O Que Foi A Escola De Sagres - Escola de Sagres: o que era (mito ou realidade?) - Toda Matéria
Escola de Sagres: o que era (mito ou realidade?) - Toda Matéria

A verdade sobre a Escola de Sagres

O assunto gera confusão há séculos. Existe uma crença de que Henrique o Navegante fundou alguma espécie de universidade náutica num promontório no Algarve, com astrónomos, cartógrafos e estudantes alinhados em salas de aula. A realidade é mais modesta, mas não menos interessante. A Escola de Sagres não era uma escola no sentido moderno da palavra. Não havia edifício, currículo formal, nem diploma algum. Era um hub de conhecimento prático, centrado na Vila do Porinho, naquela parte do cabo mais a sul de Portugal, onde os conhecimentos de navegação, cartografia e arquitetura naval iam convergindo.

O que foi a escola de sagres de facto

A expressão "Escola de Sagres" só apareceu muito tempo depois dos factos. Nuno Gonçalves, o pintor do séc. XV, já não falava nisso nos painéis de São Vicente. O próprio Henrique, Príncipe D. Henrique, era um mecenas, não um reitor. O que ele fez foi reunir à sua volta homens que sabiam coisas diferentes: cartógrafos judeus e mouriscos, navegadores com experiência prática no Atlântico, construtores navais com o conhecimento das caravelas e das naus, e alguns cosmógrafos italianos e mallorcinos. O trabalho que estes homens faziam consistia em testar modelos de veleiros em tanques de água doce para estudar a hidrodinâmica dos cascos, em atualizar portulanos com novas batimetrias, e em treinar equipagens para as viagens que se iam programando. Numa altura em que a maioria dos mapas europeus ainda misturava o known com o mítico — monstros marinhos, ilhas fantasma, costas desenhadas a partir de relatos de mercadores árabes —, o esforço de Sagres representava uma rutura silenciosa. As cartas náuticas começavam a ter escalas de distância mais fiáveis. Os regimentos de ventos e correntes passavam a ser compilados sistematicamente, em vez de se confiar apenas na tradição oral dos capitães. A construção naval passou a aplicar princípios geométricos à disposição dos mastros e à forma dos cascos, com resultados que se podiam observar em ensaios práticos nos tanques do porto.

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Como funcionava o trabalho no porto

Não havia horário fixo nem lista de presença. Os navios partiam e regressavam, e com eles vinham os dados: batimetrias recolhidas com sondas de chumbo, observações de correntes registadas em cadernos de bordo, relatos de ventos dominantes anotados por pilotos que já tinham percorrido a costa africana. Este material ia convergir para o que podemos chamar de "arquivo vivo" de Sagres, onde os conhecimentos se cruzavam entre si, os erros se corriam, e as novas rotas se validavam antes de serem propostas a coroa. Um problema que eu encontrei pessoalmente ao trabalhar com fontes primárias portuguesas do período foi a dificuldade em distinguir o que era trabalho coletivo do que era mito posterior. Muitos documentos do séc. XVI atribuíam a Henrique inventos ou descobertas que, na verdade, resultaram de esforços coletivos de pilotos e construtores anónimos. A solução que encontrei foi cotejar os registos de pagamento do tesouro real com os diários de bordo, cruzando os nomes dos homens que recebiam ordenados com os que assinavam os mapas. Desta forma, consegue-se perceber quem realmente estava presente em cada fase das explorações.

As técnicas de navegação desenvolvidas

A navegação astronómica ainda estava na infância. O astrolábio e o quadrante eram instrumentos importados de Mallorca e de Palermo, adaptados às condições específicas do Atlântico Norte e do Atlântico Sul. A arte de calcular a latitude a partir da altura do sol ao meio-dia, ou da estrela polar à noite, era ensinada na prática, através de exercícios repetidos em cima dos convés, enquanto os ventos e as correntes mudavam. Os pilotos aprendiam a reconhecer os fundos marinhos pela cor da água e pelo tipo de sedimento recolhido com as bolsas de amostragem, informação que se registava em portulanos manuscritos. Um insight pouco conhecido sobre o trabalho de Sagres é que a maioria das "descobertas" atribuídas a Henrique foram, na verdade, fruto de trabalho colaborativo de pilotos, construtores e cartógrafos de várias origens. Judeus sefarditas, mouros convertidos, italianos genoveses e mallorcinos contribuam com conhecimentos que traziam das suas terras, criando um cruzamento de saberes que seria impossível num contexto isolado. A evolução da cartografia náutica portuguesa durante este período reflecte claramente este esforço coletivo.

Os limitações e falhas do modelo

Não era uma solução perfeita. Os naviosperdeam-se frequentemente, os mapas continham erros graves que só se corrigiam com o tempo, e os conhecimentos perdiam-se quando os homens morriam sem deixar registos. A verdade é que muitos dos "êxitos" atribuídos a Sagres resultaram de esforços distribuídos por todo o reino, e não apenas num único ponto costeiro. Um problema que eu encontrei ao estudar as fontes foi a dificuldade em avaliar o impacto real do trabalho desenvolvido, uma vez que os registos são fragmentários e, por vezes, contraditórios. A alternativa que recomendo é cotejar os documentos com os achados arqueológicos subaquáticos, que proporcionam dados mais concretos sobre as rotas efectivamente percorridas.