O Que São Ruminantes - Animais Ruminantes O Que São Animais Ruminantes?
Animais Ruminantes O Que São Animais Ruminantes?

O que são ruminantes: uma explicação sem frescura

Ruminantes são mamíferos artiodáctilos com um estômago composto em quatro câmaras. O sistema funciona por fermentação microbiana, não por digestão enzimática direta. Isso significa que o animal não digere a celulose sozinho. Ele depende de trilhões de bactérias, protozoários e fungos que vivem no rúmen e quebram a fibra vegetal em ácidos graxos voláteis, que são absorvidos e usados como energia. As quatro câmaras são o rúmen, o retículo, o omaso e o abomaso. O rúmen é o maior e onde acontece a principal fermentação. O retículo funciona como um filtro para objetos densos. O omaso absorve água e minerais. O abomaso é o verdadeiro estômago glandular, equivalente ao do ser humano, onde ácidos e enzimas entram em ação. Depois vem o intestino delgado e o grosso.

A ruminação em si é o processo de regurgitar o bolo alimentar, rechacrá-lo na boca e engolir novamente. Isso parece nojento, mas é essencial. A mastigação secundária reduz as partículas vegetais a um tamanho que permite digestão eficiente. Um boi passa entre seis e oito horas por dia rumando. Se você já viu uma vaca parada, olhando pro nada com a mandíbula movendo de um lado pro outro, essa é ela processando comida regurgitada.

O que são ruminantes de verdade: além da definição de livro

A definição simples funciona para provas. Na prática, o assunto é mais complicado. Por exemplo, camelinhos como alpacas e lhamas têm um estômago trifásico, não quadrifásico. Eles são tecnicamente ruminantes, mas com uma anatomia diferente. Cavalo-do-mar não é o problema, o problema são os equídeos. Cavalos, burros e zebras não são ruminantes. Eles são herbívoros com ceco fermentador, o que significa que digerem fibra de forma muito menos eficiente que um bovino. A taxa de conversão de forragem em carne em um cavalo pode ser até 30% menor que a de um boi da mesma espécie. Outro ponto que muita gente erra: ser ruminante não significa ser herbívoro estrito. Veados, por exemplo, ocasionalmente comem anfíbios pequenos ou roedores. É raro, mas acontece. O sistema digestivo deles não foi feito pra proteína animal, então isso não é rotina alimentar. Mas mostra que a classificação biológica não é tão rígida quanto parece.

Como a digestão ruminante funciona na prática

Quando um bovino come capim, o alimento vai direto do esôfago pro rúmen. Ali, a fibra é quebrada por microrganismos que produzem enzimas como celulasas e xilanases. O produto final dessa fermentação são os ácidos graxos voláteis: acetato, propionato e butirrato. Juntos, eles fornecem entre 70% e 80% da energia que o animal precisa. O metano é um subproduto. Sim, os bois arrotam metano. É por isso que o agronegócio aparece em relatórios de gases de efeito estufa. O pH do rúmen precisa ficar entre 5,5 e 7,0. Se cair abaixo de 5,5, ocorre acidose ruminal. Isso mata as bactérias fibrinolíticas e pode matar o animal em 48 horas se não for tratado. Já vi caso de um produtor que mudou a ração de um dia pro outro, trocando capim por silagem de milho concentrada demais. Em três dias, cinco vacas estavam deitadas, respirando ofegante, com fezes ácidas. O tratamento foi bicarbonato de sódio via sonda rumal, correção gradual da dieta e hidratação intravenosa. Duas sobreviveram.

Essa é uma lição importante: o trato ruminante é um biodigestor estabilizado. Qualquer mudança brusca na dieta desequilibra a população microbiana. O recomendado é fazer transições em pelo menos 10 a 14 dias, aumentando a proporção do novo ingrediente gradualmente. Produtores iniciantes costumam querer economizar tempo nessa etapa e pagam caro por isso.

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Erros comuns na nutrição de ruminantes

O erro mais frequente é confundir necessidade energética com necessidade de fibra efetiva. Um boi pode ter todas as vitaminas e proteínas que precisa numa fórmula balanceada, mas se a fibra efetiva for baixa, o pH do rúmen cai. A fibra efetiva é aquela que exige mastigação. Partículas longas de capim estimulam a ruminação e a produção de saliva, que é tampão natural do rúmen. A saliva de um boi adulto chega a 150 litros por dia. Cada mordida de bolo alimentar regurgitado produz cerca de 50 mililitros extras de saliva. Outro erro crasso é usar uréia como fonte exclusiva de nitrogênio não proteico sem garantir energia fermentescível suficiente. A bactéria que converte uréia em proteína microbiana precisa de carboidratos pra rodar. Se a dieta for pobre em energia, a amônia se acumula, entra na corrente sanguínea e causa intoxicação. Já vi animais com tremores, salivação excessiva e morte em poucas horas. O antídoto é etanol intravenoso em alguns casos, mas a prevenção é ajustar a relação energia:nitrogênio na ration.

Tem também a questão da selenose e do cuprismo. Ruminantes são sensíveis a excesso de cobre. O fígado acumula cobre e num dia qualquer, sob estresse, acontece a hemólise aguda. O animal morre de repente, com urina cor de Coca-Cola. A dosagem de cobre no sal mineral precisa ser monitorada. Em algumas regiões do Brasil, como o cerrado, o solo já é naturalmente rico em cobre, e suplementar mais é pedir problemas.

Vantagens e limitações do sistema ruminante

O sistema ruminante permite transformar biomassa vegetal indigesta para humanos em proteína animal. Isso é economicamente relevante. Um hectare de capim bem manejado pode gerar entre 800 e 1.200 quilos de carne por ano em pastejo rotacionado adequado. Sem ruminantes, essa terra teria uso alimentar muito mais limitado. Mas há limitações sérias. A eficiência de conversão alimentar de um bovino de corte gira em torno de 6 a 8 quilos de matéria seca de forragem por quilo de ganho de peso. Isso é muito inferior ao de aves, que convertem cerca de 2 quilos de ração por quilo de carne. O bovino também emite metano de forma constante, enquanto aves emitemamente CO pela respiração. Em termos de pegada de carbono por quilo de proteína, o bovino perde feio pra suíno e avícola.

Existe ainda o problema do tempo de ciclo. Um bezerro leva cerca de 18 a 24 meses pra atingir o peso de abate em sistemas tradicionais. Aves levam 45 dias. Isso significa capital imobilizado por mais tempo, risco sanitário exposto por mais tempo e menor giro de lote. Em períodos de seca prolongada, como os que têm sido comuns no semiárido brasileiro, a manutenção do rebanho fica inviável e o produtor é obrigado a reduzir a lotação drasticamente.

Alternativas e tendências

Alguns pesquisadores estão desenvolvendo aditivos alimentares à base de algas marinhas, como Asparagopsis taxiformis, que podem reduzir a produção de metano em até 80%. O problema é o custo. O kilo dessa alga processada custa entre 30 e 50 dólares, o que tornaria a suplementação inviável na maioria dos sistemas de pastejo. Outra linha de pesquisa envolve seleção genética de bovinos com menor produção de metano, mas os resultados ainda são preliminares. Para quem está começando com ruminantes, o conselho mais honesto que posso dar é: estude a dieta antes de comprar o primeiro animal. A maioria dos foca em escolher a raça certa e negligencia o manejo nutricional. A raça importa, mas um boi well-fed de qualquer raça performa melhor que um mal alimentado da melhor raça do mundo. Leve um nutricionista animal ou um zootecnista pra montar a ration. Custa entre 500 e 1.500 reais numa consultoria básica e evita prejuízos de dezenas de milhares.

A classificação de ruminantes também engloba cérvidos, girafas, antílopes, buntangs e outras espécies. Cada uma tem particularidades. Cervídeos, por exemplo, têm menor capacidade de utilizar fibras mais grosseiras que bovinos. Eles preferem folhas, brotos e frutas. Girafas sãobrowseadoras estritas. O manejo nutricional precisa respeitar essas diferenças. Não adianta tratar um rebanho de ciervos como se fossem gado bovino.