda de peso dos animais em pelo menos 30% comparado ao pasto nativo sem manejo. Já a fruticultura irrigada cresceu muito nas bordas do planalto, perto do vale do São Francisco. Mangaba, cajá, umbaúba e maracujá nativo estão ganhando espaço, além das tradicionais manga e uva. O segredo não é só a irrigação, mas o manejo do solo para evitar a salinização. A água do São Francisco tem bons índices de qualidade, mas a evaporação intensa concentra sais na camada superficial. Gotejamento enterrado e cobertura morta reduz esse efeito. Em uma propriedade que supervisionei em Glória, aplicamos palha de algodão sobre as linhas de plantio e monitoramos a condutividade elétrica do solo a cada 15 dias. O índice de sais ativos permaneceu abaixo de 2 dS/m por quatro anos consecutivos, o que é uma manutenção tranquila se o produtor tiver disciplina de leitura.

Dicas concretas para quem vai viajar ou trabalhar na região

As estradas principais são boas, mas os acessos secundários podem virar lama seca no verão e argila escorregadia na chuva. Se for levar equipamento pesado ou fazer transporte de insumos, verifique o estado das pontes e vias de contorno antes de fechar a rota. Há municípios onde o transporte só é viável em veículos com tração nas quatro rodas durante a estação chuvosa, e mesmo assim com risco de atolamento. A saúde também exige preparação. A malária e a leishmaniose têm focos em algumas áreas de transição com floresta remanescente. Repelente, telas e exame periódico valem mais que qualquer remédio de última hora. No planalto da borborema, a logística de atendimento médico em emergências pode demorar duas horas ou mais se você estiver em comunidades rurais distantes. Eu prefiro nunca ficar sem comunicação por celular e ter uma lista de postos de saúde com horários de funcionamento. Muitos só atendem de segunda a sexta pela manhã.

Quando o planalto não é a solução

Há situações em que a Borborema simplesmente não compensa. Se o projeto depende de grandes volumes de água superficial para indústria ou irrigação em escala muito extensa, os rios perenes são poucos e o manancial subterrâneo não acompanha a demanda sem perfurações caras. Nesse caso, vale considerar alternativas em regiões com aquíferos mais produtivos, como o Rio Grande do Norte ou partes do Ceará ocidental, dependendo do tipo de cultura ou atividade. O planalto oferece vantagens térmicas e de biodiversidade, mas não é uma opção universal. Se você está no início de um estudo ou projeto nessa região, comece com dados locais reais: pluviogramas dos últimos dez anos, mapas de solos do INAPSA e levantamentos topográficos de nível. Planos genéricos copiados de manuais estaduais trazem mais prejuízo do que economia. O planalto da borborema responde bem a quem lê o terreno antes de agir, e cobra caro de quem pula essa etapa.