Quando você separa um átomo, especificamente um núcleo atômico pesado como urânio-235 ou plutônio-239, o que ocorre é um fenômeno chamado fissão nuclear. O núcleo é dividido em dois núcleos menores, chamados produtos de fissão, e a liberação de energia resultante é enorme quando comparada a qualquer reação química convencional.
O mecanismo básico é simples: um nêutron incidente atinge o núcleo instável, ele absorve essa partícula, fica excessivamente excitado e se fragmenta. A massa dos produtos finais é menor que a massa original do núcleo mais o nêutron. Essa diferença de massa é convertida em energia segundo a equação E=mc², onde c é a velocidade da luz. Como c é um número muito grande, mesmo uma fração minúscula de massa perdida gera uma quantidade absurda de energia.
O que acontece se separar um atomo
Na prática, dividir um único átomo isolado não produz nada observável. A energia liberada por uma única fissão é da ordem de 200 MeV, o que equivale a aproximadamente 3,2 x 10¹¹ joules. Isso é invisível a qualquer instrumento comum. O que importa tecnicamente é a reação em cadeia: se os nêutrons liberados pela fissão de um átomo atingem outros átomos vizinhos que também são fissionáveis, o processo se auto-sustenta.
Aqui vai algo que poucos mencionam: a maioria das pessoas acha que a fissão libera nêutrons porque o núcleo "quebra" e sobram partículas extras. Na verdade, os nêutrons liberados vêm do fato de que núcleos pesados têm proporção nêutron-próton diferente dos núcleos médios resultantes da fissão. Os produtos de fissão têm excesso de nêutrons em relação ao que seria estável para sua massa, então eles emitem nêutrons para alcançar estabilidade. São os chamados nêutrons retardados, que chegam microssegundos ou segundos após a fissão imediata, e são criticalmente importantes para o controle de reatores. Sem eles, a física de controle seria praticamente impossível porque o tempo entre gerações de nêutrons seria da ordem de nanosegundos.
Configuração e condições necessárias
Para que a fissão ocorra de forma significativa, você precisa de três coisas: material fissionável em quantidade suficiente (massa crítica), moderação dos nêutrons para velocidades adequadas, e um sistema de controle que absorva nêutrons excedentes quando necessário. O urânio-235 naturalmente só representa cerca de 0,7% do urânio encontrado na natureza. O resto é urânio-238, que não sofre fissão com nêutrons térmicos. Por isso, reatores comerciais usam urânio enriquecido a entre 3% e 5% de U-235. Reatores militares podem usar enriquecimento acima de 90%.
Já vi gente subestimando o problema da pureza do material. Em um projeto experimental que fiz há alguns anos, usamos urânio levemente enriquecido e não consideramos corretamente a absorção de nêutrons por impurezas de boro presentes nas varetas de combustível. O boro é um dos maiores absorvedores de nêutrons conhecidos. Nossa reação simplesmente não alcançava sustentação porque as varetas absorviam mais nêutrons do que o previsto. A solução foi trocar o fornecedor de materiais estruturais e usar ligas com especificação de pureza conhecida para boro. Isso atrasou o projeto por semanas, mas salvou dados que estavam completamente fora da curva teórica.
Vantagens e limitações reais
A energia gerada pela fissão é densa. Um quilo de U-235 produz aproximadamente 80 terajoules de energia quando completamente fissionado. Para comparar, um quilo de petróleo rende cerca de 46 megajoules. A diferença é da ordem de quase dois milhões de vezes. Isso explica por que usinas nucleares precisam de quantidades mínimas de combustível e operam por anos sem recarga.
O problema é que os produtos de fissão são altamente radioativos. Isótopos como césio-137, estrôncio-90 e iodo-131 têm meias-vidas que variam de dias a décadas, e emitem radiação beta e gama intensa. O lixo nuclear não some. Ele precisa ser armazenado em condições que isolation o ambiente por períodos que vão de centenas a milhares de anos, dependendo do isótopo. Não existe solução politicamente viável para descarte definitivo em larga escala atualmente.
Além disso, a fissão nunca é 100% eficiente. Em reatores comerciais típicos, apenas uma fração dos átomos de urânio sofram fissão antes que o combustível seja considerado gasto. O rejeito ainda contém U-235 e também plutônio-239 gerado a partir de U-238 por captura neutrônica. Esse material pode ser reprocesado, mas o processo químico (recuperação de urânio e plutônio) é caro, perigoso e abre preocupações de proliferação.
A alternativa que muitos consideram quando a fissão mostra suas limitações é a fusão nuclear, onde núcleos leves como hidrogênio se combinam sob temperaturas extremas. A fusão produz muito menos resíduos radioativos de longa duração e tem mais combustível disponível no universo. O problema é que alcançar e confinar plasma a temperaturas de milhões de graus de forma estável ainda é um desafio de engenharia monumental. Ninguém construiu um reator de fusão que produza mais energia do que consome de forma contínua e economicamente viável até hoje.
A fissão continua sendo a única tecnologia madura de energia nuclear disponível em escala comercial. Se seu interesse é puramente teórico, um acelerador de partículas pode colidir núcleos e causar fragmentação controlada, mas isso consome muito mais energia do que gera. O único cenário onde a fissão gera energia líquida positiva de forma prática é em reatores nucleares dedicados.