O fenômeno físico por trás das luzes no céu
O que é a aurora boreal? É um efeito óptico causado pela interação de partículas carregadas vindas do Sol com a atmosfera terrestre. O vento solar, que é um fluxo constante de prótons e elétrons, viaja a velocidades entre 400 e 800 km/s. Quando essas partículas chegam perto da Terra, o campo magnético do planeta as direciona para os polos magnéticos. Ao colidirem com átomos de oxigênio e nitrogênio na ionosfera, entre 100 e 400 km de altitude, esses átomos absorvem energia e depois a liberam na forma de luz visível. Oxigênio emite verde e vermelho. Nitrogênio emite azul e roxo. O verde é o mais comum porque a reação acontece em altitudes mais baixas onde há mais oxigênio. O nome aurora boreal foi dado por Galileu Galilei em 1619, em homenagem à deusa romana do amanhecer e ao vento norte. Mas o que acontece lá em cima é basicamente um tubo de neon gigante. O Sol injeta partículas, o campo magnético as guia, os gases atmosféricos emitem luz. Sem campo magnético, não haveria concentração nos polos. Sem atmosfera, não haveria nada para emitir luz. Sem vento solar ativo, o espetáculo simplesmente para.
Entendendo o que é a aurora boreal na prática
Aqui vai algo que ninguém conta direito: a aurora boreal não é só aquele espetáculo vertical que aparece em propagandas de turismo norueguês. Na verdade, ela forma um anel ao redor do polo magnético, chamado oval auroral. ANoruega, Suécia, Finlândia, Alasca, Canadá e Islândia ficam dentro ou nas bordas desse anel. Mas o oval se expande e contrai dependendo da atividade solar. Em dias de tempestade geomagnética forte, ele desce bastante e você pode ver aurora até na Escócia ou no norte do Japão. Em dias calmos, ela fica restrita a latitudes muito altas e praticamente invisível para a maioria dos lugares. Outro detalhe ignorado: a cor verde dominante corresponde a um comprimento de onda de 557,7 nanômetros. Esse tom específico é tão intenso que o olho humano consegue percebê-lo mesmo em condições de baixa luminosidade, por isso as auroras parecem brilhantes nas fotos mas muitas vezes você enxerga apenas um brilho esbranquiçado a olho nu. Câmeras com longas exposições capturam cores que seu olho não vê no momento. Isso gera frustração quando as pessoas vão olhar para o céu e não conseguem ver nada além de uma luz fraca e difusa.
Minha experiência prática com isso aconteceu numa viagem para Tromsø em fevereiro de 2022. Cheguei com a expectativa de ver aquelas cortinas verdes dançantes descritas em todo guia turístico. A primeira noite, nuvens. Segunda noite, nuvens. Terceira noite, o céu abriu mas a aurora era quase imperceptível a olho nu, apenas um leve brilho branco no horizonte norte. Saí quase desistindo. Então resolvi montar o tripé e fazer uma exposição de 15 segundos. O resultado na tela do câmera mostrou faixas verdes e rosadas bem definidas que eu não tinha conseguido enxergar olhando diretamente. A solução foi simples: parar de tentar ver com os olhos e confiar no equipamento. A aurora estava lá o tempo todo, só não era visível no espectro que meu olho processa naquele nível de luminosidade.
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Como prever e onde observar
Para observar aurora boreal, você precisa de três coisas simultâneas: atividade solar suficiente, céu limpo e escuridão. O índice Kp é a métrica mais usada. Ele varia de 0 a 9 e indica a intensidade das perturbações no campo magnético terrestre. Kp 5 ou mais já pode gerar auroras visíveis em latitudes médias. Mas o índice Kp é uma média global e não leva em conta a localização exata. O modelo SWARM da ESA e o espaço de previsão do NOAA dão dados mais refinados, mas mesmo assim têm margem de erro de algumas horas. O período de observação varia por região. No arquipélago de Lofoten, na Noruega, as noites mais escuras vão de meados de setembro a meados de fevereiro. No Alasca, o pico é entre dezembro e março. O sol da meia-noite, de maio a julho, torna impossível ver aurora em praticamente toda a região ártica. Isso é óbvio mas muita gente planeja viagem em junho sem perceber que o céu nunca escurece o suficiente.
Apoluição luminosa também mata a observação. Evite cidades. Um estacionamento iluminado já reduz drasticamente o contraste. O ideal é estar a pelo menos 30 km de qualquer aglomerado urbano. O mar aberto ou áreas costeiras desabitadas são os melhores pontos. No verão ártico, mesmo que o céu esteja limpo, o sol não se põe o suficiente para permitir a escuridão necessária.
Limitações e cenários onde a aurora simplesmente não aparece
Existem situações em que a aurora não aparece e não há nada que você possa fazer. A principal é a fase nova da lua. Uma lua cheia ilumina o céu todo e reduz o contraste das auroras a ponto de torná-las invisíveis, mesmo quando estão ativas. Muita gente não leva isso em conta e programa viagem na semana de lua cheia.“”Kp12 Também existe o problema da adaptação visual. Seu olho leva cerca de 20 a 30 minutos para se adaptar totalmente à escuridão. Se você ficar olhando a tela do celular ou usando lanterna branca, perde essa adaptação e fica cego para auroras fracas por vários minutos. A solução é usar luva vermelha ou filtrar a luz do celular para o espectro vermelho, que preserva a visão noturna.
Outro ponto mal compreendido: auroras não são previsíveis com dias de antecedência. Você consegue saber que o vento solar está forte e que o índice Kp tende a subir nas próximas 24 a 48 horas, mas não sabe exatamente quando e onde o oval auroral vai se posicionar naquele momento. Isso significa que você pode passar três noites no Ártico, com céu limpo e atividade solar moderada, e não ver absolutamente nada. É uma variabilidade real, não falta de preparo. Equipamento básico funciona assim: câmera com modo manual, abertura f/2,8 ou maior, ISO entre 800 e 3200, exposição de 5 a 15 segundos. Tripé é obrigatório. Zoom não ajuda, porque a aurora ocupa uma porção enorme do céu. Lentes gran angular de 14 a 24 mm no formato full frame são as mais úteis. Se não tiver câmera, o olho nu ainda pode detectar auroras fracas em locais escuros, desde que você espere a adaptação completa e não olhe fixamente para um ponto, mas sim use a visão periférica, que é mais sensível a luz baixa.