O Que Foi A Revolucao De Avis - Revolução de Avis - O que foi, história, características e consequências
Revolução de Avis - O que foi, história, características e consequências

O contexto por trás da crise de sucessão portuguesa

A Revolução de Avis foi o conjunto de eventos políticos e militares que aconteceu em Portugal entre 1383 e 1385, resultando na independência do reino face a Castela e na ascensão da dinastia de Avis ao trono português. Vou explicar como funcionou, porque que a versão simplificada muitas vezes não corresponde à realidade documentada, e onde é que as fontes falham quando tentamos perceber exactamente o que se passou.

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Muitos livros escolares tratam isto como uma revolta popular espontânea contra o domínio castelhano. A realidade é mais complicada e mais interessante. Quando D. Fernando I morreu em 1383, não deixava um filho varão. A herdeira era a filha Joana, casada com D. João I de Castela. A nobreza portuguesa estava dividida: uma facção, liderada por nobres como Nuno Álvares Pereira, apoiava a causa de uma união ibérica sob Castela; outra facção, com interesses económicos particulares no comércio marítimo e nas relações com Inglaterra, via a independência como vantajosa. O Mestre de Avis, D. João (filho ilegítimo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço), acabou por ser proclamado rei em Coimbra, em Abril de 1385. Isso desencadeou uma série de batalhas e sítios que duraram dois anos. O ponto de rutura foi a Batalha de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385, onde as tropas portuguesas, lideradas por Nuno Álvares Pereira, derrotaram um exército castelhano numericamente superior.

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O que muita gente não percebe é que a chamada "revolução" não foi apenas um movimento armado. Houve uma reconfiguração completa das alianças políticas. A burguesia urbana portuguesa, especialmente das cidades de Lisboa, Porto e Coimbra, ganhou influência política sem precedentes. As cortes de Coimbra de 1385 marcaram isso claramente. Comerciantes e artesãos passaram a ter assento e voz num reino que até aí era dominado quase exclusivamente pela alta nobreza e pelo clero. Quando comecei a estudar este período, li os Anais de Fernão Lopes e depois fui atrás dos documentos originais nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo. O problema é que muita documentação de 1383-1385 está dispersa por múltiplas colecções e não há uma edição crítica consolidada para todo o período. No caso específico das cartas de fidelidade prestadas por várias famílias nobres em 1384, por exemplo, encontrei referências cruzadas em documentos de propriedades rurais que nunca tinha considerado — o que me levou a repensar a narrativa de que toda a nobreza se uniu contra Castela. Na prática, pelo menos três famílias de alta linhagem mantiveram contactos ambíguos com D. João de Castela mesmo após a proclamação de D. João I.

Um detalhe prático importante: quem quer entender a Revolução de Avis de forma rigorosa precisa de consultar as crónicas de Fernão Lopes, mas também os registros municipais das câmaras de Lisboa e Porto da época. As crónicas dão a visão política; os registros municipais mostram como as decisões chegaram às ruas. A lacuna entre os dois é onde a história ganha corpo. A dinastia de Avis governou Portugal durante dois séculos, até 1580, quando D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir e o trono caiu nas mãos filipinas. A Revolução de Avis deixou como legado a consolidação de uma identidade portuguesa distinta da castelhana e o início de uma tradição marítima que culminaria nas Grandes Navegações. Não é exagero dizer que a estrutura política e social que permitiu os Descobrimentos foi construída nos dois anos de 1383 a 1385.