Vícios de linguagem no dia a dia
A maioria das pessoas confunde vício de linguagem com errogramatical. Não é bem assim. Vício é algo que se instala pelo uso recorrente, muitas vezes sem malícia. O falante não está cometendo um equívoco pontual — ele está internalizando um desvio e não percebe. Quando alguém pergunta o que é vício de linguagem, a resposta curta é: qualquer desvio da norma padrão que se repete na fala ou na escrita de forma sistemática, comprometendo a clareza ou a adequação. Mas a realidade é mais suja que isso. Um vício pode parecer aceitável em um contexto e desastroso em outro.
Tipos que aparecem todo dia
O barbarismo é o mais conhecido. Trocar uma palavra pela forma errada: "interpretar" no sentido de "intepretar", "escola" como "excola". A pessoa não erra por ignorância — ela erra porque ouviu alguém falar daquele jeito e repetiu. O solecismo é o erro de regência ou concordância. "Presido à reunião" em vez de "presidiu à reunião". Ou "visita-o amanhã" quando o certo seria "visitá-lo amanhã". Regência é onde a maioria despenca. O verbo "assistir" já causou discussões intermináveis nos meus atendimentos.
O pleonasmo vicioso é outro clássico: "subir para cima", "descer para baixo", "embarcar num avião". Repetição desnecessária que soa natural para quem fala, mas é peso morto na escrita. A cacofonia acontece quando a junção de sons gera uma palavra indesejada. "Mandi-a" vira "man-di-a", e pronto. Sons colados que transformam uma frase inofensiva em piada de salão.
Tem também a ambiguidade, o coloquialismo excessivo em contexto formal, oism — aquela influência do inglês que entrou sem convite. "Deadline", "feedback", "printing" no meio de um relatório técnico. Cada um tem seu preço.
Um caso real que me marcou
Eu estava revisando um documento técnico há alguns anos quando deparei com uma frase que dizia algo como "fazem cinco anos que ele está na empresa". Alguém tinha aplicado a regra do "fazer" como verbo de tempo, que é impessoal, mas de forma invertida. O correto é "faz cinco anos". A pessoa não errou por falta de estudo — ela errou porque ouviu esse construction em reuniões, em e-mails, em conversas informais. O vício vinha de cima, de gente que deveria saber melhor. A correção não foi mudar a gramática. Foi mostrar o padrão e deixar claro que, naquele documento, o padrão era exigido. Não era opinião, era requisito do cliente. Às vezes o problema não é o vício em si, mas o contexto errado.
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O que ninguém conta sobre vícios
Primeiro: vício de linguagem não é o mesmo que variação dialetal. Dizer "a gente fomos" no Nordeste é variedade linguística legítima, não vício. O vício aparece quando o falante domina a norma culta e mesmo assim opta pelo desvio, ou quando o desvio entra por falha de atenção e não por identidade. A linha é tênue e muitos não conseguem enxergar. Segundo: a internet acelerou vícios que antes levavam décadas para se espalhar. Expressões como "tipo assim", "na prática", "senso comum" viraram marcas textuais de autores que nunca pararam para revisar. O problema é que elas passam despercebidas pelo próprio escritor. Você lê três páginas e só percebe quando alguém te aponta.
Terceiro: corrigir vício de linguagem em texto alheio é arriscado. Se você não conhece o registro do autor, pode estar "corrigindo" uma escolha estilística válida. O que parece vício às vezes é registro. O único modo seguro de distinguir é olhando o contexto e o público-alvo.
Como identificar e tratar
Leia em voz alta. Vícios ganham contorno quando você ouve, não quando lê nos olhos. O ritmo quebra, o som fica estranho, e aí você percebe. Use ferramentas de revisão, mas não confie cegamente. O Gramático, o Valebr, o LanguageTool — todos ajudam, mas eles não entendem registro. Um corrector automático pode marcar "a gente fomos" como erro e deixar "em casos como este" passar, sendo que o segundo é redundância disfarçada de elegância.
A técnica mais eficiente que eu uso é a leitura reversa: começar pelo fim do texto e ler frase por frase isoladamente. Isso elimina o efeito do conteúdo sobre a forma. Você para de acompanhar a ideia e passa a enxergar a estrutura. Vícios escondidos surgem rápido. Para vícios de regência, a solução é listar os verbos problemáticos do seu setor e consultar a regência antes de escrever. "Obedecer", "implicar", "pairar" — cada um tem sua preposição e cada um já provocou retrabalho em contratos que eu vi. Levanta cerca de 10 minutos e economiza horas de correção posterior.
Quando vício vira estilo
Tem limite. Textos jornalísticos, comunicados oficiais, peças jurídicas — o padrão é obrigatório. Mas em roteiros, crônicas, conteúdo para redes sociais, o vício pode ser escolha estética. "A gente foi" soa mais próximo em uma conversa do que "nós fomos". O problema é quando essa escolha invade espaços onde não pertence. O vício de linguagem existe no uso, não no dicionário. Ele se confirma pela frequência, não pela regra. Por isso a correção precisa ser contextual, não dogmática. Errar todo mundo pode, desde que saiba quando está errando e por quê.