Sobre a casta que todo mundo fala e poucos realmente entendem
A vitória régia é uma casta de uva portuguesa que está praticamente extinta. Aparece em todos os artigos sobre vinhas antigas do sul de Portugal, mas a maior parte do que se lê por aí é especulação. A verdade é mais seca.
A origem da vitória régia: o que se sabe e o que se inventaram
Não há registos escritos conclusivos sobre a origem exata desta uva. O que existe são deduções botânicas e etimológicas. O nome "vitória régia" remete ao período pombalino, século XVIII, e muitos historiadores da vinha ligam-na à região do Alentejo ou do Ribatejo, onde a coroa portuguesa incentivou plantações para produção de vinho de mesa e fortificado. Nada disso está provado com certidão de nascimento da variedade. O que se pode afirmar com relativa segurança é que se trata de uma uva de polpa branca, tardia na maturação, com granalha significativa em anos húmidos. É dessa granalha que vêm a maioria dos problemas práticos.
Fui a um enólogo no Baixo Alentejo há uns anos atrás e perguntei-me directamente qual a área plantada de vitória régia que ele conhecia pessoalmente. Ele contou-me três quintas. Três. Nenhuma delas produzia nem 500 hectolitros anuais. A maioria dessas parcelas foram arrancadas nos anos 2000 e substituídas por aragonez e tinto miúdo em larga escala.
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Porque é que esta casta é tão difícil de trabalhar na prática
A vitória régia tem um comportamento que poucos documentaram adequadamente. Ela é excessivamente vigorosa quando o porta-enxerto não é bem escolhido. Em pé francófilo de raiz forte, como o 420A, a videira entra num ciclo de crescimento vegetativo descontrolado que consome toda a energia disponível e deixa a fruta subdesenvolvida. O mosto não atinge açúcar mínimo para uma fermentação estável. O workaround que aprendi da forma mais difícil foi: usar porta-enxerto Ripária Glo em solos calcários pesados, podar em Guyot simples com apenas três olhos por ramo, e deixar uma densidade de 2500 plantas por hectare, no máximo. Abaixo disso, a competitividade entre cepas torna-se insustentável e a granalha dispara. Acima disso, a congestão da copa elimina qualquer hipótese de arejamento.
Isto corta o tempo de manejo por parcela de cerca de 8 horas para 3 horas por dia na fase de verão, mas exige correcção constante da condução durante os primeiros três anos após o enxerto. Não há atalho.
O que a casta entrega no copo quando se comporta bem
Quando os factores acima estão alinhados, a vitória régia produz um vinho branco com acidez média-alta, corpo médio e perfis que variam entre frutos brancos maduros e notas herbáceas suaves. Não é um vinho para quem procura intensidade explosiva. É uma casta de elegância discreta, do tipo que muitos enólogos ignoram porque não vende fácil. Os principais problemas que encontro quando alguém tenta recuperar vinhas velhas desta casta são dois. Primeiro, a perda de material vegetal original. Muitos enxertos actuais vieram de clones seleccionados em viveiros nos anos 90, que já não correspondem à população genética original. Segundo, a falta de legislação que proteja ou incentive a manutenção destas parcelas. Não há denominação de origem específica para vitória régia, o que significa que nenhum produtor tem incentivo fiscal ou regulatório para a manter.
Se o objectivo é estudar ou recuperar a casta, a alternativa mais viável hoje é contactar o Instituto da Vinha e do Vinho para obter acesso a materiais vegetais certificados de origens conhecidas, e focar-se na região de Moura ou Serpa, onde ainda existem registros de vinhas com mais de cinquenta anos com alguma probabilidade de ser dessa casta.