O básico que a maioria dos manuais não explica direito
Quando você vê uma frase como "O João comprou um carro novo", o predicado é tudo aquilo que não é o sujeito. Neste caso, seria "comprou um carro novo". Simples assim, mas a coisa complica rápido quando você começa a encarar os tipos e as armadilhas que aparecem no dia a dia.
Entendendo o que é um predicado e seus tipos
O predicado é a parte da oração que contém o verbo e informa algo sobre o sujeito. Existem três tipos principais. O nominal tem como núcleo um nome, geralmente ligado ao sujeito por um verbo de ligação. Algo como "A Maria está cansada". O verbo ser, estar, ficar, parecer — esses são os verbos de ligação clássicos. O adjetivo "cansada" é o predicativo do sujeito, e toda a expressão "está cansada" forma o predicado nominal. O verbal, por sua vez, tem o verbo significativo como núcleo. "Os alunos estudaram para a prova". Aqui, "estudaram para a prova" é o predicado verbal, e o verbo carrega o peso da informação. Não há verbo de ligação meio termo — o sentido está todo no verbo.
O misto, ou verbo-nominal, é onde a maioria das pessoas erra. Ele acontece quando o verbo não é de ligação, mas mesmo assim aparece um predicativo. "O aluno parecia cansado". O verbo "parecia" aqui é de ligação, então seria nominal. Mas "O aluno chegou cansado". "Chegou" é verbo significativo, e "cansado" é predicativo do sujeito. Isso é predicado verbo-nominal. A diferença é sutil e causa confusão constante em exercícios e provas. O que eu vejo com mais frequência é gente confundindo complemento adverbial com parte do predicado. "Ele saiu rapidamente". "Rapidamente" é adjunto adverbial de modo, não faz parte do núcleo do predicado. O núcleo é apenas o verbo "saiu". Isso importa porque na hora de identificar o núcleo do predicado em análises sintáticas, adjuntos não entram na conta.
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Tenho um exemplo específico que ainda lembro. Havia uma frase no formato "A doença se manifestou tardiamente". Muitos analisadores automáticos classificavam isso como predicado nominal, mas na verdade é um verbo significatico com um advérbio. O "se" aqui é partícula apassivadora ou índice de indeterminação do sujeito, dependendo da interpretação, mas o núcleo do predicado é apenas o verbo. Eu corrigia manualmente inserindo uma regra que diferenciava verbos de manifestação e aparição de verbos de ligação, porque a lista padrão de verbos copulativos não incluía "manifestar-se" e o parser caía nessa armadilha.
Dicas práticas para identificação
Na prática, a forma mais segura é isolar o sujeito primeiro. Pergunte "quem praticou a ação" ou "de quem se fala". Tudo o que sobrar, após retirar o sujeito, é o predicado. Depois, dentro do predicado, identifique o verbo. Se for verbo de ligação, olhe se há um adjetivo ou nome que caracteriza o sujeito — aí é nominal. Se o verbo tiver significado pleno por si só, é verbal. Se tiver verbo significativo mais predicativo, é verbo-nominal. Um detalhe que quase ninguém menciona: verbos como "virar", "ficar", "tornar-se" são frequentemente tratados como copulativos, mas em contextos informais podem funcionar como verbos significativos. "Ele virou um profissional". Em português brasileiro coloquial, isso pode ser interpretado como verbo-nominal, mas em normas mais rígidas, "virar" aqui funciona como verbo de ligação com "profissional" como predicativo. A ambiguidade existe e varia conforme o registro.
Outro ponto que causa problemas reais é a elipse do verbo. Frases como "João estuda; Maria, trabalha" têm o verbo "estuda" no primeiro predicado e "trabalha" no segundo, mas a estrutura com vírgula pode enganar. O predicado da segunda oração é apenas "trabalha", embora a ausência explícita do verbo na primeira parte possa levar a confusão na hora de analisar a coordenação. Se você está trabalhando com processamento de linguagem natural ou análise sintática automatizada, tenha cuidado com orações passivas. "O carro foi vendido". O sujeito paciente é "o carro" e o predicado é "foi vendido". Mas sistemas ingênuos muitas vezes tratam "vendido" como adjunto adnominal por causa da forma particípia, quando na verdade ele é parte do verbo no predicado verbal. Corrigir isso exige reconhecer estruturas de voz passiva analítica, o que nem todos os analisadores fazem bem.