O Que Foi A Assembleia Dos Estados Gerais - Assembleia dos Estados Gerais - Revolução Francesa - Aula Zen
Assembleia dos Estados Gerais - Revolução Francesa - Aula Zen

O sistema de votação que ninguém via venir

A Assembleia dos Estados Gerais foi convocada pela última vez em 1789 na França. O contexto era simples: a coroa estava falida, os impostos não entravam e a crise fiscal tinha chegado ao ponto de Luís XVI não ter outra saída senão reunir os representantes das três ordens para approvar novas taxas. A questão nunca foi se a Assembleia aconteceria, mas sim como funcionaria o processo de votação quando os delegados chegassem. O que definiu o rumo dos acontecimentos não foi o desejo de reforma, mas um detalhe procedural que parecia técnico e foi explosivo. Cada ordem — clero, nobreza e terceiro estado — votava separadamente, e cada uma tinha apenas um voto coletivo. Isso significava que as duas ordens privilegiadas, somadas, sempre venceriam a única voz do terceiro estado, não importa quantos votos internos houvesse dentro dele. O terceiro estado tinha o dobro de delegados, mas isso não mudava nada no resultado final da votação por ordem.

O que foi a assembleia dos estados gerais e como ela funcionou na prática

O terceiro estado, liderado por figuras como Sieyès, argumentou que a representação deveria ser por cabeça, não por ordem. Sieyès publicou o panfleto "O que é o Terceiro Estado?" exatamente nesse período, e a resposta era direta: o terceiro estado era a nação, e os privilegiados eram um corpo separado. Quando os delegados do terceiro estado propuseram verificar os poderes de todos juntos, em sessão comum, o rei recusou. A impasse durou semanas até que, em 17 de junho de 1789, o terceiro estado declarou-se Assembleia Nacional. Os delegados do clero que estavam com eles se juntaram dias depois, e o rei, sem tropas suficientes para forçar a dissolução, aceitou o fato consumado em 9 de julho. O que muita gente esquece é que a Assembleia dos Estados Gerais de 1789 não começou como uma revolução. Começou como um mecanismo ordinário de aprovação fiscal. O rei queria dinheiro, não mudança política. O sistema de votação por ordem era deliberadamente desenhado para impedir que qualquer reforma substantiva passasse. Cada vez que os Estados Gerais foram convocados anteriormente, em 1302, 1484, 1560, 1576, 1588, 1593 e 1614, o resultado foi o mesmo: impasse entre privilegiados e terceiro estado, e depois dissolução sem grandes mudanças. A convenção era clara. O problema era que a convenção não funcionava mais.

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Dos cadernos de queixas, ficou claro que o terceiro estado pedia desde a abolição dos direitos feudais até a igualdade fiscal e a representação proporcional. A nobreza queria manter seus privilégios fiscais. O alto clero queria preservar seus bens. Ninguém queria abrir mão do que tinha. O que transformou aquilo em revolução foi a decisão do terceiro estado de não recuar quando percebeu que o sistema de votação os mantinha permanentemente em minoria. Um ponto que passa despercebido é que a Assembleia não tinha mandato para fazer Constituição. Ela própria criou esse mandato ao se autoproclamar Assembleia Nacional Constituinte em 9 de julho. Isso não estava nos regulamentos originais. Era uma jogada política pura, baseada na interpretação de que, se os delegados representavam a nação e não o rei, eles tinham autoridade para reescrever as regras do país. A legitimidade veio da ação, não de qualquer autorização prévia.

O período entre a convocação em 5 de maio e a declaração da Assembleia Nacional em 17 de junho é o mais estudado, mas também o mais mal compreendido. Não houve violência nesse intervalo. Houve manobras, negociações falhas e uma resistência burocrática que paralisou tudo. O rei tentou dividir o terceiro estado oferecendo algumas concessões menores. O terceiro estado recusou porque sabia que qualquer coisa aprovada sob o sistema de votação por ordem seria revertida na próxima sessão. A tática de Sieyès foi expor essa contradição: pedir uma reforma fiscal sem dar poder real aos que pagavam os impostos era um procedimento vazio. A Assembleia foi dissolvida pelo rei em 11 de julho, após a demissão de Necker, e quatro dias depois aconteceu a Tomada da Bastilha. A conexão direta entre os dois eventos mostra que a ruptura não veio do caos inicial, mas do reconhecimento de que o velho mecanismo não funcionava mais.

Por que a assembleia durou pouco e o que ela deixou

A Assembleia dos Estados Gerais de 1789 durou de maio a julho, aproximadamente seis semanas, antes de se transformar na Assembleia Nacional Constituinte. Esse não foi um governo que governou. Foi um ponto de ruptura institucional. O que restou não foram leis aprovadas pelos Estados Gerais, mas sim a Constituição Civil do Clero, a abolição dos privilégios feudais no Nuit de Août e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, todas produzidas pela assembleia que nasceu daquele impasse. Os cadernos de doléances reunidos antes da convocação contêm cerca de 60 mil páginas de demandas. A maioria pedia simplificação fiscal, fim dos direitos feudais e liberdade religiosa limitada. O que poucos esperavam era que a estrutura de votação por ordem transformasse uma reforma administrativa em revolução. O sistema foi desenhado para preservar o status quo, e o resultado foi exatamente o oposto.