O que aconteceu com os acentos que sumiram do português
Em 1990 foi assinado o Acordo Ortográfico e, quando entrou em vigor no Brasil em 2016, dezenas de palavras brasileiras simplesmente perderam acentuação gráfica de uma hora para outra. A maioria das pessoas nem percebeu, mas muitas delas afetam o uso diário — e geram dúvida constante em quem revisa textos, corrige provas ou trabalha com conteúdo. Na prática, o acordo eliminou acentos que antes eram obrigatórios em três categorias principais: ditongos abertos, acento diferencial e acento nos paroxítonos terminados em ditongo. Vou mostrar como isso funciona de verdade, com exemplos práticos e os casos em que isso ainda causa problema no dia a dia.
Palavras que perderam o acento — o lado prático
A regra dos ditongos abertos é a mais conhecida. Antes do acordo, palavras como herói, debochei, epopeia e jiboia levavam acento no "é" e no "ói" dos ditongos abertos "ei" e "oi". Depois da reforma, todos esses acentos foram eliminados. O critério é simples: se a palavra for paroxítona (o núcleo silábico tônico cai na penúltima sílaba) e tiver o ditongo aberto "ei" ou "oi", não leva acento mais. Então ficou assim: heroi (antes herói), ideia (antes ideia — na verdade essa já não tinha acento porque era oxítona com final em ditongo, mas o ponto é que o ditongo aberto "ei" foi padronizado sem acento), apoio, caranguejo, chapeu, coreia. A lista é extensa e muitos dicionários antigos ainda registram a forma com acento, o que gera confusão.
Outro grupo importante são os verbos conjugados no pretérito perfeito. Verbos como enjoo (de enjooar, mas na verdade o exemplo clássico é voou — antes voou, com acento no "u" tônico do ditongo), construiu, reconstruir. Na verdade, aqui o correto é falar dos formas verbais como voou (antes voou com circunflexo), constroem, destruo, perdoam. O acento diferencial que marcava a terceira pessoa do plural no presente foi suprimido também. O acento diferencial, que antes distinguía palavras idênticas, também sofreu alterações significativas. Polo (antes polo para distinguir de pólo — na verdade ambas as formas eram aceitas, mas o acordo manteve sem acento), pera (fruta, antes pêra), porembora — na verdade pôr permanece com acento como verbo, mas por (preposição) também permanece igual. O que mudou foi a supressão do acento em pró (pró-híbrido), péla, pélo.
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Existe uma confusão muito comum sobre o acento no "á" de palavras como praça e vó. O acordo não removeu esses acentos. O acento em praça permanece porque éoxítona terminada em ditongo oral, e vó mantém o acento por ser proparoxítona — essas regras nunca foram alteradas. Isso é algo que muita gente erra, então anota: apenas ditongos abertos "ei" e "oi" em paroxítonas, acentos diferenciais específicos, e o acento do "u" tônico em formas verbais com ditongo foram suprimidos. Um caso que encontrei na prática e que gera reclamação constante é a palavra lemos. Muitos revisores e professores insistem em manter o acento em formas como nós lemos, vós lestes, argumentando que o acento indicaria a tonicidade diferente. Mas a norma culta pós-acordo não exige acento diferencial nessas formas verbais. Eu já passei a corregir artigos inteiros onde o autor corrigia "nós lemós" para "nós lemos" e o revisor volava o acento de volta. A regra é clara: sem acento em nenhuma dessas formas verbais de "ler". A dica é consultar o dicionário sempre que tiver dúvida — se ele mostra a forma sem acento, está certo.
Quanto aos sites para consulta, não existe um "download" único dessas palavras, mas o melhor recurso oficial é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, disponível gratuitamente online. Há também listas compiladas por ling uistas em blogs e sites de gramática, como o Ciberdúvidas e o Grammaria. Se você quer um arquivo em PDF para consulta rápida, recomendo buscar no site da ABL — eles publicam o vocabulário atualizado periodicamente, e é a referência mais confiável que existe. O principal problema que vejo no uso corrente são os testes de português e concursos. Muitas bancas ainda adotam a norma anterior em questões antigas ou simplesmente erram a atualização. Eu já vi prova de concurso com "Vênus" como alternativa correta quando o gabarito deveria ser "venus" — na verdade, o próprio exemplo mostra o nível de confusão. A regra para palavras como Vênus e África não mudou: elas são proparoxítonas e mantêm o acento. Mas quando a banca mistura normas, o candidato fica na dúvida.
Outra dificuldade real é que a maioria dos processadores de texto e corretores ortográficos ainda não foram atualizados para a nova ortografia em algumas versões antigas. O Word da Microsoft levou anos para ajustar o corretor brasileiro. Se você trabalha com muitos textos, vale a pena verificar se o corretor da sua versão realmente segue a nova norma — caso contrário, ele vai marcar "heroi" como erro e sugerir "herói", o que pode gerar retrabalho desnecessário. Para quem precisa lidar com isso no dia a dia, o caminho mais seguro é confiar no VOLP da ABL e em dicionários atualizados, e não no corretor automático ou na memória de quando se estudou ortografia. A lista completa de palavras que perderam o acento não cabe num artigo só, mas os grupos principais são esses: ditongos abertos em paroxítonas, acento diferencial suprimido em algumas formas verbais e pronominais, e acento do "u" tônico em formas como "voou". Todo o resto permaneceu igual.